Precisamos falar francamente sobre os bolsonaristas
Quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Precisamos falar francamente sobre os bolsonaristas

No ano em que a nossa jovem Constituição celebrou trinta anos de sua existência, ironicamente, elegemos para presidente do país um candidato DECLARADAMENTE comprometido com as ideias e as forças políticas de um passado recente onde a palavra democracia tinha sido abolida dos dicionários. Esse mesmo candidato, agora Presidente da República eleito pelo direito de voto garantido pela Constituição Cidadã, declarou, há poucos dias atrás, que seus adversários seriam banidos do país ou iriam para cadeia, declaração dada logo após um de seus filhos afirmar que para fechar o STF bastaria apenas um cabo e um soldado.

Pois bem. São ironias como essas que os historiadores terão o árduo trabalho de tentar explicar às gerações futuras. Mas até lá, a resistência que faremos a esse projeto antidemocrático depende não apenas da nossa mobilização social, mas também da nossa capacidade de compreender como pensam os atores principais dessa estória, os 57,7 milhões de eleitores que votaram em Bolsonaro.

Na semana que antecedeu o primeiro turno das eleições, assistimos a uma movimentação, um tanto surpreendente, de parte do eleitorado em direção a uma extrema-direita, cujo discurso, até então, não vinha sendo levado a sério pela esquerda e pela direita tradicional. Na pesquisa Ibope divulgada no dia 28/09, a diferença entre os candidatos do PSL e do PT chegou ao menor índice, de apenas 6%, sendo que as simulações de segundo turno apontavam a derrota do candidato militar em um possível enfrentamento com os candidatos do PT, do PDT e do PSDB. Bolsonaro apresentava, ainda, naquela pesquisa, índice de rejeição de 46% contra 30% do candidato petista.

O que teria motivado parte significativa dos eleitores a se movimentar de um extremo a outro, há uma semana do primeiro turno? É dessa parcela do eleitorado que precisamos falar. Candidatos da extrema-direita que, sequer, apareciam como fortes concorrentes, alavancaram na reta final e foram para o segundo turno em alguns Estados, saíram vitoriosos na disputa por algumas vagas do Senado e obtiveram a segunda maior bancada na Câmara dos Deputados.

Em pesquisa divulgada pelo Datafolha no dia 02/10, 81% do eleitorado do Bolsonaro afirmaram ter contas nas redes sociais, sendo que 60% disseram se informar sobre as notícias pelo WhatsApp e 40% afirmaram compartilhar notícias e vídeos relacionados à política.

Ainda não é possível avaliarmos o impacto causado pelo envio de milhões de mensagens falsas pelo WhatsApp, patrocinado por empresários pró-Bolsonaro, nessas eleições, cujos detalhes só foram trazidos a público, após denúncias publicadas pela Folha de São Paulo. Não há dúvida, porém, de que o abuso do poder econômico permaneceu interferindo no processo eleitoral, mesmo após o STF ter declarado inconstitucional o financiamento empresarial de campanhas. E o que vimos, até agora,foi um TSE claudicante e amedrontado ao tratar dessas questões.


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Em razão das repercussões negativas sobre a disseminação de informações falsas nas últimas eleições dos EUA, o Facebook vem adotando, desde então, políticas de segurança para identificar e coibir o compartilhamento de conteúdos falsos, o quel evou ao cancelamento de dezenas de perfis, relacionados, em sua grande maioria, a grupos de extrema-direita aqui no Brasil. Ou seja, antes mesmo da realização do primeiro turno, já era totalmente previsível que práticas fraudulentas seriam utilizadas para interferir no processo eleitoral.

Coincidentemente, no mesmo dia em que foram marcadas manifestações por todo o país contra o candidato do PSL, o líder da maior igreja evangélica do país declarou,oficialmente, seu apoio ao candidato militar, colocando à sua disposição todo o aparato da Igreja Universal, diga-se, concessões públicas de rádio e televisão. Ou seja, mais um caso gritante de abuso do poder econômicoe de um conveniente silêncio do Poder Judiciário e do Ministério Público que, até outro dia, entoavam o mantra: “a lei é para todos”.

Logo, não há como negar que parcela do eleitorado ficou totalmente exposta e suscetível a todas essas manipulações, no período que antecedeu a votação em primeiro turno.

No entanto, existia uma crença, por parte da esquerda e também de setores da direita,que o discurso de ódio às minorias, de desprezo aos direitos sociais, de cunho pseudorreligioso e totalmente esvaziado de propostas sérias não se sustentaria com o início da propaganda eleitoral e dos debates, pois atingiria um teto.

Sabemos que parcela significativa do eleitorado do Bolsonaro se identifica, de fato, como discurso de ódio, elitista e preconceituoso propagado por ele, cujas raízes remontam ao nosso passado (e presente) escravocrata e oligárquico. O discurso antipetista é tão antigo quanto a própria criação do partido e sempre esteve umbilicalmente ligado a um pavor que parte da nossa elite sempre teve de perder seus privilégios com a mobilidade social do outro.

O que mudou de lá para cá foi que essa parcela raivosa da sociedade ganhou, nos últimos anos, uma nova vestimenta para o seu discurso de ódio,o do combate a corrupção, tornando-o palatável por aquela outra parte do eleitorado que, embora não se identifique com o discurso fascista, não acredita mais no sistema político atual.

Não devemos poupar críticas ao PT pelos erros e desvios cometidos nos quase quinze anos em que governaram o país. Mas temos que ter a clareza de que aquela mesma elite que sempre usou e abusou de seu poder econômico para interferir nos destinos políticos do país forjou, nesses últimos anos, uma narrativa no sentido de atrelar a corrupção a um único partido e que foi, oportunamente, apropriada por essa extrema-direita que está aí. Apresentando um discurso antissistema, moralista e com soluções totalmente superficiais, mas de fácil assimilação, essa direita soube canalizar a insatisfação de parcela do eleitorado que passou, então, a rejeitar o partido que, segundo ela,seria a causa de toda a crise política e econômica dos últimos anos.

Boa parte dos eleitores do Bolsonaro definiu seu voto na semana que antecedeu o primeiro turno motivada por esses sentimentos de frustração e descrença com a política, encontrando guarida em um discurso superficial e camuflado de combate à corrupção e antipetista. O discurso anticorrupção, principalmente aquele veiculado nas redes sociais, conferiu uma certa identidade de grupo a essa parcela do eleitorado que vinha buscando respostas às suas insatisfações e que se viu acolhida pela onda criada no mundo virtual.

Pesquisas realizadas pela socióloga Esther Solano, professora da UNIFESP, já vinham sinalizando essa tendência de parte do eleitorado que, embora rejeitasse o discurso de ódio pregado pelo candidato do PSL, estaria disposta a votar em candidatos que não estivessem ligados aos escândalos de corrupção. E a esquerda teria falhado ao não procurar dialogar com essa parcela da população.

Precisamos entender que parte dos eleitores do Bolsonaro são pobres,pertencem a minorias e já foram, no passado, eleitores do PT. Outra parcela é composta por uma classe média, também vulnerável, pois assalariada, mas que, tradicionalmente, tende a fazer o discurso da elite, porque acredita que um dia fará parte dela.

Se com aqueles eleitores cultivadores do ódio e de preconceitos não é possível estabelecer um diálogo sobre os caminhos para construção de uma sociedade mais justa para todos, pois eles declaradamente rejeitam essa via, é com aquela parcela mais vulnerável que precisamos dialogar, poisnão se deram conta de que o projeto do Bolsonaro visa, justamente,eliminar os poucos direitos sociais que ainda lhe são assegurados.

A esquerda falhou quando permaneceu se comunicando consigo mesma, com aquela base já alinhada ideologicamente ao campo progressista, esquecendo de dialogar com aquela parcela da população que procurava respostas às suas insatisfações. E isso possibilitou que grupos da extrema-direita se aproximassem desse eleitorado com um discurso sedutor, porque de fácil assimilação, embora totalmente vazio de conteúdo.

Bolsonaro e sua trupe estão prestes a assumir o poder e parte do seu eleitorado, infelizmente, não se deu conta daquilo que, de fato, representam. As políticas públicas nacionais, nos próximos quatro anos, serão definidas por pessoas que representam o que temos de mais reacionário, retrógrado e abjeto nesse país. Se a tentativa de união dos partidos progressistas falhou antes das eleições, agora, mais do que nunca, ela é necessária.No entanto,a única via que temos para combater o avanço desse projeto antidemocrático é aquela que for liderada pela própria sociedade.

Somos 47 milhões de brasileiros que votaram, de forma convicta, contra tudo aquilo que Bolsonaro representa. E é, justamente, nessa consciência que reside nossa força. Parte do nosso desafio,agora,não é apenas resistir, mas tentar estabelecer uma ponte com aquela parcela da população que, consciente ou inconscientemente,decidiu se auto boicotar.

Tainá Ferreira Nakamura é advogada e Procuradora da Fazenda Nacional.

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