As eleições do “pânico moral”
Segunda-feira, 29 de outubro de 2018

As eleições do “pânico moral”

As eleições de 2018 demonstraram toda a força política do “pânico moral” que alimenta a patrulha e a cruzada moralista contra alvos determinados

Em 1972, o sociólogo Stanley Cohen criou a expressão “pânico moral” para definir a falsa percepção de pavor de algumas pessoas em relação a um determinado grupo que, supostamente, representaria uma ameaça para a sociedade. Essa falsa percepção vem de estereótipos e da manipulação, por meio de campanhas de disseminação do medo. E, Zygmunt Bauman, ao analisar o medo do desconhecido e a repulsa ao estrangeiro, diz que a expulsão de “forasteiros” de nossas casas acaba exorcizando, por algum tempo, o espectro apavorante da incerteza, além de queimar em efígie o monstro horrendo do perigo [1].

Portanto, o “pânico moral” e o medo estão intimamente ligados. Vejamos, pois. Em 2018 – 46 anos após a referida expressão ser cunhada – tivemos as eleições do “pânico moral”, e uma quantidade expressiva de eleitores votou em sintonia com esse sentimento, sobretudo fiéis sectários de várias religiões. Então, numa enorme coincidência em marcos temporais, o futuro presidente do país diz que a finalidade do seu governo é fazer “o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás”, enaltecendo, assim, valores da ditadura civil-militar de 1964. Em vez de pautas progressistas, o foco é no retrovisor do regresso, a partir de uma caricata lógica “moral”.

Nesse sentido, nestas eleições, muito se falou em defesa da “família” (no singular), na assombração do “kit gay”, no espantalho da “ideologia de gênero” e no incômodo histérico ao qual se chama de “libertinagem”. Nos últimos anos, esse terror moral foi intensificado de tal forma que virou um mantra, transmutado em um cenário apocalíptico de “destruição de valores”. E a estratégia discursiva oficial da patrulha moral é sempre apelar emocionalmente para a proteção de um ser frágil e indefeso: a criança ou o adolescente. Eni Orlandi, referência nos estudos da “Análise de Discurso”, diz que é preciso “escutar o não-dito naquilo que é dito, como uma presença de uma ausência necessária” [2]. Então, mesmo que o enunciador do discurso desconheça as redes de sentidos e os poderes simbólicos que formatam o imaginário, o que estará por trás dessa quantidade de espantalhos criados em torno do “pânico moral”?

O pânico e o medo estão, portanto, devidamente instalados no imaginário social e coletivo, ou seja, é um terreno fecundo para analisar o “não-dito” do discurso. Mas, o curioso é que, antes do empoderamento das minorias (ex: LGBTQIA+) e da maior visibilidade de outros mosaicos familiares (“famílias”, no plural), não havia, de modo tão alarmista, essa cruzada moral inquisitória. A título de exemplos: onde estava a vigilância “moral” nos carnavais; nas “raves”; nas letras da banda “Mamonas Assassinas”, cujo público maior era formado por crianças; nas banheiras do programa do Gugu; nas praias de nudismo; nas revistas da “Playboy” fartamente fuçadas por crianças; na iniciação sexual de filhos nos “cabarés”, estimulada por pais machistas; nos incentivos aos filhos adolescentes “pegadores”; nos fomentos aos abusos sexuais dos filhos em relação à empregada da casa?

 

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Em um passado recente, como alvo da investida “moral” seletiva, sobrou até para a arte, quando, no fatídico ano de 2017, a caçada moralista resolveu determinar o que era arte. Pessoas autoritárias invadiram exposições artísticas, querendo criminalizar as artes ali expostas. E eram, exatamente, exposições artísticas que retratavam os anseios da população LGBTQIA+. Os patrulhadores da moral não sabiam a diferença básica entre a histórica nudez artística e a pornografia. Não sabiam que arte é estranhamento, ruptura, reflexão, transgressão e desconforto. Não conhecem os quadros “transgressores” de Goya, Coubert e Bosch.

Desse modo, é nesse cenário de patrulhamento e “pânico moral” que surgem caricaturas para representar, de forma totalizante, as minorias que se “desviam” da “normalidade”, sobretudo, quando o alvo é a comunidade LGBTQIA+. Um exemplo é a parada do orgulho LGBT, em que fotos manipuladas de pessoas vilipendiando símbolos sagrados do cristianismo são editadas para desqualificar o movimento, como se todos que estivessem ali pensassem – e se comportassem – de igual maneira. Ora, vários pastores evangélicos praticam extorsão e estelionato dentro das igrejas, assim como há inúmeros casos de padres pedófilos. Podemos dizer, então, que o meio evangélico é de extorsão e estelionato ou que o ambiente católico é pedófilo? Obviamente que não, pois, do contrário, seria um argumento falacioso que totaliza – e distorce – a representação de algo com base em pequenos fragmentos da realidade.

O reino das falácias, associado às “fake news” e somado ao poder viralizador das mídias sociais, impulsionou fortemente todo esse processo de deformação da informação, regando o terreno fértil para a criação de caricaturas que distorcem os fatos. Além disso, há um emaranhado de frases ditas, geralmente num tom eufêmico que, na verdade, camuflam uma fobia e um preconceito não admitidos, a exemplo da frase “Ah! eu respeito os homossexuais, não tenho nada a ver com as vidas deles, mas não concordo que fiquem se beijando em público. É um absurdo as crianças olharem isso”.

Qual o motivo dessa discordância em relação aos casais homoafetivos se casais heterossexuais expressam, também, seu afeto, publicamente, através de um beijo ou de um abraço? Qual é o fundamento desse incômodo? Por que castrar a razão de existir do “outro”? Será se essa “surpresa” do olhar não tem a ver com a maior expressão de direitos, nos últimos tempos, de uma população que estava sufocada e excluída dentro dos seus guetos, sem poder manifestar seus modos de ser e de existir? A quem interessa essa guetização de minorias? Agir com essa fobia ao diferente significa (re) afirmar o “pânico moral” que manipula e distorce ou é uma forma camuflada de esconder o preconceito?

Assim, as eleições de 2018 demonstraram toda a força política do “pânico moral” que alimenta a patrulha e a cruzada moralista contra alvos determinados. Vários candidatos porta-vozes desse “pânico moral”, sobretudo do outrora inexpressivo partido PSL, foram eleitos com recordes de votação. Então, desculpe-me, caro leitor, mas, se você é um patrulhador dessa “moral”, sua preocupação não é com a destruição de valores morais edificantes, pois, no fundo, não há eufemismo que esconda o que, talvez, você seja: homofóbico ou LGBTfóbico. Isso porque a cortina do “não-dito” tenta esconder a bandeira excludente dessa “moral”; mas, na ampliação de direitos para a população LGBTQIA+, não existe perigo ou ameaça aos “valores” da “família”. O que existe, sim, é uma quantidade enorme de pessoas diferentes, querendo ter o direito de serem diferentes. Existem “famílias” (no plural). E viva o amor, como prática libertadora!

 

Bruno Antonio Barros Santos é defensor público no Estado do Maranhão.

 

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________________________
[1] BAUMAN, Zygmunt. E-book
Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009. Kindle Version. Paginação irregular.
[2] ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 5. ed. Campinas, SP: Pontes, 2005, p. 34.
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