Sigo a Cristo e acredito que o amor vence o ódio
Quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Sigo a Cristo e acredito que o amor vence o ódio

Foto: Gabriel Mothé.

Sigo a Cristo e acredito que o amor vence o ódio – Frase contida nos adesivos distribuídos no ato organizado pelo “Coletivo Cristão: O Amor vence o Ódio”, em 18/10, no Rio, reflete a postura de seguidores de cristo frente ao apoio de candidatos fascistas nas igrejas

Por Karine Fernandes

 

Na noite da última quinta-feira (18), estive no evento “O Amor vence o Ódio – Caminhada e Vigília”, no Centro do Rio de Janeiro, e pude, pela primeira vez em meus 26 anos de vida, acompanhar um ato ecumênico – apesar de ter sido organizado por cristãos -, que reunia objetivos para além dos religiosos: uma manifestação política que posiciona o amor, ensinado nas mais diversas crenças, como o instrumento principal para vencer a crescente de ódio que culminou nas eleições deste ano.

Nascida em lar cristão protestante e criada em igreja batista tradicional, eu já havia vivenciado, por exemplo, alguns movimentos cristãos integrarem (e serem execrados pela maioria dos crentes) protestos pela liberdade religiosa, porém, experienciar cristãos precisando ratificar a palavra de amor do evangelho de Jesus Cristo (mais uma vez, sendo minoria marginalizada dentro dos movimentos cristãos) e combater o fascismo, apesar de óbvio, é novidade para mim.
Foto: Mayara Donaria.

Como mulher, negra, oriunda de periferia, já havia esbarrado em algumas situações perversas, com a chancela tanto dos representantes da igreja quanto dos poderosos governantes, pautadas numa total deturpação do cristianismo e na má utilização da política para garantir benefícios próprios e conservação do status quo, todavia, de maneira menos escancarada.

Até alguns anos atrás – mais precisamente até as eleições de 2014 –, notava a instituição sempre se colocando em um lugar de neutralidade (que hoje enxergo como uma coadunação disfarçada de isenção), entretanto, de lá pra cá, e principalmente neste ano, percebo o aumento da participação das igrejas na política – geralmente estando em concordância com barbáries –, não só por inúmeros líderes estarem hoje ocupando cadeiras no congresso e assembleias legislativas, o que já acontece há anos, mas, também, pelo fato de púlpitos e membros serem usados para a manutenção de poder de candidatos ditos “cristãos”.

Candidatos que se autodeclaram cristãos e que, com o apoio de líderes famosos e midiáticos (principalmente do segmento evangélico), são antidemocráticos, preconceituosos, pregam a tortura, a violência contra minorias, o fim dos direitos humanos, e tudo isso, em nome de Jesus. Usam a bíblia como escudo para estarem de acordo com atrocidades, desprezando a história de Cristo na Terra que tanto se assemelha aos mais oprimidos do mundo de hoje: um jovem negro, pobre, periférico, que contrariava toda a tradição, que estava junto daqueles que a sociedade abominava, que defendia quem a sociedade não queria enxergar, que foi condenado por líderes e torturado com a permissão do povo que o considerava um subversivo.
Foto: Matheus Rodrigues.

Contudo, em meio a essa multidão, também existia aquele pequeno grupo que havia entendido a verdadeira mensagem de amor, graça e misericórdia do evangelho. Existiam mulheres e homens que eram contra as maldades praticadas às custas de uma religiosidade que via Deus como um ser que praticava a justiça com ira. Neste outro lado, analogicamente, eu enxerguei os irmãos e irmãs que andaram da Igreja da Candelária até o Largo da Carioca e se ajoelharam, juntos, intercedendo pelo país e por forças para continuar a ser contracultura dentro do cristianismo.

Vi cristãs e cristãos que, alcançados pelo centro da mensagem do evangelho, o amor, entenderam que a sua missão é anunciar as boas novas do reino já aqui nesta vida. É semear o amor, a paz, a bondade, a esperança, a tolerância. É ansiar o fim das desigualdades; é promover justiça social; é lutar por direitos humanos. É estar em favor da vida, da liberdade, da solidariedade, da democracia e da dignidade humana.

Foto: Aline Brant.

Fui capaz de ver, dentro da diversidade daquele grupo, a unidade não somente pela roupa branca e velas acesas que levavam nas mãos, mas de um só coração e propósito: pessoas comprometidas com Jesus Cristo e, por causa de seus valores, compromissadas com a defesa do Estado democrático de direito no Brasil. Consegui perceber gente que, decepcionada com suas lideranças religiosas, encontrou alento ao se deparar com um movimento no qual identifica a palavra de Jesus. Pessoas que, aparentemente abatidas, recuperaram o ânimo que havia perdido nos últimos meses ao receber um sorriso, um abraço ou aperto de mão, ouvir uma palavra encorajadora dos muitos líderes que estiveram no ato, cantar, orar e chorar junto.

Muito mais do que um posicionamento cristão em defesa da democracia e contra princípios anticristãos, o ato teve caráter de hospitalidade, tanto para aqueles que não professam a mesma fé e poderiam ver uma outra face dos cristãos – os quais não podem ser generalizados pela hegemonia –, quanto para aqueles que, pela árdua caminhada na vida cristã, necessitavam renovar seu ânimo e resistir em tempos de aflição. Assim como nos é recomendado em 3 João 1:8, que diz “Portanto, devemos acolher esses irmãos, para nos tornarmos cooperadores da verdade”, os participantes do evento permearam a Avenida Rio Branco com o “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28).

Karine Fernandes é formada em Comunicação Social, com habilitações em Jornalismo e Relações Públicas (FACHA) e pós-graduanda em Comunicação Organizacional Integrada (ESPM-Rio).

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