Reformas em nome de Deus
Sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Reformas em nome de Deus

Por Simony dos Anjos

No dia 31 de outubro foi comemorado o aniversário de 501 anos da Reforma Protestante, evento que é largamente estudado nas escolas e, geralmente, nomeada como “Reforma e contra-reforma”. Por si só, esse tema já traz uma violência. Católicos e Protestantes lutando uns contra os outros pela hegemonia ideológica do, até então, Sistema Feudal vigente. Com o apoio de Príncipes, Lutero desempenhou um papel importante para que a igreja católica fosse esvaziada de seu poder político-econômico permitindo que acendesse uma nobreza que daria origem aos Estados-Nações e a novas formas de exploração do povo europeu.

Esse é um lado da reforma que não é muito divulgado e, que hoje, me parece adequado retomar por uma causa: os movimentos religiosos têm , em si, uma motivação política e de poder. Vejamos. Logo após a escritura das 95 teses de Lutero, pregadas na porta da Catedral de Wittenberg, esse mesmo Lutero disse que os rebeldes camponeses deviam ser mortos, e foram – no evento conhecido como A Guerra dos Camponeses, na qual morreram 100 mil camponeses com o aval dos reformistas.

Pois bem, porque eu recupero esse episódio nesse momento tão conturbado da política que vivemos? Apenas para bater de frente com a Igreja Evangélica ou me indispor com meus irmãos de fé? Não! Recupero essa história pois esse evento religião/interesses político-econômicos, tem se repetido escancaradamente, no Brasil atual. Como sabem, sou mestranda e recebi, hoje, pela lista de alunos um manifesto da Frente Parlamentar Evangélica à população brasileira, manifesto o qual é duramente criticado pelos pesquisadores em Educação.

Tal documento versa por uma “escola sem partido” e sem “ideologia”, logo após um dos mais expressivos parlamentares dessa Frente, o ex-senador Magno Malta, ter feito uma oração de abertura para o discurso do Presidente eleito. O meu objetivo aqui é simplesmente chamar à atenção dos Evangélicos ao fato de que proselitismo em rede nacional em Estado Laico é crime, além de ser ideológico. Não estão defendendo uma Escola sem Partido, mas uma escola proselitista do que há de pior nos cristãos: hipocrisia e exploração dos fiéis. As propostas deste documento são um ataque ao povo,  travestidas de preservação da família dos valores cristãos.

Após ler a síntese do manifesto e perceber seus interesses velados, como Evangélica me posiciono veementemente contra esse projeto de Brasil baseado na defesa de moralidades e não de direitos. Vivemos um tempo difícil e tenebroso, um tempo no qual pastores parlamentares divulgaram, no dia 24 de outubro, quatro dias antes da eleição do presidente, o que parece ser o “novo Brasil”, o qual tantos dizem defender. Um Brasil que não é mais do mesmo, como diria Renato Russo, mas uma versão piorada da nossa nação. Um Brasil que vai dar uma guinada ferrenha ao conservadorismo, ataque aos direitos humanos, ao meio ambiente e cujas primeiras vítimas já morreram horas após o anúncio do resultado do pleito.

Destaco, a partir da leitura deste manifesto, que teremos que abrir larga resistência contra os ataques à Educação, pois os Evangélicos estão deixando bem claro que vão aparelhar o ensino brasileiro para fazer das escolas uma “Escola sem partido” e sem Educação. Logo de largada a “revolução na educação”, defendida pelos evangélicos é: pelo “mérito”, ou o que eles considerarem mérito – inclusive elogiam a dificuldade de outrora para acessar o ensino superior, como se a exclusão e o elitismo fossem positivos -; sem “ideologia” (apenas a ideologia deles); e ainda, eles  tem, como política para as Universidade, uma ampla abertura para a privatização destas Instituições Públicas, o desmonte das Agências de Fomento de Pesquisa públicas e o sucateamento da formação superior pública no País.

A verdade, que tanto foi defendida nesse pleito eleitoral, começa a se revelar e não é uma verdade que liberta, é uma verdade que destrói. Se com aval dos reformistas europeus 100 mil morreram, quantos morrerão com o aval da Bancada Evangélica? Quantos não terão acesso aos direitos humanos mais básicos, ao ensino e à dignidade? Deus tenha misericórdia de nós!

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

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