É preciso levar a serio
Sexta-feira, 26 de outubro de 2018

É preciso levar a serio

Eu estava tendo uma conversa com um eleitor de Bolsonaro e dois elementos me chamaram atenção porque outras conversas que eu acompanhei ou vivenciei apresentavam essas mesmas duas características (dentre outras). Ficava no ar a ideia de que ou 1) não se deve levar tão a sério o que ele diz, por ser apenas “da boca pra fora” ou 2) as falas dele são frequentemente tiradas de contexto, por isso não são entendidas, junto com “ele faz teatro, é uma piada”.

Eu, como linguista, confesso a você que fiquei com a pulga atrás da orelha: será que estou sendo injusta ao criticar (e temer) as falas do candidato? Será que estou levando tudo muito a sério, sem “esportiva” nenhuma?

Pois aqui vem um spoiler: não, não estou sendo injusta e também não perdi a esportiva. Deixe-me explicar a você o porquê.

Em fala recente transmitida pela internet, o candidato diz, após falar sobre os profissionais do campo e a atenção que quer dar a esse grupo: “vamos botar fim em todos os ativismos do Brasil”. E continua dizendo que vai “tirar o Estado do cangote de quem produz”. Esse é o contexto da fala que afirma acabar com o ativismo. Nessa fala, o contexto não traz qualquer afirmação adicional que suavize ou modifique a noção de “botar fim” nos ativismos. E ela parece bastante literal – ou você é capaz de reconhecer aí qualquer sentido metafórico para o emprego do termo?

Em outra fala recente, no Acre, Bolsonaro pega o tripé de uma câmera, aponta para cima, movimenta-se como se estivesse atirando e diz: “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. É ovacionado em seguida. Ele, um candidato à presidência, exemplifica, encoraja, estimula e valida a violência através desse tipo de manifestação. O gesto, acompanhado da afirmação categórica de fuzilamento de um grupo de indivíduos, sequer há como ser compreendido, outra vez, metaforicamente. Qual metáfora carregaria a afirmação de fuzilamento, quando acompanhada do gesto que denota uma arma atirando?

Vamos supor, no entanto, que para os dois exemplos, o sentido metafórico seja possível. E seja algo como “não deixar aparecer”. Uma das características principais de uma democracia é justamente a existência de vozes dissonantes, de existências diversas que manifestem sua opinião e co-existam. Se um candidato à presidência propõe não deixar que esses discursos e vozes se materializem, onde estará a democracia?  

Trago aqui apenas dois exemplos, recentes, mas há inúmeros outros. Todos eles são representação da e estímulo à violência. E se é isso que o candidato oferece às pessoas, é isso que seus ouvintes podem levar em conta. Todas as nuances interpretativas são trazidas pelas pessoas que o acompanham e que, de alguma maneira, acreditam que ele não fará exatamente o que diz. Não são nuances trazidas da fala do candidato.

E se você chegou até aqui, atenção: a linguagem é a maneira como moldamos e construímos o mundo em que vivemos. É através dela que vamos nos entendendo como sociedade, como grupo.

Quero crer que o próprio Bolsonaro não pegará uma arma e atirará em alguém que pensa diferente dele. No entanto, seu posicionamento – seus discursos, seu comportamento, suas ações – molda a sua posição como candidato e valida os discursos, comportamentos e ações de seus eleitores. Inúmeros deles podem se sentir seguros em manifestar posturas violentas e preconceituosas, dado que o candidato à presidência propaga atitude e discurso semelhantes, mesmo que “apenas de brincadeira”. Não à toa surgiram inúmeros casos de violência vinculados ao nome de Bolsonaro durante o primeiro e o segundo turnos.

Você poderá dizer: “mas, Janaisa, Jair Bolsonaro não tem controle sobre as ações de outras pessoas. Ele não as acompanha vinte e quatro horas por dia, não tem como saber o que acontecerá”. No entanto, ele carrega em seus ombros a responsabilidade sobre a maneira como aguça a violência em seus eleitores através de seus discursos. Assim como tem responsabilidade sobre a maneira como desautoriza a existência de diferentes grupos de nossa sociedade.

A linguagem é, neste caso, a materialização da violência.

O racismo, a homofobia e a misoginia não nasceram com Bolsonaro, isso todos sabemos. Seus discursos, no entanto, ao invés de minguarem essas manifestações, potencializam e justificam sua existência.

A linguagem, meus caros, é a cola que liga e molda uma sociedade. É de responsabilidade dos candidatos – e de seus eleitores – zelar para que suas manifestações não fortaleçam ou revivam posturas excludentes e violentas.

Não há como competir com a violência. Porque a partir da violência, não há discussão, não há reflexão. Há apenas imposição – de ideias, de comportamentos, de discursos. E essa imposição se revela e se fortalece através da linguagem, da comunicação. E é isso que Bolsonaro, tristemente, representa. Por isso, eu só posso dizer a você: sim, é preciso levar as falas de Bolsonaro a sério, porque a violência que promovem é séria, muito séria.

Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem pela UniFreiburg, na Alemanha. Faz vídeos semanais sobre linguagem e comunicação (e otras cositas más) no canal do Youtube que leva seu nome.

 


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