Não vai dar certo
Terça-feira, 23 de outubro de 2018

Não vai dar certo

Imagem:  Cena icônica do filme A queda (Dowfall), 2004, na qual Hitler descobre que perdeu a guerra. Fonte: youtube. 

No último século (para só ficar nesse recorte histórico), o totalitarismo –  e sua estética mais perversa que é o fascismo –  não deu certo em lugar algum desse planeta. Claro que uns regimes demoraram mais que outros no poder, com consequências nefastas para a sociedade de cada país, e claro que ainda hoje existem países em regimes totalitários. Nem por isso podemos dizer que regimes totalitários dão certo a longo prazo.

É possível que eu não esteja vivo para ver a queda mais emblemática do mais importante deles na atualidade: o da China. Não vivi a época de Hitler, Mussolini ou Stálin. Mas já estava vivo na época do ditador romeno Nicolae Ceausescu, na revolução no Timor Leste, na queda de Salvador Allende no Chile, na recente “Primavera Árabe”, entre outros eventos. Nenhum terminou bem. É bastante provável que não termine bem também nos países que ainda mantêm esses regimes opressores de poder, como na já mencionada China, ou nos países que transitaram pela democracia e voltaram ao totalitarismo, ainda que disfarçado por votações periódicas, como a Rússia. E agora, salvo um milagre de última hora, no Brasil.

Hannah Arendt (1989), escrevendo sobre o totalitarismo, já avisava que: “Quando o totalitarismo detém o controle absoluto, substitui a propaganda pela doutrinação e emprega a violência não mais para assustar o povo (o que só é feito nos estágios iniciais, quando ainda existe a oposição política), mas para dar realidade às suas doutrinas ideológicas e às suas mentiras utilitárias”.

Fato é que se ainda existe luta por estas bandas, é porque Arendt estava certa: ainda estamos lutando contra a besta no cio. Um amigo alertou que a luta hoje é no mundo virtual, nas “fake news” dos grupos sociais online. Concordo em parte. Apesar da guerra suja hoje ser no campo invisível das mensagens eletrônicas, o povo na rua ainda tem o seu poder. Acredito piamente que os cidadãos em mobilização territorial podem fazer a diferença, seja lá em que tempo for.  Se isso não é verdadeiro, porque tanto medo ainda das passeatas e manifestações populares?

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Nesse sentido, não adianta ficar esperneando internet afora. As mobilizações multifacetadas e de gerações e de gêneros diferentes precisam fazer o seu papel de intermediário entre o afeto popular e a realidade vivida. Não se pode deixar que agrupamentos raivosos de pessoas escondidas atrás de um aparelho tecnológico (celular, tablet, notebook etc.), alcatéia de hienas na caça de uma sociedade putrefata, assuma o controle do que os cidadãos(ãs) mais necessitam: liberdade!

Claro que o discurso da alcatéia procura justificar a violência exacerbada por eles como algo que já estava insuportável. Propagam que só com um choque de mais violência se pode terminar com essa sociedade “deformada”. Arendt (2016) também percebeu isso, quando mencionou o relatório americano da Comissão Nacional das Causas e Prevenção da Violência, de Junho de 1969, citado no New York Times de 06 de Junho de 1969, o qual diz: “A força e a violência provavelmente serão técnicas de controle social e persuasão bem-sucedidas quando possuírem um amplo apoio popular”.

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Ora, não é exatamente isso que vem se passando no Brasil atual? Realmente, a grande onda fascista que se abateu no país, desde a queda da presidenta Dilma Rousseff, autoriza o uso da força e da violência extremada nos diversos casos já relatados de ataques contra as minorias.

O discurso de ódio de um povo que legitima um grupo de seres humanos (sic) voltados para a barbárie como projeto de governo, visando, ao fim e ao cabo, a centralização ainda mais de poder político e econômico, não faz sentido historicamente, ou seja, não perdura como modelo civilizatório. O próprio capitalismo já estaria ultrapassado, caso não tivesse recorrido à democracia como forma garantidora da sua violência inata junto aos menos favorecidos.

Portanto, esperar (supor, até) que um grupo político pseudo-democrático, com profundas raízes no sistema totalitário nacional, colocará em ordem o país convulsionado desde o golpe parlamentar de 2016 é entristecedor. Mais grave do que as conseqüências que podem (e devem) ser paralisantes em termos sociais para o conjunto da população, é ver algumas classes e frações de classes sociais destilarem todo seu veneno recalcado há anos contra as classes menos abastadas, pelo simples fato deles serem isso mesmo: pobres! Pobres que tiveram a ousadia de sonhar com um pouco mais. Ou não ouvimos absurdos como “onde já se viu pobre viajando de avião” na última década?

Infeliz daquele que já sabe que esse cenário convida ao caos futuro. A sensação é de que, como diz um velho ditado, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. No meio do caminho, com certeza seremos atropelados pelo “bicho” do mesmo jeito. Trinta anos depois da primeira eleição para presidente nesse país, caminhamos rumo ao desconhecido, quiçá ao som da marchinha “Por Deus, Pela Pátria e Pela Família”. Se a história se repetir, nem que seja como farsa, não dará certo de novo. Para além das perdas humanas do novo período de escuridão que se vislumbra, e sem falar do atraso social, econômico-político e ecológico, resta-nos torcer para que o aprendizado seja breve e definitivo.

André Márcio Neves Soares é Formado em Adm. De Empresas, Pós-Graduado em Direito do Trabalho e mestrando em Políticas Sociais e Cidadania pela UCSAL – Universidade Católica do Salvador.

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Referências:

ARENDT, Hannah. ORIGENS DO TOTALITARISMO. São Paulo. Companhia das Letras. 1989, pág. 390;
ARENDT, Hannah. SOBRE A VIOLÊNCIA. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 2016, pág. 35.
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