A esquerda precisa de um divã?
Quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A esquerda precisa de um divã?

Arte: Daniel Caseiro.

Por Eduardo José Santos Borges

Eu nunca perco. Ou eu ganho ou eu aprendo”. Essa frase do saudoso Nelson Mandela deveria ser nesse momento a frase de cabeceira de todo eleitor de Haddad e de todos os progressistas desse país. Hoje, a esquerda brasileira aparenta estar vivenciando uma transição entre a fase da negação e a da assimilação, do que representou a vitória da extrema direita na última eleição presidencial. Tudo parece um grande freio de arrumação e (finalmente) aprender com os erros e com os acertos deve ser o grande desafio da esquerda brasileira nos próximos quatro anos.

Certamente que uma autoanálise do PT e das esquerdas passa por entender o que realmente aconteceu com o sistema eleitoral brasileiro nessa eleição presidencial. Ainda que a nossa democracia liberal tenha sofrido alguns revezes, ao contrário do que pensam os menos otimistas, ela continua existindo e em pé. Contudo, uma coisa eu tenho certeza, ela foi cruelmente sabotada nesse processo eleitoral. O Brasil  usou sua democracia para eleger um candidato com um programa pífio, com um linguajar digno dos mais requintados espaços do submundo, com um histórico como parlamentar dos mais medíocres (em quase trinta anos de Parlamento nunca liderou um partido, nunca presidiu uma Comissão nem nunca relatou um projeto), com uma covarde fuga dos debates (momento em que a realidade poderia se sobrepor ao mito), e baseado quase que exclusivamente em uma rede de manipulação da verdade, de factoides inverossímeis e de clichês preconceituosos e demagógicos. Por tudo isso, se temos que admitir que Jair Bolsonaro chegou ao poder pela via democrática, não resta dúvida que essa mesma democracia foi significativamente sabotada (diga-se com o beneplácito de parte da imprensa, da sociedade e da justiça) por práticas que deixarão marcas profundas a serem repensadas no modo de fazer eleições no Brasil.

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Mas como dizia Lenim, o que fazer? O que cabe agora ao PT, às esquerdas e a todos os progressistas desse país? Que tal começar repensando posturas equivocadas. Voltar a ouvir quem verdadeiramente esteve ao seu lado nos últimos anos. Ocupar espaços perdidos, resultado de uma acomodação imperdoável de quem experimentou o gosto do poder, sentou no trono, e se afastou do clamor das ruas. Repactuar alianças construindo relações mais equânimes e estratégicas com os aliados. Reconstruir o campo progressista incorporando minorias e maiorias com base em um discurso menos empolado, mais objetivo e, principalmente, universalista. São tarefas facilmente exequíveis, basta voltar ao passado e colocar em prática – agora com a experiência adquirida pelos erros do presente – o que a esquerda sempre fez de melhor: o bom combate democrático.

O primeiro passo a ser dado é o do retorno para dentro de si mesmo. Contudo, se existem questões a serem superadas e não mais repetidas, existe um enorme legado a ser defendido e que precisa ser devidamente entendido e explicado, sob o risco de jogar fora a criança junto com a agua da bacia.

Depois do resultado da eleição presidencial que levou ao poder o candidato da extrema direita Jair Bolsonaro, a blogosfera e as redes sociais foram inundadas por artigos e textos cuja principal temática girava em torno de análises proféticas sobre os “erros” cometidos pela esquerda e pelo PT e que possibilitaram a vitória da direita. Chamo isso de engenheiros de obras prontas.

Um rol bem encadeado de motivos têm inundado nossas redes sociais bem na linha do: “eu já sabia” ou “eu bem que avisei”. Alguns até parecem que já estavam devidamente escritos, só esperando o resultado das urnas. Os argumentos são fartos e diversificados, mas todos com certo ar de obviedade. Tem aqueles que trazem de volta a tão decantada “arrogância” petista, que não teve a humildade de perceber que “era a hora do Ciro”. Tem o grupo dos que resgatam o “mensalão” e responsabilizam pelo desastre eleitoral a falta de um mea culpa profundo por parte do PT, que deveria cortar na própria carne, desde aquela época. Outros, com muita razão, ponderam sobre o afastamento do PT das suas bases e dos movimentos sociais. Alguns, e concordo muito com eles, reafirmam a incapacidade do PT em ter dimensionado corretamente o fenômeno do antipetismo. Tem aqueles que preferem apontar nomes e criar bodes expiatórios como os que adoram acusar Gleise Hoffmann de falar demais comprometendo estratégias e táticas. Tem os que criticam o personalismo autoritário de Lula que impôs sua vontade até o final, independente da vontade alheia. Os que preferem falar em estratégia, praticamente sacramentam como o principal responsável pela derrota nas urnas a insistência em manter Lula candidato até o final.

Não ousarei dizer que todo esse elenco de avaliações das “causas” da derrota petista são equivocadas. Elas são corretas e não podem ser minimizadas. O problema é o estilo “profecias do passado” que está por trás de cada uma delas. A coisa é muito mais complexa e não pode se resumir a uma simples relação de motivos.

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Visando complexificar um pouco essa discussão, que definitivamente não pode ser refém de argumentos simplistas, vamos à análise dos fatos. No que se refere à suposta “arrogância petista” ela até pode ter um fundo de verdade, mas ela também pode ser vista como uma postura natural de um partido que se tornou a mais importante instituição de esquerda da América Latina. O partido da mais importante liderança popular da história política brasileira e um dos políticos de maior reconhecimento internacional. O partido que ganhou as quatro últimas eleições presidenciais no Brasil. A legenda de esquerda que mais elegeu parlamentares nos últimos vinte anos. Dificilmente, um partido com esse histórico, abriria mão de uma postura hegemônica no seio da esquerda brasileira.

Essa imagem que acabei de apresentar sobre o PT explica, em parte, a questão da “hora do Ciro”. Ela não pode ser vista como uma obviedade autoexplicativa. Por mais viável que pudesse parecer uma aliança entre Ciro e PT com o primeiro na cabeça da chapa, havia o fator Lula, que pode até ter sido superestimado pela cúpula petista, mas os números das pesquisas se mostravam favoráveis à estratégia de manutenção da candidatura Lula até o limite da negação legal de seu registro e a consequente transferência de votos para Haddad. É fato que a transferência aconteceu, Haddad foi para o segundo turno, não Ciro. A grande falha foi não ter dimensionado corretamente – e esse é o grande desafio do PT daqui para frente – o tamanho do antipetismo.

Uma das mais usuais critica aos petistas e que para muitos analistas está na raiz de sua derrocada nas urnas é a questão da ausência de autocrítica do PT no que diz respeito a seus escândalos de corrupção. Entendo que esse argumento é quase uma autoverdade, pois parece ser autoexplicativo, mas não é. A pergunta que faço aos que pregam esse mantra é saber quais seriam os limites e o equilíbrio dessa autocrítica. Até que ponto essa autocrítica não levaria à capitulação diante da narrativa do PT como o “partido mais corrupto da história do Brasil”. Ao iniciar o mea culpa público, qual seria seu limite? Quais seriam os parâmetros corretos de uma admissibilidade de culpa que não colocasse em xeque a própria imagem e identidade construída pelo partido em anos de existência? Iniciar um mea culpa público é fácil, difícil é saber até quando ele deve ir para ser visto como suficiente no convencimento do público a quem ele se destina. O que poderia ser admitido como culpa que fosse satisfatório para agradar a sanha inquisitorial da grande mídia e de parcelas da classe média, sempre sedentas em se utilizar da mais ínfima fraqueza petista, para decretar seu fim definitivo. Essa gente não estava interessada em autocrítica petista, ela já tinha decretado a culpa e faltava apenas estabelecer o martírio e a morte final.

Desde 1989 que o PT tem em torno de trinta a trinta e cinco por cento do eleitorado brasileiro. Desde 1989 que o PT ganha, nos mesmos espaços em que ganhou em 2018. A vitória de 2002 se deu com o partido adequando o discurso (vide a Carta ao povo brasileiro) aos interesses dos outros quinze ou vinte por cento que lhe faltava para chegar a vitória. Pois foi justamente essa porcentagem volúvel que agora optou em votar no capitão reformado. Era para essa porcentagem volúvel que o PT deveria fazer a autocrítica, mas em nada iria funcionar, pois inconstante, moralista, seletiva e de tendência conservadora, essa porcentagem já tinha abandonado o barco petista desde 2013.

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Alguém pode estar se perguntando, e aos trinta ou trinta e cinco por cento de eleitores petistas, o PT não devia uma satisfação por conta dos escândalos de corrupção? A esses o PT respondeu com ações, vamos a elas: comparando com o último ano de FHC e o ano de 2013, nos governos petistas tivemos uma renda per capita saindo de 7,6 mil para 24,1 mil. Como resultado dos governos petistas o Brasil saiu definitivamente do mapa da fome da ONU, quem repercutiu isso? Uma safra agrícola de 97 milhões de tonelada para 188 milhões. Os investimentos estrangeiros, que no fim da era FHC atingiram a marca de 16,6 bilhões de dólares, atingiram no “bolivariano” governo petista o valor de 64 bilhões de dólares. As reservas internacionais de FHC, depois de Pedro Malan bater à porta do FMI com o pires na mão, chegaram a míseros 37 bilhões; já o “irresponsável” e “perdulário” governo petista, fechou 2013 na casa dos 375,8 bilhões de dólares em reservas – isso significou uma quantidade razoável de dinheiro em caixa para o senhor Paulo Guedes brincar de pagar banqueiro com o suor do povo brasileiro. A taxa de desemprego atingiu o valor de 5,4 por cento, isso é quase pleno emprego, resultado direto da geração de 21 milhões de empregos entre Lula e Dilma, com um detalhe importante, sem perdas de direitos trabalhistas, como defende nosso Capitão/Presidente.

Um dado interessante, que deve ter feito uma boa parcela de nossa classe média passar a odiar o PT, se refere ao número de passagens aéreas: em 2002 foram 33 milhões de passagens vendidas, em 2013, fechamos a marca de 100 milhões. Imagine quantas pessoas não estavam realizando esse sonho pela primeira vez. O FIES atingiu 1,3 milhões de pessoas com o financiamento universitário. O Ciências Sem Fronteiras chegou a 100 mil beneficiados e o Luz para Todos chegou a 9,5 milhões de pessoas – algumas experimentando um chuveiro elétrico pela primeira vez na vida. A capacidade energética do país foi de 74.800 KW para 122.900 KW. Um crônico problema brasileiro, a crise de moradia (o novo presidente quer transformar o MTST em terroristas…), foi atenuado alcançando-se 1,5 milhões de pessoas através do Minha Casa Minha Vida. Teve até procurador de justiça se dando bem com esse programa.

Em suma, a lista pode ainda ser bastante acrescida com programas como o PIBID que teve impacto direto na qualificação profissional de nossos futuros professores. O Programa Caminho da Escola, cujos ônibus amarelos continuam cortando as estradas Brasil afora levando nossas crianças e jovens para o encontro com o futuro – populações rurais e ribeirinhas foram as mais beneficiadas com esse Programa, disponibilizando lanchas e bicicletas aptas às estradas dessas regiões. O Programa Brasil Sorridente, cujo nome é autoexplicativo. O Brasil Carinhoso com impacto direto na taxa de extrema pobreza entre crianças de zero a cinco anos: em 2004, essa taxa era de 13,9 por cento, com o Programa Federal, chegou a 5 por cento em 2014.

Esse é o melhor exemplo de autocrítica feita pelos governos petistas. Logicamente que isso não significa transigir com a corrupção, mas apenas não ter da corrupção – algo claramente estrutural na sociedade brasileira- uma visão moralista, seletiva e completamente desconectada com a realidade. Mas se alguém insistir em vincular o PT com a corrupção, basta dizer que o Partido do recém eleito presidente da República (me refiro ao PP e não à legenda alugada para se candidatar) está entre os três mais corruptos do Brasil e é o mais atingido pela Lava Jato. Cabe aqui uma oportuna pergunta: onde estava nosso capitão paladino da moralidade quando todos seus coleguinhas foram presos? Qual a opinião do “senhor incorruptível” em ser liderado por uma década por Paulo Salim Maluf, que hoje – assim como Lula que ele costuma chamar de presidiário – se encontra encarcerado?

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Mas o PT também tem que falar em corrupção, ainda que sob a ótica do combate a ela. Nisso, ele também fez a diferença. Para não ficar um texto muito prolixo vou apenas encadeá-los, para que o leitor faça a devida pesquisa dos detalhes:

Criação da Controladoria-Geral da União (CGU).

Programa de Fiscalizações por Sorteio Público de Municípios que até o primeiro trimestre de 2015 fiscalizou 2.144 municípios analisando em torno de 21 bilhões de repasse federal, levando pânico aos diversos prefeitos corruptos espalhados pelo país.

– Sistema de Correição que do início do Governo Lula ao final de 2016, possibilitou ao Governo Federal expulsar 6.209 servidores, sendo que 5.172 foram demitidos, 493 tiveram aposentadoria cassada e 544 foram afastados de funções comissionadas.

Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas cujo nome é autoexplicativo.

Fortalecimento e autonomia da Polícia Federal.Enquanto no governo Fernando Henrique Cardoso, de 8 anos, a Polícia Federal fez apenas 48 operações, o período entre 2003 e 2016 registrou 3.512 operações.

Autonomia do Ministério Público. Além da tradição de escolha do primeiro lugar da lista tríplice, rompeu com a prática do chamado “Engavetador Geral da República” que no tempo de FHC recebeu 626 inquéritos criminais, engavetou 242 e arquivou 217. Na época, o MP aceitou somente 60 denúncias e a maioria dos inquéritos engavetados foram de aliados do presidente sociólogo.

Portal da Transparência, premiado pela ONU como uma das mais importantes iniciativas de combate a corrupção no mundo.

Lei de acesso a informação que desde maio de 2012 até dezembro de 2016, registrou 446.132 pedidos de acesso à informação efetuados por 233.433 solicitantes, média de 7.967 pedidos por mês.

Lei Anticorrupção que dispõe sobre a responsabilização objetiva administrativa e civil de pessoas jurídicas (empresas) pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira.

Nova Lei de Lavagem de Dinheiro, de 2012, que combate fortemente este crime e retira a obrigatoriedade de comprovação da prática de crime antecedente que deu origem ao dinheiro.

Lei da Ficha Limpa que ironicamente tirou Lula da disputa presidencial.

Este é o principal capital político dos governos petistas, do petismo e da experiência esquerdista na gestão pública brasileira. Isso explica, aos mais incautos, os motivos do PT ainda sair dessa eleição como o grande protagonista da esquerda brasileira. Isso explica o fato do PT sobreviver a um massacre diário, nos últimos dez anos, por parte de uma mídia fisiológica e egoísta que comprou e passou à frente o ódio insano – como nunca antes na história desse país – a uma legenda partidária. Diz um ditado popular que “ninguém bate em cachorro morto”, assim é o PT. Por que não existe um antipsdebismo, ou um antipedetismo, ou um antimdbismo, ou um antidemismo, ou um antipepismo? Porque eles são cachorros mortos da política brasileira. Por que eles são mais cartórios e menos Partidos. Todos, como não poderiam ser diferentes, são tão imperfeitos quanto o PT. Assim como o PT, todos são formados por indivíduos honestos e desonestos, mas diferente do PT, nenhum deles tem um legado social tão grande a defender. 

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Nos próximos quatro anos é hora de fazer oposição, e quando for necessário, fazer a resistência. É hora das esquerdas construírem uma agenda mínima e defendê-la em todas as instâncias de maneira intransigente. Isso não significa repetir o discurso ingênuo de que as esquerdas devem esquecer suas diferenças. Elas existem, são da democracia, e inerentes historicamente ao processo histórico dos movimentos de esquerda no mundo.

Quanto ao PT, é hora de fazer um grande Congresso, que repactue seus projetos internos e defina uma identidade e um projeto único a ser apresentado à sociedade brasileira como um todo. Que ofereça ao cidadão brasileiro, seu futuro eleitor, diretrizes claras e objetivas do que ele pode esperar do Partido para melhorar as suas vidas. Que resgate suas bases para dentro do Partido, mas que crie canais de comunicação que faça do Partido um interlocutor das demandas de toda a sociedade brasileira.

Iniciei esse texto com uma citação, termino com outra, essa, do brilhante filosofo Karl Popper. A frase de Popper não só oferece um alento aos corações arrefecidos dos progressistas desse país, mas também explica de maneira profética como vai ser possível lidar com os próximos quatro anos do governo da extrema direita, vejamos: “A democracia não é um método de eleger os melhores, é um método para evitar que os piores se perpetuem no poder”. Alea jacta est.

Eduardo José Santos Borges é Doutor em História Social e Professor de História Moderna na Universidade do Estado da Bahia.


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