Bolsonaro vem aí pra acabar com (isso) tudo
Quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Bolsonaro vem aí pra acabar com (isso) tudo

Arte: Daniel Caseiro.

Como quase tudo que escrevo, a ideia para este texto surgiu no meu cotidiano. Esperava minha vez para uma sustentação oral em uma – como sempre – longa pauta. Sentei para aguardar. Cheguei ao início da sessão e o papel fixado na porta da sala me dava uma informação aterrorizante: eu era o 68º da fila! 

Ouvia algumas conversas entre colegas, advogados e estudantes que comentavam de amenidades aos julgamentos daquele dia. Naquele movimento frenético, ouvi no ar uma conversa de um dos patronos. Não parecia muito velho, mas certamente tinha mais que o dobro dos meus 25 anos. Dirigia-se a alguém que sequer consegui identificar e comemorava o fato de seu processo ter digito 17 e ter sido protocolado em 2017. Supunha, numa óbvia descrença em qualquer explicação metafísica para o fato, que aquilo era um sinal de em quem deveria votar no segundo turno das eleições. Talvez tenha sido a explicação mais inteligente para um voto neste candidato que eu já ouvi. 

De qualquer forma, aquilo me assustou. O que estaria acontecendo com os operadores do Direito? 

Não era a primeira vez que isso me acontecia. Fui cortar o cabelo em uma barbearia na qual não era acostumado (se Ney, meu barbeiro de muitos anos, ler esse texto acho que vou ter um problema sério…) e de entrada fui sondado. Era um sábado, antes do primeiro turno, estava de bermuda e camisa do Vitória, ninguém adivinharia que eu seria advogado ou muito menos militante de esquerda. Ouvi: “Bolsonaro vem aí pra acabar com isso tudo!”. A declaração parou por aí. O barbeiro não me disse o que era “isso tudo”. Limitei-me a responder com o mais breve dos argumentos “Eu espero que não. Ainda quero receber 13º salário”. Pensei em interromper o serviço e ir embora, confesso, mas acho que um cabelo cortado pela metade não ia ser a melhor das alternativas. Chegou um outro rapaz, mais velho que eu, mas certamente bem mais jovem que aquele que encontrei na Turma Recursal. Parecia frequentar a barbearia e logo foi identificado como advogado pelos presentes. Preferi permanecer anônimo quanto à minha profissão. Ele falava ao barbeiro: “você não vai votar em Haddad, não ‘né’? Vamos ter um país governado da cadeia?” Foi meu limite. Questionei então como funcionaria esse governo da cadeia. O que desencadeou uma série de debates e vários desencontros na fala do colega que iam da segurança jurídica ao devido processo legal, passando pela presunção de inocência. Só então descobriram minha “identidade secreta” de advogado. Não me parecia que ele desconhecia o que eu falava ou sequer que discordava tecnicamente, mas estava cego. Cego pelo ódio. Incapaz de observar naquele momento o quanto ele ia de encontro a sua condição de operador do mundo jurídico.

Os dois fatos me levaram a uma reflexão: como pode um advogado, que conhece as leis, a Constituição e a base do Direito Brasileiro defender um candidato que é publicamente contrário à Ordem Jurídica do Estado Democrático, os Direitos Humanos e a Justiça Social, tudo aquilo que prometemos defender quando recebemos a “carteirinha da OAB”? Como um profissional indispensável à administração da justiça não compreende que a justiça também é indispensável a ele?

Firmamos compromissos e reconhecemos no nosso código de ética princípios que nos obrigam a defender o combate à tortura, a qualquer forma de opressão ou atentado à democracia. O que acontece com os colegas que esqueceram qual a real função do advogado? Tenho uma aposta: ninguém está imune a essa onda de ódio. Como os juristas, outras pessoas, deixando de lado valores pessoais ou profissionais se somam ao candidato do fascismo, afoitos por uma mudança que querem, mas sequer sabem bem qual é.  

Prefiro seguir tranquilo. Em dia com o compromisso que firmei numa tarde de quinta feira na sede da OAB da Bahia, com o código de ética da advocacia e com a Constituição, apaixonando-me a cada dia pelas paixões dos outros, e fazendo minha qualquer injustiça que eu possa presenciar. Quanto aos colegas, tenho certeza que apenas temporariamente desviaram do caminho. Os entrego à sempre justa mão da história, e trago como reflexão as sábias palavras do meu conterrâneo, o baiano Rui Barbosa:

“Os piores de todos os crimes, os que mais atacam a moral pública, e depõem contra a civilização de um povo, são as violências contra a lei pelos a quem ela incumbiu da sua guarda.” 

Matheus Maciel é advogado e pós graduando em processo civil.

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Quarta-feira, 24 de outubro de 2018
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