No fracasso não há perdas: Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu
Terça-feira, 30 de outubro de 2018

No fracasso não há perdas: Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu

Foto: Darcy Ribeiro.

Me perguntei várias vezes qual deve ser o tom de uma leitura após uma derrota eleitoral. Melancólico? Acalantador? Apaziguante? Confesso que não sei bem qual será o resultado, mas isso está muito mais relacionado ao modo com que lidamos com uma derrota. Embora, sobretudo nesse campo, perder é um lugar mais comum do que ganhar, não sei exatamente qual a reação mais adequada. Provavelmente é muito cedo, mas o que interessa mais, nesse momento, é ressignificar o próprio antagonismo entre vitória e fracasso e a confusão com o binômio de perder e ganhar.

O que seria uma vitória e um fracasso? Fracassar é o lado oposto ao da vitória. Com a vitória não temos tantos problemas, a não ser quando, como modernamente acontece, consumimos nossas conquistas tão rapidamente que projetamos o gozo sempre para um momento futuro. Vivemos um projeto sempre inacabado da felicidade. Contudo, fracassar é a parte mais dolorosa. Se fracassar significa estar do lado de quem não venceu, e a história é contada pelos vencedores, talvez o nosso problema seja o medo de não ser lembrado, de ser esquecido, de ser excluído. Um medo que é crescente na modernidade líquida onde excluir o próximo é a melhor forma de não ser o próximo a ser excluído. Nossa sociedade vive a exclusão do fracassado como entretenimento: vejamos entre tantos modelos de reality show produzidos, os que mais são repetidos são os que os perdedores, ao longo da sua duração, vão sendo excluídos e apagados da narrativa. Algumas vezes só relembrados a cada abertura e justamente para serem, mais uma vez, apagados (Bauman).

Assim, na modernidade, não temos um lado da história e tememos o outro. A vitória foi esvaziada de gozo. O fracasso foi esvaziado de significado e de capacidade de transformar. Modernamente, sobretudo após a capitalização da modernidade que transforma esse antagonismo de vitória em fracasso em uma narrativa de perdas e ganhos.

Como ensina Rabenhorst, em Perdas Triunfantes – Elogio ao Fracasso, historicamente temos um fascínio por personagens fracassados. Eles ensinam, através do fracasso de suas aventuras, o que é possível ou qual caminho não é exitoso. A história de Ícaro não seria conhecida se ele tivesse conseguido voar com os pássaros. Contudo, perdemos a capacidade de lidar com o fracasso que é algo rotineiro, mais do que a vitória.

Com a capitalização da modernidade, passamos a enfrentar uma ideologia do sucesso. Somos convencidos o tempo todo que é preciso ter sucesso – marcador – ainda que em nome do sacrifício da ética, das relações, do afeto. Passamos até a glorificar o sacrifício pessoal em nome da luta pelo sucesso. Nada mais capitalizado que nos reduzirmos à nossa capacidade laboral e de julgarmos nosso sucesso exclusivamente a partir dessa régua.

Se de um lado a vitória passou a ser o sucesso, que é sobretudo, financeiro, em nome do qual colocamos de escanteio tantos outros segmentos da vida, do outro lado, o fracasso é também revestido de caráter econômico. Se confundimos vitória com ganhos, confundimos fracassos com perdas. Distinguimos o sucesso como algo rico e, portanto, o fracasso é pobre. Não só pobre economicamente, mas também chamamos de pobre tudo que queremos tornar vazio: pobre de cultura, pobre de afetos, pobre de relações. Pobre-perdedor e fracasso se confundem, reduzindo toda uma extensa narrativa diversa que existe em uma relação de vitória e fracasso a um aspecto linear de perder ou ganhar, onde é impossível ganhar qualquer coisa na derrota.

Na lógica moderna capitalizada, as narrativas são contadas a partir dessa exclusiva lógica de perdas (ônus) e ganhos (bônus). O discurso capitalista da meritocracia faz uma grande função na arte de descontextualizar e neutralizar as disputas de poder que ocorreram na narrativa da vitória e do fracasso. As vitórias são cantadas como conquistas justas e decorrentes de um esforço digno de aplausos. Os fracassos são reduzidos à perda, incapaz de produzir mudanças, pois só há prejuízo.

A superação dessa lógica de perdas e ganhos revela o tanto de digno, revelador, pedagógico e pulsante há entre a vitória e o fracasso. Há o fracasso de quem simplesmente se reduz a não ter conquistado algo, de não estar do lado da vitória. Esse é um fracasso doloroso e que pouco nos ensina. E há o fracasso de quem não quis ficar onde estava, se conformar com as coisas, viver o jogo sem participar dele, de lavar as mãos ou de se esconder da batalha. Esse é um fracasso maravilhoso. É um fracasso onde se conhece pessoas que estão ao seu lado na narrativa, que lutam a sua batalha e sofrem as suas feridas. É um fracasso que permite enxergar que foi nessa narrativa que se fortaleceu uma disputa de poder, pois, para fracassar, é necessário estar na luta.

Um último adendo: novamente, Rabenhorst conta que na história – literatura – o fracasso sempre foi um privilégio masculino, pois às mulheres sequer era dado o direito de enfrentar e combater a disputa de poder, de se aventurar na história. E foi delas essa disputa. Foi nessa narrativa existente entre a vitória e o fracasso que mobilizaram o maior movimento da história de resistência. Podemos dizer também o mesmo sobre a história de vencedores e perdedores, em maior ou menor grau, de tantos outros: LGBTI´s, Negros, Nordestinos. E, sobretudo, foi a partir da experiência de resistência dessas pessoas que se enfrentou o poder e que se fortaleceu a resistência, que se reaprendeu a lutar e disputar o poder.

Mais certeiro que nunca, Darcy Ribeiro:

Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.  Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

Rochester Oliveira Araújo é mestre em Direito Constitucional, Defensor Público do Estado do Espírito Santo

Leia mais:


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Terça-feira, 30 de outubro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend