O cidadão de bem elegeu Bolsonaro, mas poderia ter sido Hitler
Segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O cidadão de bem elegeu Bolsonaro, mas poderia ter sido Hitler

O sádico, muitas das vezes, aparenta agir na mais pura bondade e com excesso de preocupação em relação ao outro.[1] Hitler, por exemplo, quando vivia em Munique, ainda desconhecido, adorava ajudar os ratinhos que passavam pelo seu quarto, dando-lhes comida.[2] Dava-lhes, porém, pouca comida. Ou melhor: nutria-os de pouquinho em pouquinho. E o motivo era simples: ele adorava vê-los brigando, por conta da pouca comida, e admirava o modo como os ratos mais fortes dominavam os mais fracos.

Por isso Fromm vai dizer – e a ele não posso deixar de referir, dado que é dele e Freud que vem a minha inspiração – que ânsia de poder do sádico não se origina da força, mas da fraqueza.[3] Daí dizer-se que o sádico, no fundo, é um fraco, vale dizer: essa aparência forte e dominadora – tal qual a de Hitler e Bolsonaro – esconde, na verdade, uma fraqueza: sua dependência face ao objeto do sadismo.

Por esse motivo, o sádico precisa (ou talvez fosse melhor dizer: necessita!) mandar em alguém; afinal: é daí que reside sua força, a saber: do fato de ser senhor de alguém. Essa força, como se vê, é dependente do seu objeto – a pessoa dominada – dado que é o domínio sobre ela que permite-o acreditar que é forte e dominador.


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Eis porque os filhos de Bolsonaro, assim como Geli Raubal (a sobrinha-amante de Hitler) parecem ter suas vidas dentro de uma gaiola dourada, onde podem tudo – desde que não ultrapassem os limites da gaiola –, o que explica as constantes aparições de Bolsonaro, na TV, para “corrigir” os filhos.

O sádico pensa que o seu domínio pela vida alheia se dá pelo fato de amá-los muito; Erick Fromm, porém, lembra-nos que, na verdade, o sádico ama-os porque os domina.

O sadismo, como adiante se perceberá, varia de intensidade, podendo-se falar em 3 tipos de sádicos: (i) um primeiro, que visa não só o controle sobre a pessoa, mas também (ou, sobretudo) sobre seu corpo, com objetivo de usá-lo, explorando-lhe ao máximo; (ii) outro, que visa tornar as pessoas dependentes do sádico, para que este possa fazer delas meros instrumentos, como se fosse argila nas mãos do oleiro; (iii) e, por fim, aqueles (mais conhecidos) que desejam fazer (e ver) o outro sofrer, seja fisicamente, seja moralmente.[4]

Bom exemplo do primeiro tipo de sadismo está na fala de Ley, chefe da frente nazista de trabalho alemão: “Queremos mandar e gostamos disso; ensinaremos estes homens a montar nos cavalos, a fim de dar-lhes a sensação de domínio absoluto sobre um ser vivo.” [5]

Bolsonaro, como veremos (e suas falas estão aí – vivas – para comprovar) fornece-nos, por mais incrível que possa parecer, exemplo dos 3 tipos de sadismo, podendo o primeiro ser percebido nesta frase: “Vamos fazer o Brasil para as maiorias; as minorias têm que se curvar às maiorias. As leis devem existir para defender as maiorias; as minorias se adequam ou simplesmente desaparecem…”[6]

Hitler também pensava da mesma maneira que Bolsonaro, como se vê no seu famoso livro Minha Luta: “O que a maioria quer é a vitória dos mais fortes e o aniquilamento ou a captação incondicional dos mais fracos.”[7]

Já o segundo tipo de sadismo – fazer com que as pessoas fiquem dependentes do sádico, para que ele possa fazer delas meros instrumentos, como se fosse argila nas mãos do oleiro –, é-nos demonstrado pelas falas de Bolsonaro, com suas tentativas acabar com os direitos assegurados aos negros e aos oprimidos, bem como manter os privilégios dos homens sobre as mulheres, dos patrões sobre os empregados, entre outras coisas, para que sempre haja pessoas que dependam dos sádicos.

Joseph Goebbels, Ministro da propaganda nazista, também via os mais fracos como meros instrumentos, isto é, argila nas mãos do oleiro, o que fica claro no trecho a seguir: “chefe e massa constituem problema análogo a pintor e cores; nada mais são do que a pedra é para o escultor.” E conclui:  “Às vezes a gente se vê preso numa profunda depressão, que só se pode vencê-la quando se está face às massas. Porque as pessoas são a fonte do nosso poder.”[8]

O terceiro e último tipo de sadismo, que pode ser considerado o mais grave, é justo aquele que mais se identifica com as palavras de Bolsonaro, dado que sua “racionalidade” rege-se por algo do tipo: “atacando primeiro, estou defendendo a mim e meus amigos contra o perigo de sermos feridos”. Aqui as falas de Hitler e Bolsonosaro espantam não só pelo conteúdo, mas também pela similitude, como demonstram os trechos a seguir:

“O erro da tortura foi torturar, e não matar”; “se vão morrer uns inocentes, tudo bem”; “não vou estuprar você porque não merece”; “ele devia ter sido morto a coronhadas”; “qualquer aliança cujo propósito não é a intenção de iniciar uma guerra é sem sentido e inútil”; “como uma mulher que preferirá se submeter ao forte do que ao fracalhão, as massas também amam muito mais o que manda do que o que suplica”; “as pessoas ficam muito mais satisfeitas com uma doutrina que não tolera os rivais do que uma que garante direitos liberais”.

As frases de Hitler foram colhidas no livro Minha Luta; já as de Bolsonaro, no Youtube. Limitar-me-ei a isso, deixando a você, leitor(a), a missão de identificar (ou de imaginar) a quem pertence tais frases. Depois disso, lembre-se do seguinte: tudo o que eles disseram (e fizeram) sempre foi (e continua sendo) em nome do bem, em prol da bondade, da moralidade, dos bons costumes e, claro, em nome de deus.

Por isso, o duque de La Rochefoucauld dizia que frequentemente faz-se o bem para poder – impunemente – fazer o mal (o que leva à reflexão sobre os riscos de se conceder poderes ilimitados a qualquer um, em especial os membros do Ministério Público, pastores, juízes, entre outros “cidadãos de bem”).

Aliás, sobre o perigo oferecido por “cidadãos de bem” (leia-se: falsos moralizadores), Jacinto Coutinho alertou-nos, de há muito, que “os maiores mafiosos vão à missa todos os domingos, quando não todos os dias e, na porta da igreja, tramam os mais terríveis crimes; os grandes defensores da moralidade (visite-se, por exemplo, as salas dos Tribunais, nos julgamentos dos crimes contra a liberdade sexual!), não de raro são infatigáveis pervertidos; democratas de palanques são senhores do totalitarismo, como mostraram certos políticos que, durante o regime militar eram havidos como os símbolos de um novo tempo e, depois, eleitos, usaram do poder para confirmarem-se no antidiscurso.”[9]

O “cidadão de bem” impõe aos outros valores que não valem para eles; são, pois, apedrejadores querendo apedrejar sua própria tentação ou culpa, como diria Calligaris.[10] Bradam contra a corrupção, cuspindo neste prato somente porque queriam (mas não conseguiram) comê-lo. (Millôr). O problema é que quando um moralista sobe ao poder todos pagam por seus moralismos, dado que o alívio de suas falhas é compensado com o rigor de suas exigências para com os outros.

Encerro, por isso, parafraseando Agostinho Ramalho: que Deus nos proteja da bondade dos hitleristas e dos bolsonaristas.

Djefferson Amadeus é mestre em Direito e Hermenêutica Filosófica (UNESA-RJ), bolsista Capes, pós-graduado em filosofia (PUC-RJ), Ciências Criminais (Uerj) e Processo Penal (ABDCONST), pesquisador da Coop. Social Fiocruz, Advogado.

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[1] FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 121           .

[2] HITLER, Adolf. Minha Luta. São Paulo: Editora Moraes, 1983, p. 97.

[3] FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 133.

[4] FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 120.

[5] FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 179.

[6] https://www.youtube.com/watch?v=n5Kfeiu4QAM

[7] HITLER, Adolf. Minha Luta. São Paulo: Editora Moraes, 1983, p. 148.

[8] FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 184.

[9] COUTINHO, Jacinto Nelson de Miranda. O papel do juiz no processo penal. In: COUTINHO, Jacinto Nelson de Miranda (Coord). Crítica à teoria geral do direito processual penal. Rio de Janeiro: Renovar, 2001, p. 4.

[10] CALLIGARIS, Contardo. Quinta-Coluna. 101 Crônicas. Ed: Publifolha, São Paulo, 2008, p. 99.

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