A responsabilidade dos intelectuais diante do flerte brasileiro com o fascismo
Sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A responsabilidade dos intelectuais diante do flerte brasileiro com o fascismo

Arte: Caroline Oliveira

O silêncio perante a atrocidade é uma forma de contribuir com a própria atrocidade

Noam Chomsky já havia registrado que a responsabilidade dos intelectuais consiste em expor a verdade e denunciar as mentiras. Em um momento como o atual, marcado por radicalizações, ascensão de forças hostis à democracia até então dormentes, relativização dos direitos humanos e ausência de compreensão de nossa história recente, é preciso que se indague qual o papel que elite intelectual brasileira desempenha na crise. Para tanto, não podemos perder de vista o papel que as redes sociais vieram a exercer como centro dinamizador de conflitos e nivelador entre os mais diversos atores sociais.

Historicamente, as universidades públicas brasileiras são tidas como lócus da classe intelectual e fomentadora de conhecimento em suas mais variadas áreas. Entretanto, sempre foi possível notar certo distanciamento das universidades em relação à comunidade ao redor e à sociedade civil, com sua produção sendo realizada e direcionada para um público específico (embora a política de cotas tenha suavizado esses privilégios). As universidades estão perdendo seu poder de transformação social e sua credibilidade, sobretudo na área de ciências humanas.

De pautas irrisórias como terra plana ou sucos que desintoxicam o organismo às mais graves como as campanhas anti-vacinação ou a liberação da fosfoetanolamina[1] (vendida como droga anti-câncer sem possuir validação científica) é ensurdecedor o silêncio dos cientistas. Não se posicionam, e quando o fazem não conseguem se fazer ouvir pela população. Essa complacência não deixa de ser prejudicial em áreas como política e economia, searas dominadas também por conflitos ideológicos e discordâncias quanto a melhor forma de organização social.

Em paralelo, é possível observar as redes sociais agindo como propagadora de informações, muitas vezes falsas, as chamadas fake news, e servindo de arena para radicalizações que esvaziam o debate e deturpam o foco de questões relevantes que deveriam ocupar o centro das discussões. Ressalta-se o espaço e tempo perdidos para se discutir o propalado kit gay, ou a adesão de candidatos à presidência às causas da fictícia URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), ao invés de discutir propostas para sair da crise. Impressiona a síndrome de Pôncio Pilatos que acomete nossa classe pensante em um momento de tantas dificuldades.

Onde estão nossos intelectuais quando é necessário explicar a perniciosidade de um estado de exceção ou quando é preciso desfazer confusões sobre a lei Rouanet? A elite intelectual observou complacente aos pedidos de volta à ditadura durante as manifestações pelo impedimento da presidente Dilma. Pouco se comprometeu para explicar os equívocos de política econômica e mudanças no cenário internacional que levaram o País a situação a qual se encontra. Igualmente pouco foi feito para esclarecer a população sobre a aplicabilidade da lei Rouanet, utilizada para atacar artistas que se posicionam sobre determinadas causas.

A crise que o País atravessa também expõe nossa deficiência intelectiva sobre conceitos básicos. É comum observar a apropriação de terminologias como comunismo, democracia ou ditadura sem nenhum rigor semântico ou conhecimento teórico. Também descortina o déficit informativo que os brasileiros têm sobre a situação atual de países vizinhos; há muita irresponsabilidade sobre como que a situação de nossos vizinhos da Venezuela é apropriada pelos internautas brasileiros e pouco entendimento sobre as desgraças que abalam a economia argentina ou requerem a intervenção nacional no Haiti. O déficit é ainda maior quando o assunto é a nossa própria história. Onde estão nossos cientistas quando é preciso corrigir a informação de que não houve escravização no Brasil e que os próprios negros se entregavam como escravos? Por que o silêncio?

 

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O Brasil tem hoje a terceira maior população carcerária do mundo, cerca de 40% são presos provisórios ainda esperando julgamento, 64% destes são negros[2]. Cabe mencionar também que as penitenciárias estão superlotadas, faltam vagas, muitas das quais ocupadas pelo fracasso da política de drogas que encarcera usuários portadores de pequenas quantidades de substâncias ilícitas principalmente se forem negros e periféricos. Onde está a classe pensante para refletir e apresentar propostas alternativas a essa calamidade? Onde está o poder de alavanca social que se espera das universidades? Encarceramento no Brasil sempre foi um tema polêmico, mas a voz da internet o tornou ainda mais nebuloso, muitos vislumbram em qualquer menção minimamente humanitária sobre o tema o fruto de um projeto de alienação educacional do partido político que ocupa a esfera federal desde 2002.

Longe de organizar uma doutrinação comunista, o governo petista foi responsável pela despolitização dos cidadãos (em nome da conciliação de classes) e pela fragmentação da esquerda. Uma vez no poder o partido caminhou para o centro do espectro político e abandonou pautas clássicas de qualquer partido de esquerda como reforma agrária e revolução no ensino. Atenuou suas críticas ao setor bancário e promoveu a política de formação de grandes empresas via crédito subsidiado do BNDES, assim surgiram Odebrecht e JBS, de campeões nacionais para as páginas policiais. Mais uma vez, é notória a incapacidade de nossos cientistas sociais em expor a verdade.

Não é possível continuar essa discussão sem entrar no mérito do que a universidade pública representa hoje. Seguindo uma tendência global, as universidades são avaliadas por critérios que privilegiam a produtividade, tal qual uma empresa do setor privado, e pelo menos quatro delas (USP, UNICAMP, UNESP e UFRJ) estão presentes nos mais concorridos rankings internacionais. Muitas teses, dissertações e artigos científicos são produzidos todos os anos, financiados por agências de fomento estatais.

Todavia, precisa-se levar em conta a relevância social do que está sendo produzido nesses centros, bem como a capacidade socialmente transformadora dessa produção. Estariam nossos cientistas mais empenhados em atender um modelo fordista de produção, auto interessados em prestígio individual e ávidos pela ampliação de seus currículos Lattes do que oferecer retorno ao público pelos elevados recursos que lhe são investidos todos os anos? Estariam tão sobrecarregados com a burocracia acadêmica que se tornaram insensíveis ao que acontece fora de seus muros?

O silêncio perante a atrocidade é uma forma de contribuir com a própria atrocidade. Hannah Arendt ao acompanhar o julgamento do caso Eichmann encontra no banco dos réus um profissional que “só estava fazendo seu trabalho”, um burocrata que possuía mulher e filhos para sustentar e para isso contribuiu de maneira silenciosa com o maior crime do século XX. A banalidade do mal, ou seja, essa opção por se manter isento e em silêncio em um momento em que o País flerta com o fascismo, relativiza direitos humanos e finge esquecer os assombros dos anos de chumbo tem como ponto nevrálgico a inépcia de nossos intelectuais de efetivar suas responsabilidades.

Se as redes sociais deram voz a um bando de idiotas como assegurou Umberto Eco, por que elas não podem servir de ponte entre os intelectuais e a sociedade comum. Essa distância entre comunidade e universidade precisa ser reduzida. Há alguns exemplos de sucesso de professores que utilizam as redes sociais para se aproximar do cidadão comum, levar até ele conceitos básicos e promover reflexão para além do senso comum ou de fake news. As redes sociais podem ser uma aliada valiosa na disseminação de conhecimento (até porque é com elas que os jovens ocupam boa parte de seu tempo), para isso elas precisam ser ocupadas por nossa elite intelectual que permaneceu ocupada em escrever apenas para seus pares.

 

Luiz Henrique Bispo Santos é economista formado pela Unesp.

 

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[1] https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/vida/noticia/2015/10/medicos-contestam-medicamento-milagroso-para-tratar-cancer-4882112.html
[2] http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-12/populacao-carceraria-do-brasil-sobe-de-622202-para-726712-pessoas

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