Bolsonaro, o candidato do sistema
Quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Bolsonaro, o candidato do sistema

Arte: Daniel Caseiro.

As eleições se aproximam da hora decisiva e, se tem uma coisa que se disputou nesse pleito, para além do próprio cargo da presidência, foi a narrativa. Se do lado de Haddad, no início, apostou-se na esperança de voltarmos aos tempos de maior prosperidade do país na Era Lula, do outro lado, vimos uma tentativa forçada de colar a Bolsonaro a imagem de um candidato antissistema.

Essas duas narrativas positivas (ou seja, de enaltecimento do próprio candidato, não de ataque ao oponente), de certa forma, colaram e protagonizaram toda a disputa. Ao fim dessas eleições, porém, com o desmanche da rede de mentiras criada por Bolsonaro, a sua narrativa dá mostras de que pode estar perdendo força. Mas o próprio histórico do candidato também não o ajuda a sustentar a versão de que ele seria um candidato realmente antissistema.

Aliás, se tem algo que condena Bolsonaro e mostra bem como ele sempre foi apenas mais uma peça de todo o velho mecanismo político brasileiro é o seu histórico como Deputado. Foram cerca de 3 décadas na Câmara, o que, por si só, já levanta a desconfiança de que Bolsonaro é só mais uma velha raposa entre tantas velhas raposas da nossa política. Sua atuação como deputado, porém, não deixa a menor dúvida de que Bolsonaro sempre defendeu os interesses e os privilégios das elites do sistema brasileiro e internacional.

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Nos últimos 10 anos de seu mandato [1], por exemplo, são pouquíssimas as ações realmente relevantes que podem ser encontradas na página de Bolsonaro no Portal da Câmara [2]. Analisando todos os projetos e emendas que ele apresentou nesse período, você não encontrará nada que mudasse as nossas estruturas tributárias, orçamentárias, produtivas, regulatórias, financeiras, agrárias ou urbanas.

E quando digo “NADA”, não é por força de expressão, é NADA mesmo. O candidato que, hoje, se apresenta como antissistema, como o cara que está “contra tudo isso que está aí”, não moveu um dedo pra combater o sistema e toda a estrutura de desigualdades e privilégios que formam o nosso Brasil e que massacram o nosso povo brasileiro.

Nos últimos 10 anos, ao invés de pensar em um novo projeto econômico e social de desenvolvimento para o Brasil, Bolsonaro se ocupou, na Câmara, apenas de atuações que mexessem em questões previdenciárias e trabalhistas de militares, em buscar o aumento de penas para alguns crimes e, principalmente, em tentar facilitar a posse de armas no Brasil.

Nesse meio tempo, ao que tudo indica, ainda se envolveu em questões onde há suspeita de que ele tenha usado o cargo público para interesses particulares. Como no caso em que pediu esclarecimentos sobra a pesca na região de Angra e, dois anos depois, foi pego na mesma região realizando pesca ilegal. Ou no caso do uso de uma funcionária fantasma para interesses privados, a famosa Wal. Só pra finalizar os exemplos, impossível não lembrar do vídeo em que ele é contestado pelo fato de receber auxílio-moradia mesmo tendo imóvel próprio, ao que ele responde que usava o dinheiro para “comer gente”.

Exemplos que mostram bem que, ao invés de combater o sistema, Bolsonaro usou, abusou e se lambuzou do sistema por 3 décadas.

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Talvez por isso mesmo ele sempre tenha votado, como deputado, em projetos e leis que beneficiam o próprio sistema e não o povo brasileiro. O histórico de votações de Bolsonaro na Câmara é a maior prova de que ele sempre esteve do lado dos donos do sistema, pois ele sempre votou contra os trabalhadores.

Bolsonaro, por exemplo, votou a favor da Reforma Trabalhista de Temer e se absteve na votação sobre as Terceirizações (mas seu filho votou a favor). Por outro lado, ele foi contra a “PEC das Domésticas”, sendo que até hoje se orgulha de ter sido contra dar direitos trabalhistas a essas pessoas. Nada estranho pra quem já disse que os brasileiros deveriam escolher entre “menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego”. Quem fala uma coisa dessas, quem se põe ao lado do patrão para esculachar o trabalhador, pode ser considerado antissistema?

Aliás, para não ser injusto, teve uma vez, sim, em que Bolsonaro votou pra valorizar o trabalhador. No caso, o trabalhador era ele mesmo. Bolsonaro não pensou duas vezes antes de votar a favor do aumento do seu próprio salário.

Bolsonaro também votou a favor do Teto de Gastos, a famigerada “PEC do Fim do Mundo”, que congela investimentos públicos no país por 20 anos. Antes crítico da proposta, acabou mudando de opinião depois de um suspeito banquete oferecido por Temer. Aliás, não bastasse abraçar a agenda de austeridade pregada por todo o sistema financeiro mundial, Bolsonaro abraçou mesmo foi o Governo Temer.

Bolsonaro não só passou a defender as propostas pró-mercado de Temer como acabou se filiando ao PSL, o partido mais fiel a Temer [3] no país. Não que seu partido anterior, o PP de Paulo Maluf, fosse algo melhor. Mas não é curioso que o candidato que se apresenta aquele que combate o sistema tenha escolhido o partido mais fiel ao sistema de privilégios brasileiro?

Mas a fidelidade ao sistema não parou em sua atuação na Câmara. Lançado como candidato a Presidente, Bolsonaro abraçou como plano de Governo, adivinhem só, uma agenda Temer ainda mais aprofundada. Com seu guru Paulo Guedes e seu companheiro Mourão, os últimos meses têm sido um show de atrocidades liberais a cada nova proposta que surge de sua chapa. Não sem, claro, depois de muita confusão, voltar atrás e dizer que não é bem assim.

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É de Paulo Guedes, por exemplo, a ideia de vender TODAS (sim, todas) as estatais do país ao capital privado (leia-se, aos estrangeiros). Também é do guru econômico a ideia de um Imposto de Renda de alíquota única de 20% para todos os brasileiros, ricos ou pobres. Mas Paulo Guedes falou cedo demais e Bolsonaro teve de dizer que “não é bem assim”, pra depois colocar seu “guru” no cantinho do castigo sem poder emitir novas opiniões.

Já Mourão, no melhor estilo “falo demais porque não faço ideia do que estou falando” resolveu mesmo mostrar que a intenção é partir pra cima dos direitos trabalhistas. Com críticas estúpidas ao 13º e ao adicional de férias, forçou Bolsonaro a ser mais enérgico do que um simples “não é bem assim”.

Apesar desse vai-e-vem de propostas, o mercado não parece ter muitas dúvidas de quais são as reais intenções do Capitão ao chegar na Presidência. Tanto não têm dúvidas que, se as acusações da rede de “fake News” da Folha [4] se confirmarem, os grandes empresários estão apostando alto na candidatura de Jair Bolsonaro. Não existe almoço grátis, já diziam seus amigos liberais.

Mas não é só o alto empresariado que apoia Bolsonaro nessa empreitada. Aliás, o que não falta é gente do sistema apoiando o candidato. Os 261 parlamentares da Bancada Ruralista [5] também já declararam apoio ao Bolsonaro. Ah, e é bom lembrar que ruralista não é o camponês que trabalha debaixo do sol, é o dono da fazenda ou da indústria que abastece a fazenda.

Boa parte da grande mídia também já aderiu à campanha do Capitão, embora ele e seus seguidores gostem de dizer que a grande mídia os persegue. O Estadão já fez editorial onde claramente o apoia e, segundo o The Intercept [6], a Bandeirantes, a Jovem Pan e a Record também fecharam apoio com Bolsonaro, o que é perceptível analisando o conteúdo desses veículos. A Record, aliás, explicitou o apoio através de seu dono, Edir Macedo, que por acaso também é o chefe da maior Igreja Evangélica do país, a Universal.

Como cereja do bolo, tivemos, ainda, o silêncio sepulcral de todos os veículos da Rede Globo no dia da notícia mais bombástica dessas eleições, revelando o escândalo da rede de “fake news” criada por Bolsonaro.

É o sistema apoiando em peso o candidato que vende a imagem de ser um político que combate o sistema. Grande mídia, Igreja, alto empresariado, mercado financeiro, ruralistas, militares. Falta mais o que pro time do sistema estar completo no apoio a Bolsonaro?

Ah, claro, o capital estrangeiro!! Ou será que não falta? A julgar pelo histórico do candidato, o capital estrangeiro está nesse time desde o começo.

Bolsonaro, como deputado, votou a favor da entrega do pré-sal a empresas estrangeiras e, como candidato, já defendeu abertamente que a exploração da Amazônia seja aberta aos americanos em parcerias. Sua ênfase nas privatizações também é de deixar a pulga atrás da orelha de qualquer verdadeiro nacionalista.

Fechado com a pauta dos patrões e com a agenda liberal de austeridade, ataques aos direitos trabalhistas, entreguismo e privataria, é difícil entender como Bolsonaro tenha conseguido colar em si a imagem de um candidato antissistema. É plausível crer que somente uma grande rede de mentiras, como a descoberta no WhatsApp que atingia milhões de pessoas todo dia, poderia ter a capacidade de transformar um homem que há 30 anos vive às custas do Estado defendendo os interesses da elite fosse, realmente, um nacionalista antissistema.

É mais plausível ainda crer que só essa rede de mentiras poderia ter feito isso quando constatamos que, ao ser derrubada tal rede, essa narrativa começou a perder força. Que perca ainda mais força até o próximo domingo, pra que, pelo menos nessa batalha eleitoral, que é uma pequena parte de uma guerra muito maior, o sistema não vença.

Não é nenhuma ode ao Haddad o que vou dizer agora, mas derrotar Bolsonaro nas urnas, neste domingo, é derrotar o sistema que ataca a grande massa de trabalhadores brasileiros.

Almir Felitte é Graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

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Notas:

[1] http://www.justificando.com/2017/10/17/bolsonaro-adota-discurso-nacionalista-mas-na-pratica-adota-velho-entreguismo/
[2] http://www.camara.gov.br/internet/sileg/Prop_lista.asp?Autor=5310721&Limite=N
[3] https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,psl-de-bolsonaro-foi-o-mais-fiel-a-temer-neste-ano,70002414169
[4] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml
[5] https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/com-261-parlamentares-bancada-ruralista-declara-apoio-a-bolsonaro/
[6] https://theintercept.com/2018/10/13/bastidores-universal-edir-macedo-apoio-portal-r7-bolsonaro/

 

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