A dimensão psicológica do autoritarismo
Sexta-feira, 2 de novembro de 2018

A dimensão psicológica do autoritarismo

Por Valdirene Daufemback

No primeiro ano de trabalho no Presídio, não havia percebido a existência dele. Para nós que chegávamos eram muitas novidades, muitos atores. Ocupávamo-nos mais dos presos e dos agentes penitenciários, nosso contato diário. Pouco a pouco, fomos percebendo que a guarda da muralha não era irrelevante.

A cada entrada pelo portão azul necessitávamos de menos palavras. Todos os plantões de terceirizados da portaria já conheciam o carro, depois haviam registrado o número do documento junto da lista dos funcionários, por fim, bastava um acenar de cabeça. Naquele dia, depois de estacionar o KA Azul sobre as escandalosas britas, um dedo-duro mais eficiente que os gansos colocados numa penitenciária do interior, Pestana veio me avisar que não tinha acontecido a oficina de bijuterias.

– Mas por quê, Pestana?!

Preso “regalia” – ou seja, que podia trabalhar –, ele sabia que meu zelo não era só porque os alunos haviam perdido aula, tinha a ver com um jogo de forças. Negar a realização de cursos os nossos opositores não podiam, mas criar empecilhos, desmotivar os alunos e gerar instabilidade eram estratégias que estavam nas mãos deles. No início, eles gastavam energia em tentar criar condicionantes absurdas ou investiam lábia para persuadir o diretor, dizendo que os presos não iriam aproveitar nada daquilo. Depois, como a maioria dos funcionários foram se sentindo mais úteis e seguros com todas as atividades que estavam acontecendo no Presídio, deixaram de apoiar os queixumes sem fundamento dos mais endurecidos ou acomodados. Assim, já não tínhamos resistências iniciais, apenas boicote no decorrer dos projetos. Um avanço que comemoramos, por estranho que pareça.

O cancelamento da oficina de bijuterias estava nesse contexto, apenas não sabia de onde vinha o fogo amigo desta vez.

– A guarda falou que tinha uma movimentação suspeita e proibiu os agentes de tirar os presos da cela para levar à sala de aula.

A guarda de muralha era composta por policiais militares, em geral os que o Comando do Batalhão queria castigar por alguma indisciplina ou porque não tinham muitas habilidades para outras funções. De modo que é possível imaginar que trabalhar no Presídio não representava animação e suas interações não eram exatamente classificadas como amistosas.

– Gaúcho, o que aconteceu na Cadeia 3?

Gaúcho, um dos agentes prisionais que tinha se convencido que não era vergonha e nem frouxidão tratar os presos de forma decente e investir esforços para que tudo funcionasse, respondeu:

– Dra., este plantão da guarda está criando problema com tudo. Estão falando em uma atividade suspeita e não deixaram abrir a cadeia hoje. A professora está esperando lá na biblioteca, mas não sei quanto tempo vamos com nisso.

Como o ocorrido era mistério para os agentes e tampouco era importante a ponto de avisar o diretor, confirmei o diagnóstico de birra. Outros sinais já tinham me feito perceber o incômodo daquele plantão em ver presos felizes. A felicidade, por incrível que pareça, transtorna mentes, e não é de quem a sente, mas de quem a inveja.

Dentre as saídas possíveis para lidar com a situação, pedir para o diretor intervir ou subir na muralha e enfrentar os valentões, obviamente, optei pela segunda. Se recorresse ao diretor, nunca mais resolveria um problema diretamente com eles e, além do mais, precisava conhecer melhor os subterrâneos resistentes. Assim, sob os olhares de protesto, subi a escada, avancei no corredor e fui até a guarita, ignorando solenemente a hostilidade das armas que foram colocadas propositalmente em punho.

– Quem está no comando? – Fui perguntando no meio da guarita decadente.

– É o Sargento Schmitz, – responde uma voz mal-humorada.

– Onde ele está? – Recebo um olhar que aponta para a outra guarita.

– Sargento, sou Valdirene, psicóloga, e coordeno o Projeto de Humanização. Gostaria de entender melhor o que está acontecendo na Cadeia 3 para organizar as atividades de hoje.

– Sei quem a Senhora é. Muito me admira que uma pessoa “de origem” esteja envolvida com algo assim.

Definitivamente a realidade é mais surpreendente que a ficção. Nas minhas leituras de cenário mais criativas não seria capaz de prever isso. Ele falava sobre nossa linhagem alemã, considerada sinônimo de gente correta. A tradição colocava as famílias “de origem” em condição superior a italianos e brasileiros da região, porque seriam organizados e capazes de prosperar.

Durante semanas, anos e, ainda hoje, lembrar dessa situação me paralisa. Revira-me perceber os desdobramentos de um pensamento que classifica e hierarquiza pessoas por sua ascendência ou por qualquer outra característica pessoal. O que está por trás disso? O que conecta tantas pessoas na mesma crença?

Wilhelm Reich vai além das teorias políticas, sociais e econômicas e ajuda a entender o ânimo que mobiliza multidões a abandonar compreensões racionais: a dimensão psicológica. Numa obra de 1930, ele chama atenção para a função da repressão dos impulsos e das necessidades biológicas que moldam o caráter do “homem médio”, dando força ao misticismo organizado que projeta nos outros as suas próprias frustrações e impotências.

Considera três níveis da estrutura biopsíquica. O nível superficial da personalidade que é comedido, responsável e consciencioso, seria muito bem nutrido e não permitiria nenhuma tragédia se estivesse em contato com o âmbito biológico mais profundo, o terceiro nível. Porém, há o segundo nível, que media essa relação, e é formado por impulsos cruéis, sádicos e invejosos, que estão fortalecidos pela civilização autoritária e mecanicista da modernidade.

Não há como aprofundar a complexa teoria reichiana aqui, mas apenas gerar curiosidade sobre os engenhos internos que sustentam práticas coletivas de repressão, que são especialmente fortalecidos por um tipo de família e de religião, essas que querem eliminar pessoas, fazer uma “limpeza”. Um suposto jeito certo que quer disciplinar e enquadrar o diferente. É necessário que você se pergunte, por que a felicidade e a maneira de ser dos outros lhe incomodam? Esse é o primeiro passo para neutralizar a dimensão cruel que existe em cada um de nós.

Os sentimentos projetivos (sou reprimido, logo quero oprimir) estão na base dos movimentos de massa que fazem as pessoas se pendurarem em discursos emocionais, autoritários e controladores. Como isso é muito tenso, para não fazer contato com seus próprios grilos, a tendência é que esses sujeitos deleguem a política para os salvadores. 

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O retrocesso como novidade

No Brasil, vamos precisar fazer melhor desta vez. A partir de 29 de outubro de 2018, o tamanho do retrocesso será dado pelo quanto você se interessar pela política. Vamos precisar de você… tio, prima, amigo querido e vizinho desconhecido. Você que resolveu arriscar em nome do combate à corrupção. Que deixou de lado as contradições, os preconceitos e a falta de preparo de alguém que se tornará presidente do país. Você que não deu importância quando ele disse “Petralhada, vai tudo vocês (sic) para ponta da praia”. Talvez você não saiba que ponta da praia era uma expressão usada por militares para o destino de presos políticos que foram mortos sob tortura na base da Marinha na Restinga de Marambaia, no Rio de Janeiro.

Você gritou “Fora PT”, depois “Fora Temer”. Logo você vai querer gritar “Fora Mito”, mas se fizer isso novamente apenas pela emoção, desembocaremos em outro Messias. Decididamente, interessar-se pelo que está acontecendo no país por Whatsapp ou dar vazão à sua frustração na época das eleições, não é uma opção para a tal mudança na política, tampouco para um país justo e desenvolvido.

Valdirene Daufemback é psicóloga, doutora em Direito e coordenadora do Laboratório de Gestão de Políticas Penais da UnB. Foi Ouvidora e Diretora do Departamento Penitenciário Nacional. Acredita na promoção de políticas públicas e numa visão interdisciplinar e comunitária para termos um mundo melhor para todxs.

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