A incorruptibilidade do Mito sagrado diante do WhatsApp
Terça-feira, 23 de outubro de 2018

A incorruptibilidade do Mito sagrado diante do WhatsApp

Arte: Caroline Oliveira

Se os nossos olhos e ouvidos forem bons para discernir entre a mentira e a verdade, todo nosso corpo terá luz; se, porém, forem maus, nosso corpo será tenebroso (Mateus 6: 22-23)

As grandes tribulações da sociedade brasileira têm levado as pessoas mais simples e fieis à Palavra ao sofrimento e, consequentemente, à busca de superação de todos os seus males. Muitas tendem a acreditar que a aliança divina está rompida ou se rompendo com celeridade, que a corrupção produz a queda no coração do homem, que a vontade dos homens está escravizada pelo pecado. Os mais religiosos encontram na política e nos políticos a origem da corrupção e de todos os males; leem nos evangelhos que tal política e tais políticos receberão a retribuição da injustiça que disseminaram, os quais, de tão corruptos, se entregam à devassidão e se regalam em prazeres.

Tamanho é o sofrimento do povo de Deus que, no momento eleitoral em que vivemos, se cria a expectativa de uma autoridade com bênçãos divinas, que seja capaz de extirpar a devassidão, sofrimentos, angústias e azedumes da vida. A promessa retórica de situar o “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” do candidato presidencial, o ex-capitão Jair Messias Bolsonaro, é a frase de efeito bem elaborada por marqueteiros profissionais que seduz e faz renovar as esperanças de reaproximação dos homens de seu Criador. Com esse slogan espera-se revigorar os desejos de libertação das criaturas divinas da servidão da corrupção e se propõe a extirpá-la para a liberdade da glória dos filhos de Deus (Romanos, 8: 21).

Daí à exaltação de Bolsonaro como um mito demora pouco. O sofrimento e as prédicas de pastores neopentecostais pouco escrupulosos passam a representar o ex-capitão como a encarnação da incorruptibilidade e com força suficiente para libertar a nação da servidão em que vive. As metáforas bíblicas são torcidas e destorcidas para expressar a realidade. Há poucas perguntas racionais, poucos querem saber se efetivamente o corpo do ex-capitão está revestido de incorruptibilidade. Terá ele se tornado capaz de fugir aos interesses dos fariseus hipócritas? Estará prometendo-lhes a liberdade sem deixar, ele próprio, de ser servo da corrupção? (Pedro, 2: 19)

A realidade, porém, é concreta e inclemente com as metáforas e representações. Ela joga por terra a mitificação do candidato ex-capitão como ser incorruptível e nos impõe ver que a sua unção pelo conhecimento do Senhor não tem poderes de impedir que seja incorruptível, envolver-se com os corruptos mais ignaros e de se tornar igual ou pior do que eles. As provas são dadas pelos próprios hipócritas que o apoiam e disseminam fake news, deixando-se filmar em vídeos que viralizam na internet.

 

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Entre muitos apoiadores, os empresários, é preciso dizer, têm os seus corações longe dos ensinamentos divinos, suas bocas e lábios estão longe do Senhor (Mateus, 15: 8). Eles usam o Messias candidato para já ir realizando os seus fins e iludir o povo disparando notícias com mensagens de ódio e intimidação. O que eles pretendem é a subordinação do “mito” aos seus interesses mais odientos e de opressão dos trabalhadores.

As revelações da edição do jornal Folha de São Paulo do dia 18 de outubro de 2018 dão provas insofismáveis de que o altar do “mito” pouco difere do altar do bezerro de ouro e permitem ao povo ver o estado de corrupção do ex-capitão, igual ao de tantos outros que condena. Empresários de grande poder econômico e atuação em todos os ramos da economia, num comportamento típico dos fariseus hipócritas, investiram mais de 12 milhões de moedas para disparar em massa louvores ao ex-capitão e falsidades sobre o seu adversário, via WhatsApp. Usaram entre 20 e 300 mil grupos de WhatsApp abusando dos seus poderes econômicos para disseminar fake news nas redes sociais sobre os seus concorrentes: Fernando Haddad e o Partido dos Trabalhadores. Bolsonaro alegou não poder controlá-los, mas deixou e deixa de agir eficientemente para impedi-los; ele se desvia com estes apóstatas, e juntamente se fazem imundos (Salmos 14: 3)

Os tempos em que vivemos recomendam, pois, cautela aos justos e nos fazem lembrar que a ninguém é dado o direito de se enganar. A enxurrada de informações à nossa disposição nos permite flagrar as mentiras em tempo real. Se os nossos olhos e ouvidos forem bons para discernir entre a mentira e a verdade, todo nosso corpo terá luz; se, porém, forem maus, nosso corpo será tenebroso (Mateus 6: 22-23).

Com olhos e ouvidos maus não apenas o nosso corpo será tenebroso, mas também toda a nação que se deixa enganar. Por isso, os ímpios não podem predominar, eles serão castigados por suas obras de impiedade, que impiamente cometeram (Judas, 1: 15). Somente a verdade e a incorruptibilidade concorrerão para a libertação dos filhos do Criador.  

 

Zacarias Gama é professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Faculdade de Educação (UERJ/EDU), professor permanente do PPG em Políticas e Formação Humana – PPFH, membro do Conselho Nacional e Diretor Executivo da Cátedra REGGEN/UNESCO.  

 

Edição: Caroline Oliveira

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