Vamos ignorar o elefante na sala?
Terça-feira, 30 de outubro de 2018

Vamos ignorar o elefante na sala?

Os tempos já não são como antes, e a oposição também não deve ser. Me perdoem o desespero, mas há um elefante na sala e uma grande parte do país está simplesmente fingindo que não o vê

A tragédia anunciada aconteceu. Anos de esgarçamento da nossa Democracia não poderiam ter outro fim que não fosse o próprio fim da Democracia. Mas, mesmo nesse momento, ainda há quem pense que estejamos vivendo na plenitude do jogo e das regras democráticas. Pior de tudo, ainda há quem continue apostando toda sua luta nessas mesmas regras, mortas há pelo menos 3 anos.

É triste ver a ingenuidade de quem diz que será oposição e deseja boa sorte ao mais novo mandatário do País. Ora, nem parece que o Brasil vive sob um Golpe desde 2016. Nem parece que as eleições deste fim de semana foram mais um fruto desse Golpe.

Em 2014, Dilma foi eleita e, já no dia seguinte à eleição, ouvira do opositor derrotado as ameaças de que não conseguiria governar o país. E não conseguiu. Foi já em 2014 que o Golpe, que se concretizou em 2016, começou a ser orquestrado. Em meio a sabotagens no Congresso, correu um processo de “impeachment” que, desde o seu início, não respeitou em nada as leis brasileiras. Sob o olhar de um STF cúmplice, rasgou-se a Constituição para colocar no poder o grupo político que hoje aí está.

Fomos às ruas para impedir o Golpe, mas, reconheçamos, nos faltou energia. Havia quem já pensasse em 2018. Triste ingenuidade…

E então 2018 chegou, não sem, antes, o grupo político que havia tomado o poder passar um trator de austeridade no país. Não sem, antes, esse mesmo grupo triturar direitos trabalhistas do povo brasileiro. Não sem, antes, a turma de Temer ter invocado perigosamente a turma dos militares para resolverem conflitos políticos que o Governo não resolvia.

Mas tudo bem, 2018 chegava junto com a nossa salvação. Era a volta de Lula, o País feliz de novo. Era mais um engano de quem insistiu em acreditar que “as instituições brasileiras estavam funcionando normalmente”.

Lula, ao qual cabem muitas críticas, mas não nesse artigo, disparava nas pesquisas eleitorais. A dúvida era se a vitória viria no 1º ou no 2º turno. Ao menos na cabeça dos que ainda acreditavam nas instituições. Porque, na cabeça de quem não via lógica em um grupo que deu o Golpe em 2016 perder o poder dois anos depois em eleições democráticas, a real dúvida era quando sabotariam as eleições.

Foi então que, sob a chancela do STF (mais uma vez), o rasgador oficial da Constituição acovardado por ameaças militares, Moro encarcerou o jogo democrático em uma cela em Curitiba.

Esse é o fio desenrolado que nos trouxe até aqui. Em resumo: um Golpe em uma Presidenta legítima e a prisão política do principal candidato da oposição num espaço de 2 anos. Já seria o suficiente para que o povo brasileiro não reconhecesse a legitimidade do resultado eleitoral deste fim de semana. Mas tem mais, muito mais…

Isso porque o resultado eleitoral deu a vitória a Jair Bolsonaro. Um entusiasta da Ditadura que, por quase 30 anos, covardemente escondido atrás de sua imunidade parlamentar, usou seu mandato de deputado federal para pregar a tortura e a violência política no Congresso.

Até pouco tempo atrás, imaginar que aquele ser abjeto poderia ser nosso Presidente era motivo de piada. Mesmo que já fosse chocante o suficiente que ele se candidatasse ao cargo, porém, houve quem, mais uma vez, se rendesse à ingenuidade para acreditar que, ao menos em campanha, ele diminuiria o tom. Não baixou…

Bolsonaro fez sua campanha presidencial do mesmo modo como sempre se comportou no Congresso: defendendo a Ditadura e a perseguição a seus opositores. Sua turba, é claro, regozijou-se. Mas, do outro lado, houve quem tivesse esperança de que, no 2º turno, ele seria obrigado a baixar o tom. Mais uma vez, não baixou…

E tampouco apresentou propostas para o País. Seguiu fazendo sua campanha centrada mais em seus “inimigos” do que em um projeto de país, mesmo que alguns desses inimigos nem existissem de verdade. Afinal, foi no 2º turno que se descobriu que, via WhatsApp, Jair Bolsonaro criava seus próprios moinhos de vento para vender a uma população desinformada a imagem de que ele era o próprio Dom Quixote.

 

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Num esquema fraudulento que envolvia Caixa 2, doações ilícitas de empresas e disparos ilegais de mensagens, Bolsonaro já havia destruído a imagem de seus opositores com mentiras que beiravam o ridículo. Aliás, Bolsonaro já havia destruído as próprias eleições. Tudo com o aval da Justiça Eleitoral, que ao invés de combater as redes de “Fake News”, achou mais plausível combater Roger Waters.

Ao perceber o que acontecia por debaixo dos panos, foi bonita a reação da esquerda brasileira. Bonita, mas também melancólica. Já era tarde demais para virar o jogo. A bem da verdade, desde 2016 já era tarde demais para apostar nas instituições.

Um “impeachment” sem base legal, a prisão política do maior candidato da oposição e favorito nas eleições e a vitória de um candidato que, visivelmente, se utilizou de uma série de métodos ilegais para vencer a eleição. E ainda há quem diga que devemos, simplesmente, aceitar o resultado e torcer pelo melhor, como se nada tivesse acontecido?

Como se não bastasse, não é como se esse processo tivesse alçado só mais um Presidente ruim ao poder. Não estamos falando de um democrata.

Bolsonaro é um entusiasta do período da Ditadura Militar brasileira e, nos últimos 30 anos, não faltam promessas do mesmo de que, se um dia chegasse ao poder, ele gostaria de repetir os mesmos métodos. Essa foi, inclusive, a sua plataforma de campanha, oras!

Há pouco mais de uma semana, Bolsonaro prometeu a seus seguidores, em uma Avenida Paulista lotada, que varreria seus opositores, os “marginais vermelhos” do país. Depois de eleito, pra quem acreditava que ele diminuiria o tom, fez questão de deixar claro, no Jornal Nacional, que os tais “marginais” eram os seus opositores do PT e do PSOL. Também esclareceu, como sempre prometeu, que enquadrará o MST, o MTST e outros movimentos como organizações terroristas.

Tudo isso tendo como pano de fundo um plano liberal de austeridade, na figura de Paulo Guedes, que já massacra o povo há mais de 3 anos no Brasil. Tal plano, porém, sequer foi discutido pela população, ocupada demais debatendo os “moinhos de vento” criados por Bolsonaro, como o “kit gay”.

Porém, de forma desesperadora, vemos, agora, a grande mídia e até mesmo setores teoricamente progressistas tentando, forçadamente, encarar com normalidade toda essa situação. Encarar com normalidade o candidato que recebeu apoio da Ku Klux Klan e que, nos jornais do mundo todo, é chamado sem meias palavras de fascista.

Será que parte de nós já esqueceu que, durante toda a campanha eleitoral, dizíamos estar combatendo o fascismo. É aceitável que a democracia eleja um fascista? É possível torcer pelo melhor de um Governo fascista? Devemos aceitar uma chapa que já falou abertamente em “auto-golpe”? Vamos mesmo pagar pra ver?

Os tempos já não são como antes, e a oposição também não deve ser. Me perdoem o desespero, mas há um elefante na sala e uma grande parte do país está simplesmente fingindo que não o vê. Esse elefante veste farda e tem nome: fascismo.

 

Almir Felitte é graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

 

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