Democracia: uma jovem traidora 
Segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Democracia: uma jovem traidora 

O cenário é trágico para aqueles que amam a democracia e, quanto a isso, quaisquer palavras não ultrapassarão a entediante trivialidade. Antes, porém, de prosseguir com a mensagem deste breve ensaio, redigido para os espíritos que hoje sofrem com o resultado das eleições presidenciais, quero primeiro contar-lhes uma história, que se desenvolve nos seguintes termos: 

“Um pai, querendo ensinar o seu filho a ser menos medroso, faz com que ele salte dos degraus de uma escada. Coloca-o de pé no segundo degrau e diz: “Pula, que eu te seguro!”. O menino salta. Depois o coloca no terceiro degrau, dizendo: “pula, que eu te seguro”. E o menino salta. Depois coloca-o no quato degrau, dizendo “pula, que eu te seguro”. O menino tem medo, mas como confia no pai, faz aquilo que o pai diz e salta entre seus braços. Então o pai ajeita-o sucessivamente sobre o quinto, sexto e sétimo degrau repetindo a cada vez: “pula, que te seguro”, e toda vez o menino salta e o pai o segura prontamente, continuando o mesmo procedimento. A um certo ponto, o menino está em um degrau muito alto, mas, mesmo assim, como das outras vezes, pula. Só que desta vez o pai não o segura e o menino é lançado diretamente ao solo. Todo ensanguentado e envolto em lágrimas, coloca-se de pé e o pai diz: “Aprenda isto de uma vez: nunca confie em ninguém, mesmo que seja o seu pai.”  


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Muito mais relevante do que a piada, é em si a questão que se coloca: por que devemos ensinar a criança a não confiar? a história trata justamente daquilo que nomeia o título deste texto: traição

Para aqueles que lutaram pela conquista dos direitos que hoje ameaçam nos deixar, seja com os punhos, seja com as letras, não haveria nada mais conexo com este tema do que o sentimento que emerge após ver a própria democracia mutilando a si mesma, justamente diante dos que mais quiseram conservá-la. 

Se o intuito aqui buscado é o de trazer algum conforto, este só pode acontecer através da compreensão. Então procuremos saber: O que significa, psicologicamente, ser traído? E mais, o que significa ser traído por uma entidade jurídica abstrata? 

Toda experiência sentimental, por exemplo, a amizade e o amor, constituem uma oportunidade de regressar à situação de confiança antes experimentada pelo filho quando se jogava, com fé, aos braços do pai. É como um recinto sagrado, semelhante ao experimentado por outra metáfora, mais famosa, de quando Adão andava na companhia de Deus no Éden. 

Dizemos, assim, sobre uma necessidade de segurança enquanto “confiança primária”, tal qual uma área protegida em que podemos nos expor sem sermos aniquilados, destruídos por eventos externos. É uma necessidade que vai além da busca pelo prazer contínuo, em direção à própria necessidade de nos protegermos da nossa tendência à traição. E esta, como prontamente se percebe, é comum à vida psíquica e ao próprio direito.   

O que se espera, quando tratamos de obter essa confiança, é a mesma busca do jovem que, quando salta, espera ser confirmado, acolhido, em virtude de sua intimidade com o pai, e quando esta experiência não acontece, seja do amigo, de uma relação amorosa, ou da própria Democracia, a experiência é de profunda traição. 

Regressando ao mito de Adão, diz-se que este foi expulso do paraíso justamente por uma quebra da confiança original, condenando todos os seus descendentes a ter de experimentar a morte. Por outro lado, a morte é o grande marco de um novo início da consciência humana: o fim do paraíso é o começo da vida. 


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Assim, há que se postular uma verdade quando se trata traição: não existe a possibilidade de amor e segurança sem a possibilidade traição. Um está contido no outro. Quanto maior for o amor, maior será a possibilidade de traição. A segurança contém, nela mesma, os germes da traição. 

O homem, quando deixa seu filho cair, diz ao seu filho: “O homem é um traidor, e a palavra não é mais forte que a vida. Eu te trai como todos nós fomos traídos. Esta é a natureza da vida.” A iniciação do menino à vida é marcada pela tragédia do adulto. O momento da grande decepção é também o momento a oportunidade de evolução, que dependerá da escolha a ser feita, portanto, da própria possibilidade de interpretação do fato. 

Sob estas lentes também deve ser vista a democracia – e qualquer direito em geral: Aquele que é capaz de interpretar e decidir é destinado a semear a ideia que exsurge com o fato. Aos incapazes deste feito estão condenados a permanecer “cortados” do amor, isolados da própria vida. Não por acaso, o renomado jurista Rudolph von Jhering atribuía o talento dos romanos com o direito na sua singular capacidade de observar, valorar e agir diante da interminável complexidade da vida. 

É preciso alertar que esta oportunidade não ocorre sem riscos. É possível que reações disfuncionais ocorram. Na vida psíquica, a vingança, a negação de si, a negação do outro, o cinismo, todas estas constituem atitudes que apenas perpetuam o isolamento do traído em estado de sofrimento. Assim também deve ser evitada qualquer atitude análoga para remediar o sabor amargo que nos deixou a democracia hoje. 

Aquele que performa a traição, como o pai do conto, evita a responsabilidade pelo ocorrido, o que significa que a solução deve partir do próprio ofendido. É neste impulso criativo que o traído pode encontrar maneiras de se levantar. É neste ato de doar, a que chamaremos per-doar, que poderemos responder de forma efetiva à traição. E para perdoar, é preciso permanecer no mesmo sentimento de amor que pôde causar o rompimento da confiança, é preciso conceber a situação como uma graça que o outro, mesmo que abstrato, nos dá de nos reconhecermos, e também de reconhecermos forçosamente, mesmo que em toda sua brutalidade, o outro. 

É hora de olharmos essa jovem traidora chamada democracia com novos olhos. É hora de pensarmos a democracia com a consciência mais madura, aceitando que nenhum outro evento poderia nos dar tamanha oportunidade como por esta traição. Sobretudo, é hora de amar a democracia, insistindo nos saltos em sua direção e reconhecê-la como de fato é: uma traidora.

Alexandre Ginzel  é advogado, bacharel em Direito pela PUC-SP e doutorando em direito pela Universitá degli Studi di Roma – Tor Vergata 

 

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