Nazismo e Fake News
Quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Nazismo e Fake News

Arte: Daniel Caseiro.

Por Eduardo Migowski

Ao contrário do que muitos pensam, Hitler chegou ao poder sem nunca ter vencido uma eleição. Em 1932, os nacionais-socialistas haviam conquistado 230 cadeiras no parlamento, o que os tornava o maior partido, mas não os dava maioria. Nas eleições para presidente do mesmo ano, Hitler perdeu para o marechal Hindenburg, alcançando 36,77% dos votos. Enfim, nas urnas, os nazistas não chegaram nem perto de obter a maioria do eleitorado.

Em janeiro de 1933, portanto, o líder nazista era parte de um governo de coalizão extremamente instável, cuja maioria estava com os conservadores. Em poucos meses, porém, ele conseguiu instaurar uma ditadura sem grandes questionamentos por parte do povo alemão. Em 23 de março, a Lei Habilitante, assinada por Hinderburg, concedia  a Hitler amplos poderes. Os comunistas já estavam sendo presos e os primeiros campos de concentração inaugurados.

Como isso foi possível? Para responder essa pergunta, é preciso destacar que havia elementos no discurso nazista que atraíam os conservadores, como: o nacionalismo, a oposição ao Tratado de Versalhes, o rearmamento, a hostilidade ao marxismo e o desprezo pela democracia. Porém, mesmo seduzidos por tais ideias, os conservadores não tinham força para levá-las adiante. Estavam paralisados num momento de caos social e econômico. Nomear Hitler como chanceler foi uma tentativa desastrosa de recuperar as bases sociais e populares do partido, que estavam se desintegrando. O efeito foi contrário. No poder, os nazistas esmagaram a oposição e controlaram as antigas elites.

O prestígio do nacional-socialismo, nesses primeiros meses, não veio da recuperação econômica. Por mais que eles logo mostrassem êxito nessa área, não se recupera a economia de um país do dia para noite. O fator principal da popularidade da extrema-direita foi o resgate do orgulho nacional, que estava ferido desde o fim da Primeira Guerra Mundial. A República de Weimer era vista como o símbolo da derrocada nacional, por tal motivo, havia poucos dispostos e defender as instituições vigentes.

As primeiras medidas de impacto, portanto, foram no campo simbólico, do imaginário político nacional. O sistema parlamentarista estava desgastado, assim como a democracia liberal. Ambos eram percebidos como os causadores da instabilidade política, econômica e social que o país passava. Muitos lembravam com saudosismo do antigo Império Alemão.
Joseph Goebbels

No dia 21 de março foi inaugurado o novo Reichstag. Goebbels recebeu a missão de preparar a cerimônia de acordo com as diretrizes do partido. Todos os detalhes foram milimetricamente pensados para transmitir a imagem que o governo havia construído de si mesmo. A data, por exemplo, remetia à primeira inauguração do parlamento, em 1871, época da Unificação Alemã. O historiador Peter Longerich descreveu assim a cerimônia:

“O lugar incorporava de modo especial a tradição monarquista e militar da Alemanha-Prússia: na Igreja da Guarnição de Potsdam, achavam-se os túmulos dos reis prussianos, Frederico Guilherme I e Guilherme II, e, até fim da Primeira Guerra Mundial, nela ficavam expostos os estandartes e bandeiras conquistados pelo exército prussiano desde as guerras de libertação. Lá se devia realçar e celebrar a aliança dos nacionais-socialistas com os conservadores de direita. A expressão dessa aliança seria principalmente o aperto de mãos solene durante o qual o chanceler do Reich, de fraque e cartola, faria uma profunda reverência diante de Hindenburg, que estaria envergando uma farda de marechal de campo do exército imperial. Goebbels concebeu uma cerimônia devidamente grandiosa e clássica.”

As cenas dos desfiles militares acompanhados por uma multidão em êxtase são impressionantes. O cortejo das SA e do exército alemão demonstrava não apenas união das forças armadas, como também entre o velho e o novo. A reverência de Hitler à Hindenburg deve ser vista com cautela. A cerimônia de Potsdam marcou mais que uma união entre conservadores e nacionais-socialistas. Desde a crise de 1929 os votos dos conservadores vinham migrando para a extrema-direita. A união entre ambos fora feita quando Hindenbrug convidou Hitler para o governo de coalizão. Mas, como vimos, a ideia dos conservadores era manter Hitler sob controle. Em Potsdam, contudo, essa aliança é resignificada.

A reverência do líder nazista não demonstra uma submissão ao presidente, mas é uma honraria ao marechal, herói da Primeira Guerra Mundial, que remetia a um passado glorioso, pré-republicano, que os nazistas queriam reviver. O que estava sendo construído era uma narrativa de continuidade entre o segundo e terceiro Reich, que ignorava a republica. Os trajes militares do presidente deixavam isso bem claro. Enfim, mais que uma aliança política entre essas vertentes da direita, Potsdam representou um supremacia do projeto nazista.

O objetivo de Potsdam era apresentar para a população os nazistas como continuadores das glorias dos antigos impérios. O historiador Robert Gellately escreveu: “O povo alemão, desprezando os políticos alemães que haviam fracassado por completo em ajudá-los, viu-se pronto a colocar sua confiança e compreensão nas mãos de alguém que poderia reconectá-los com o que sentiam ser os elementos mais soídos da tradição alemã”. A organização militar, o impacto provocado pelas marchas e o sentido de unidade eram a antítese perfeita da desorganizada república.

O nazismo, porém, não era feito apenas de propaganda. O regime também praticava a coerção. E o povo precisava ser instruído sobre as novas práticas. É nesse aspecto que o controle das informações aparece como complemento à propaganda. Nos dia 13 de março, os nacionais-socialistas haviam criado o Ministério do Esclarecimento Popular e da Propaganda. Segundo Goebbels, a tarefa do Ministério seria a de “mobilizar o espírito” do povo alemão e o entusiasmo popular. A visão do Reich em relação à imprensa seguia a mesma lógica da produção artística: “a arte não é um conceito absoluto, apenas ganha vida a partir da vida das pessoas”. Não haveria, portanto, arte sem viés político, nem notícia. Como o Partido se dizia o representante do povo alemão, seria fácil concluir que as críticas ao governo seriam encaradas como propaganda estrangeira, bolchevique, judaica ou as três coisas ao mesmo tempo. Jornais comunistas e alguns liberais logo seriam invadidos por radicais das SS e das SA. A maioria dos jornais liberais, porém, preferiu não contrariar as novas diretrizes políticas e passaram a apoiar o regime.

Como lembra Richard Evens, o Terceiro Reich não era uma ditadura comum. Os nazistas se diziam a verdadeira expressão da alma alemã. Havia a preocupação de transmitir a imagem de unidade entre povo e partido, por meio do “endosso” permanente das medidas tomadas. Ou, nas palavras de Evans: “o regime colocou-se desde o início em um estado de permanente consulta plebiscitária das massas”. Obviamente que essa “democracia participativa” era aparente e não real. Porém, a aparência de unidade servia para persuadir aqueles que desconfiavam do governo. Servia também para manter a oposição em silêncio, de modo que ela perecesse inexistente.

Quem seria contra a “opinião pública”?

O Terceiro Reich foi construído alternando coerção seletiva e consentimento. A coerção era dirigida aos grupos marginalizados e a instituição responsável era a política e os órgãos de segurança. O consentimento era direcionado ao restante da população e o veiculo responsável era a imprensa e a máquina de propaganda do governo. Os primeiros campos de concentração começaram a ser construídos já em 1933, para abrigar os perseguidos políticos. Não havia um projeto de limpeza étnica, como se configuraria mais tarde. As primeiras medidas contras os judeus foram extremamente tímidas. Nesse momento, o inimigo principal era a esquerda e os marginais sociais. A repressão era tão grande que logo as prisões ficaram lotadas. Para resolver esse problema, os campos de concentração começaram a ser inaugurados. Muitos deles em instalações improvisadas.

Um dos primeiros campos criados foi o de Dachau, construído numa antiga fábrica de pólvora. Não houve nenhuma tentativa do governo em esconder a existência do local. Nem poderia, ele ficava a apenas cinco quilômetros de Munique. Segundo Gellately, no dia em que os primeiros prisioneiros chegaram, havia uma multidão de curiosos à espera para vê-los entrando na prisão. Os alemães haviam sido informados que ali seria o espaço reservado para os comunistas, que estariam conspirando contra a nação.

Himmler afirmou nos jornais que, caso fossem soltos, esses elementos subversivos voltariam às atividades criminosas e a paz social não seria alcançada. E esta era a grande questão. A imprensa alemã não escondia do público que os direitos individuais estavam sendo violados, mas colocava essa prática como necessária para que a ordem fosse restabelecida. Como também mostra Gellately, as notícias de roubos, furtos e mortes, que infestavam os jornais na República de Weimer, desapareceram. A violência aumentou com a ascensão dos nazistas, porém era uma violência localizada, que tranquilizava o cidadão comum. Assassinos soltos podem matar qualquer um. Quando a violência é praticada pelo Estado, de forma altamente seletiva, e as pessoas são informadas pela imprensa quem seriam os alvos, a tranquilidade é maior. “Uma lista de 10 de abril de 1934 mostra que das 2.405 pessoas em campos de concentração na Bavária. 1.531 (62,5%) eram acusados de envolvimentos com comunismo; 222 (9,1%) estavam confinados por alta traição e outras 33 (1,3%) por formas menos graves de traição. Algumas dessas últimas talvez também pudessem ser comunistas, o mesmo sendo possível para os outros 98 prisioneiros (4%) acusados de atividades marxistas” (Gellately). Como podemos ver, a quase totalidade das prisões estavam direcionadas à esquerda. Não havia ninguém preso, por exemplo, por ser judeu nos primeiros anos. O povo alemão sabia que, caso ele não fosse comunista, não seria incomodado.

A imprensa procurava destacar os aspectos “positivos” da política de segregação. Segundos os jornais, os campos de concentração teriam o caráter “educacional”. Muitos também diziam que era uma oportunidade que o Estado daria aos comunistas de refletiram sobre o mal que estavam causando à sociedade. Quando Dachau foi construído, por exemplo, os periódicos locais festejavam dizendo que ele abrira novos postos de trabalho e desenvolveria a região. Sempre preocupados com o “mercado”, os jornais liberais saudavam Dachau como “algo que traria nova esperança ao mundo empresarial”. Outros diziam que ele seria o “ponto de virada econômico” e o “início de dias mais felizes”. Outra publicação estampava que a pequena cidade de 8.000 habitantes havia se tornado o lugar mais famoso da Alemanha. Hoje Dachau virou um dos principais símbolos do terror nazista, lembrado como um dos campos de concentração mais cruéis, que chegou a abrigar 180 mil presos. Porém, quando da sua inauguração, o local era festejado na imprensa.

Apenas em 1933 foram construídos 160 campos de concentração na Alemanha. Todos eles elogiados e apresentados como necessários para a volta da tranquilidade e para a recuperação econômica. As palavras usadas para descrever o que estava ocorrendo eram cuidadosamente escolhidas. Os eufemismos, também eram constantes. As mortes eram relatadas como “autodefesa”. Os detidos seriam “reeducados” e estariam sob “custódia protetora” do Estado, para que pudessem “recuperar a razão”. Gellately destaca uma reportagem que dizia que os campos eram necessários, pois o “hóspedes” não eram criminosos, mas pessoas “seduzidas” pelo comunismo. Portanto, não precisariam de uma punição, mas de uma “reeducação”, que seria feita por meio de novas “terapias”. O jornal era categórico: “provavelmente a maneira mais humana de lidar com elementos subversivos”. Outra matéria dizia que os comunistas “envenenavam a atmosfera”. A analogia é interessante, considerando que muitos deles seriam mortos com gases tóxicos.

O êxito nazista aconteceu porque eles souberam manejar as instabilidades. Quando chegaram ao poder, 40% da população estava desempregada. Os outros 60% estavam em dificuldade ou receosos de serem os próximos a perderem o emprego. A violência explodia. Os valores morais eram percebidos como algo que estava sendo desvirtuado. Ou seja, a insegurança atingia a todos, as angústias eram enormes.

Os nazistas, então, passaram a escolher grupos localizados e direcionavam a eles os efeitos da crise. Por exemplo, a Lei de Restabelecimento do Funcionalismo Público, que expulsava os judeus das funções públicas, não era apenas uma punição, mas uma forma jogar o problema de desemprego no colo das minorias. O mesmo pode ser dito em relação à violência, que era cometida pelos militantes radicais nazistas. Enquanto os membros das SA e das SS estavam nas ruas atacando a oposição, o governo apresentava os campos de concentração como a solução para tirar essas práticas do dia a dia das cidades. Ela seria setorizada e praticada em espaços reservados. Longe dos olhares da sociedade. A função dos jornais era construir uma justificativa “ética” para essas práticas. A população não seria incomodada. Os problemas não desapareceram, mas foram domados. Finalmente, os alemães poderiam dormir em paz.

Como podemos ver, todos as estratégias de manipulação, indicadas por Chomsky, estavam presentes. Tomar a representação como realidade. Estereotipar o inimigo. Adoção de slogans vazios. Seletividade das informações. Escolha minuciosa das palavras, etc. Munidos dessas armas, os nazistas construíam uma realidade na qual o genocídio fora aos poucos sendo apresentado e explicado à população como algo natural e inevitável.

Os direitos individuais eram cerceados, mas poucos se importavam, afinal criminosos precisam ser punidos de alguma forma. Depois foram os deficientes, nada mais natural, pensavam, pois eles transmitem genes defeituosos. O mesmo foi dito quando o assunto eram os comunistas, estes conspiravam e “contaminavam a atmosfera”. Quando essas práticas passaram a fazer parte do cotidiano, houve o que Hannah Arendt chamou de colapso ético. O mal se tornou banal. Gays, ciganos, judeus e várias outras categorias em breve seriam incluídas e exterminadas. Por fim, o alemão que dormia tranquilo por não ser criminoso, deficiente, judeu, comunista, gay ou cigano, acordou em meio a uma guerra mundial. A barbárie chegara na porta da sua casa.

Eduardo Migowski é professor formado em história, mestre em filosofia pela PUC/Rio, e atualmente faz doutorado em ciências políticas na UFF.

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