De que lado, Aldo?
Quarta-feira, 17 de outubro de 2018

De que lado, Aldo?

Aldo Rebelo, outrora comunista, posteriormente socialista, e atualmente correligionário do Paulinho da Força, declarou em entrevista concedida à BBC Brasil que a “esquerda trocou causas nacionais por defesa do ‘politicamente correto’”, razão pela qual ele se sentia afastado do que chamou de esquerda moderna[1]. O que o ex-ministro disse, ainda que não de forma expressa, é que o suposto abandono da tradicional luta de classes pela esquerda em favor de lutas de caráter identitário – o que denomina como politicamente correto – seria uma mudança de agenda deste lado do espectro político, tradicionalmente ligada à luta por melhorias econômicas dos trabalhadores.

O sociólogo Jessé Souza, de trajetória acadêmica e política de extrema relevância, possui passagens em suas obras mais recentes em que questiona uma suposta preocupação excessiva da esquerda brasileira com questões secundárias para um país que ostenta a abissal discrepância nos indicadores econômicos como o Brasil. Ao mesmo tempo que é exitoso em apresentar conceitos alternativos para a definição de classe social, ao fugir da cegueira economicista que afeta tanto a esquerda como a direita, centra o foco de sua trajetória acadêmica e política no conceito de luta de classes, tratando-a de forma una, ainda que sob diferente roupagem.

Com efeito, não é raro dos ciclos de esquerda, seja em âmbito acadêmico ou político, o questionamento e o distanciamento, como se excludentes fossem, das lutas tradicionais de classe e das atuais lutas identitárias. Enfim, a questão que pretende se tratar neste artigo, mesmo que de forma bastante breve, é se esta suposta ambivalência possui sustentação em um novo contexto socioeconômico, em que as distinções entre o fazer econômico e o fazer político não se mostram mais tão claras – se é que um dia o foram.


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Os filósofos marxistas Michael Hardt e Antônio Negri[2] sustentam que o capitalismo lida tranquilamente com crises de caráter objetivo, se reinventando com certa facilidade, todavia não fora ainda devidamente testado ante uma crise de caráter subjetivo, em que se possa verifica a construção de novos sujeitos. Sustentam que reivindicações tradicionais de classe, como a realizada por sindicatos organizados, tem o condão de tão somente remodelar, de forma bastante reduzida, as condições de trabalho, no entanto sem possibilidade de alterações substanciais para os objetivos que possuem.

Em um contexto de racionalidade neoliberal, em que o capitalismo hoje é totalidade, e abrange basicamente todos os setores da vida[3], qualquer luta democrática deve ser completa, não podendo se limitar a esse ou aquele setor. Depende-se, na verdade, da construção de um novo sujeito, o que não me parece possível se nos limitarmos às concepções tradicionais de luta de classe.

Hardt e Negri sustentam, ainda, que qualquer revolução deve pretender, para se definir como tal, alcançar maior liberdade e democracia. Por sua vez, questionam que a democracia não pode restar limitada entre a prevalência da liberdade sobre a igualdade, como verifica-se no ideário liberal, tampouco no contrário, com a ideia de igualdade prevalecendo sobre a liberdade, como posto nas experiências socialistas.

Assim, a necessidade é de se buscar uma valorização do sujeito enquanto tal, mas também enquanto membro de uma comunidade, o que se faz através do que conceituam como “multidão”[4], que operaria num sistema do comum,distinto da lógica binária entre privado e público. Dessa forma, parece-me que a produção deste sujeito é tarefa impossível se nos limitarmos à questão economicista da luta de classes, ou mesmo se a tratarmos como distinta das lutas identitárias.

Se o capital é o instrumento impessoal de dominação, como reverter as formas pessoais de dominação senão pelas lutas identitárias? Como afastar-se da realidade de que a cor ou o gênero ainda são elementos definidores de hierarquias? Se vamos separar a luta identitária da questão econômica,  vamos também desconsiderar que a cor da pele já foi tão importante para o capitalismo quanto o maquinário e o crédito, ou que é a questão subjetiva que torna desfavoráveis as condições econômicas da mulher no mercado de trabalho?

Ao que me parece, não é a “espécie” de luta que impede verdadeiras revoluções democráticas, mas sim a sua característica, se de fato revolucionária ou se apenas reformista. Hardt e Negri apontam que é necessário esforço político para associação destes dois campos de batalha – econômico e identitário – porém ao que me parece estas lutas são indissociáveis, dado que, considerada a amplitude do sistema capitalista em nossas vidas, não há mais qualquer barreira entre nosso agir econômico e o agir político.

Em um contexto de absoluto remodelamento das conformações econômicas, não me parece possível existir qualquer proposta de revolução democrática no âmbito da esquerda que não passe por: valorização absoluta do indivíduo em suas necessidades de liberdade e igualdade, pois só assim se criará o novo sujeito; fuga de ideais que procurem transferir a uma burocracia, estatal ou não, o poder de decisão sobre os rumos coletivos de uma sociedade, com a necessária valorização dos instrumentos de autogestão comunitária.

Com efeito,  diante do cenário político que hoje se avizinha no país, em que o candidato favorito declara expressamente que as minorias devam se adequar às maiorias ou serão extintas, a luta referente às subjetividades torna-se mais do que resistência ou questão secundária, para muitos passou a ser, na verdade, questão de sobrevivência, e sua redução é, neste contexto, estar do outro lado. Ok, Aldo?

Umberto Abreu Noce é advogado, formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, e Mestre em Direito Público pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e atualmente Doutorando em Ciências Jurídico-Econômicas pela Universidade de Coimbra

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[1] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44090858

[2] Referência principal para a trilogia Império, Multidão e Bem-Estar Comum.

[3]A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal; tradução Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016.

[4] Estes autores definem multidão basicamente como um conjunto amorfo de singularidades, que por ser ingovernável de forma transcendente revela-se terreno fértil para construções de autogoverno.

Quarta-feira, 17 de outubro de 2018
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