O retrocesso como novidade
Terça-feira, 23 de outubro de 2018

O retrocesso como novidade

Arte: Daniel Caseiro.

Por Felipe Athayde Lins de Melo

 

Naquela época eu visitava diariamente as unidades prisionais. Rodava cerca de três mil quilômetros ao mês. O limite de combustível para o veículo oficial subira de R$ 250,00 para aproximadamente R$ 1.350,00 desde que eu chegara ao escritório regional da Fundação em que trabalhava, numa área de abrangência que ia da divisa entre São Paulo e Minas Gerais, à divisa paulista com o Mato Grosso do Sul. O litro do álcool, à época, custava R$ 0,99.

Companheiro de trabalho, Marquinhos foi o primeiro a se incomodar: “poxa, todo lugar que a gente chega os caras vêm com a mesma pergunta?”, dizia, cada vez que saíamos de uma penitenciária. Referia-se aos diretores de unidades, que sempre nos recebiam com a indefectível “e aí, trouxeram alguma novidade?”. Como não éramos arautos das boas-novas, a resposta era sempre a mesma: “viemos ver como as coisas estão andando”. Estávamos implantando um programa de educação nas prisões de São Paulo e mais do que novidades, o que queríamos era ver as escolas funcionando, educadores bem formados, os planos de ensino sendo elaborados conforme as diretrizes estabelecidas, os horários de aulas sendo cumpridos, o material à disposição dos alunos.

Eu aprendera com Marquinhos a usar a técnica da vaca-leiteira: quando agendávamos uma visita a algum estabelecimento, nunca aparecíamos no dia. “Se você for comprar uma vaca de leite no dia combinado, vai ser enganado”, dizia meu parceiro: “o vendedor vai trancar a vaca mais cedo na noite anterior, vai colocar bicarbonato na água, vai fazer o diabo para parecer que a vaca dá muito leite. Então ou você vai antes do combinado, ou dois, três dias depois”. E assim fazíamos, nas poucas vezes em que era necessário agendar alguma visita. Mais tarde eu aprenderia outra técnica, com outro parceiro de trabalho. Seu Aparecido usava a persistência: “quando eu ia fazer supervisão de escola e desconfiava que a direção local maquiava as coisas ou só fazia os procedimentos corretos no dia da minha visita, eu ficava visitando a escola por uma, duas semanas. Aí o pessoal entendia que era melhor fazer a coisa direito do que ficar maquiando o tempo todo. As pessoas se acostumam”.

Lembrei desse período quando, conversando com uma colega de Brasília sobre as eleições presidenciais, ela afirmou que votaria no autoritarismo “só pra poder respirar quatro anos sem o PT. Depois eles podem até voltar”.

É, a novidade! Quando a gente se acostuma, sempre tem alguém pra dizer: “trouxeram alguma novidade?”. O filósofo Gilles Lipovetsky escreveu no seu A Felicidade Paradoxal:

É verdade que o leque de possibilidades hipermoderno causa mal-estar, mas num contexto em que “sempre acontece alguma coisa”, a vida passa por mais retomadas, alternâncias, mudanças frequentes. Oscilando permanentemente entre pessimismo e otimismo, depressão e excitação, abatimento e euforia, sentimento de vazio e projeto mobilizador, o moral do indivíduo hipermoderno é um ioiô.

A percepção do filósofo parece-me certeira. Assim, desde que o governo PT passou a ser alvo não somente dos partidos de oposição e da imprensa tradicional, que apenas episodicamente flertou com sua principal liderança, mas também do ativismo partidarizado do judiciário e, a partir de 2013, das turbas verde-amarelas, “a novidade”, que não vem só do Brejo da Cruz, passou a ser a maior aspiração política da população brasileira. É importante notar que nenhum jargão do campo garantista-progressista foi bem-sucedido. Tivemos o “não vai ter golpe”, e o golpe veio. Com ele, passaram os fascistas. O “fora Temer” virou quase uma unanimidade, mas o temeroso sairá do Palácio somente depois de passar a faixa ao seu sucessor. Bradamos “Lula livre” e insistimos que “eleição sem Lula é fraude”, mas ele, que se recusou a seguir o apelo de milhares de apoiadores para se refugiar com o emblemático Mujica, não está nas urnas. E veio o #elenão, fundamental para marcar que milhões de brasileiras e brasileiros repudiam a misoginia, o machismo disfarçado nas piadinhas, a LGBTfobia cordial, o racismo civilizado, a demofobia interessada, o bom mocismo seletivo. Mas o elenão, ao que tudo indica, também passará.

Cartaz do Partido Conservador inglês de 1909 no qual o socialismo, representado pela besta, sufoca a Britânia.
Cartaz da Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento político fascista nacionalista brasileiro criado em 7 de outubro de 1932.

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Importa, contudo, assinalar um traço marcante desta eleição: diferentemente de outros momentos, em que “a novidade” era o motivo maior (não esqueçamos do bonitão Fernando Collor!), agora a novidade é a recusa. Qualquer pessoa que tenha tentado dialogar com um amigo ou parente admirador do Coiso notou que o diálogo era impossível. E embora tenhamos insistido, duvido que alguém tenha encontrado em seu interlocutor algum argumento racional para a escolha pelo autoritarismo.

E isso é compreensível: porque não se trata de um voto por convicção, mas sim de um voto pela negatividade. Nietzsche, o Gênio Inquieto, identificou esse princípio como a “moral do ressentimento”. Disse ele:

enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um “outro”, um “não-eu” – e este Não é seu ato criador (…) A moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação.

Assim se erigiu a campanha do inominável: como uma profunda negação “a tudo que está aí”, muito embora, na maioria das vezes, essa negação não passe de vingança ou ocultação, pois todos os valores recusados estão presentes na própria construção do Mito, o intocável, que o é não pelo que representa de positivo, mas exatamente por esconder que, em si, carrega toda a negação da negação que ele é: o cristão que apoia a tortura; o pai da fraquejada que quer defender as mulheres dos bandidos; o homem que age fora da lei, mas chama os outros de criminosos; a campanha que se realizou durante mais de dois anos, mas que diz ter precisado de pouco dinheiro; o deputado que usou verbas públicas para promoção pessoal, mas diz que corrupto são os outros; o candidato que defende a educação, mas quer fazer dela um grande balcão de negócios para os amigos que são empresários do setor; o nacionalista que quer vender o patrimônio público, e por aí vai. Por isso, argumentos é o que menos se acha na defesa daquele que pode ser o futuro presidente do país.

Não há dúvidas de que os próximos anos serão terríveis para a população brasileira em geral. Todos seremos afetados caso se confirme esta escolha, escolha decorrente sobretudo das mentiras construídas ao longo dos últimos anos.

Mas resistir é a origem e a mola propulsora das lutas pelos direitos humanos, pelos direitos civis, trabalhistas e sociais. Sabemos que sem luta nunca houve conquistas e, portanto, seguiremos. Porque “amanhã vai ser outro dia”, como cantou o maior de todos os grandes compositores brasileiros.

Felipe Athayde Lins de Melo é Paulistano, filho de um nordestino que foi preso e torturado pela Ditadura de 64. Doutorando em Sociologia, é membro do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da UFSCar e do Laboratório de Gestão de Políticas Penais da UnB.

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