Madame roda e gira!
Terça-feira, 6 de novembro de 2018

Madame roda e gira!

Arte: Caroline Oliveira

Calma, não se faça de Madame, nem me chame de inseto das suas necessidades mundanas. Deixe-me aqui, com minhas orelhas de girafa e fique com o barulho ensurdecedor do meu ponto final

“Vamos acabar com o samba. Madame não gosta que ninguém sambe, vive dizendo que samba é vexame. Pra que discutir com madame?”

A música de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, dos anos 40, imortalizada na voz de João Gilberto está cada dia mais presente nos discursos de ódio, fartamente provocados por vozes mundanas.

“Acabar com o samba” era propor o fim não somente de um estilo musical, mas de uma identidade cultural de origem negra e popular. “Madame” referia-se a uma mulher, crítica de rádio à época (Magdala da Gama de Oliveira), que tinha o ouvido perverso contra o samba. Mas poderia ser também uma metonímia utilizada para representar a elite aristocrática, que desferia ataques ao bel prazer, contra qualquer veia popular.

Ao que tudo indica, essa expressão genuína do sentimento de uma sociedade permanece viva nas batidas que pulsam as novas Madames. Elas procuram o cheiro da carnificina alheia, fazem faxina no porão do vizinho, sem darem-se conta de que se tornaram verdadeiros abutres dessa cadeia.

Logo elas, dotadas de mãos tão limpas pela candura da Deusa das Águas, logo elas que não enxergam ratos na própria piscina, como diria Cazuza.

É, “o tempo não pára, eu vejo o futuro repetir o passado”, eu vejo gente querendo acabar com gente, como se gente não fosse. E todos nós, sem exceção, no infinito desejo de sermos perfeitos, não o somos. Nossa fragilidade é clara como a palma das nossas mãos. Basta apontarmos um dedo para alguém, que outros três apontarão em nossa direção.

Talvez para nos dizer da nossa humanidade. Talvez para nos dizer que somos tudo e nada ao mesmo tempo, humanos e não jumentos, de todas as cores e não da cor de um cimento. Reconhecer nossa pequenez talvez seja o primeiro passo, ouvi de uma senhora no mercado, que conversava com um amigo, delicadamente.

Ele dizia em alto e bom som: “bandido tem que morrer”. Ela aproximou-se dele e falou baixinho: “José, seu filho estava preso até outro dia, de que bandido você está falando?”. Ficamos ali parados, com aquele barulho intragável do silêncio, como resposta eloquente daquele senhor.

Fez-me lembrar do episódio kafkiano, do livro metamorfose, em que o personagem principal Gregor, depois de se transformar da noite para o dia num inseto gigantesco, causa ojeriza e ódio em toda família. O escritor precisou colocar o ser humano na condição de inseto para demonstrar o absurdo de se querer acabar com outro ser humano.

E os tais insetos vão se alternando na sociedade. É que a roda gira, gira a roda, sai o samba e entra o funk, o bandido, o pobre, um partido, o negro, a travesti, a mulher, o pervertido, quem sabe até o homem que correu atrás do próprio latido.

 

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Marshall Rosenberg, um dos líderes mais importantes na busca pela paz mundial, autor da comunicação não violenta, explica que fazer da violência algo agradável é uma das formas mais comuns de educar que prega uma cultura de dominação.

Realmente, se voltarmos no tempo, encontraremos vários exemplos de dominação do homem pelo homem. Um maniqueísmo perverso entre Bom e mau, vilão e mocinho, como se o ser humano não fosse os dois lados da mesma moeda. Joana D`arc (dentre outras) queimada na fogueira como bruxa, os negros escravizados pelos brancos, os judeus executados pelos nazistas e etc.

Vivemos numa sociedade em que aprendemos a ser violentos com os nossos próprios filhos, diz Rosenberg e continua: “Aprendemos a jogar o jogo do quem tem razão, e quem não tem merece sofrer. Conhecem um jeito mais diabólico de educar pessoas?”. É fácil percebermos que o discurso de ódio tem raízes em nós mesmos. A insuportável presença de si faz acabar com o próximo ou com qualquer coisa que seja.

É a limpeza da própria alma em praça pública, mas com o sangue alheio (alusão aos espetáculos sanguinários da inquisição). E “por trás de todo ataque há um sentimento/uma necessidade escondida”, diz ainda o líder da paz, ao contar a estória do primeiro dia de aula do seu filho, que foi duramente ofendido pelo professor, por ter cabelos compridos.

O menino, que aprendera a comunicação não violenta com o pai, disse-lhe que não contra-atacou o professor, pois colocou ouvidos de girafa (brincadeira que ele usava para dizer que escutou o insulto com o coração) e pôde concluir que o professor estava apenas expressando sua dor de não ter cabelos, já que era careca.

Pois bem, a violência não está sendo criada hoje, por uma pessoa, uma mídia, uma opinião, ela é histórica, sistêmica, endêmica, circular, contínua, mas reversível. Como? Com educação, no sentido amplo da palavra. A violência começa dentro do indivíduo, com sintomas psicológicos.

Por isso, a educação pode ser a ferramenta para auxiliar o filho ou aluno a SER uma pessoa com aptidões não somente intelectuais, mas também emocionais. Como? Inserindo na grade curricular das escolas aulas de felicidade, meditação, psicologia, enfim, filosofias de integração aluno-indivíduo. Como fez a Universidade de Brasília (UnB), inspirada em programas similares de universidades estrangeiras, como Harvard e Yale, e a escola Ananda, na Bahia, que inseriu aulas de meditação.

A ponta do iceberg é o comportamento violento, o bullying, a falta de paciência, os sintomas de estresse, depressão e ansiedade. Mas a sua base só pode ser a educação, como única arma possível contra todos os crimes de violentar uma nação.

Caro leitor, você pode estar se perguntando onde eu estou querendo chegar com este discursozinho paz e amor. Parece até que posso ouvir um xingamento! Calma, não se faça de Madame, nem me chame de inseto das suas necessidades mundanas. Deixe-me aqui, com minhas orelhas de girafa e fique com o barulho ensurdecedor do meu ponto final.

 

Lígia Ignácio de Freitas Castro é escritora, formada em Direito pela Faculdade de Direito de Franca-SP. Atuou como advogada e, também, como conciliadora do Juizado Especial Civil de Ribeirão Preto. Pós-graduada em Direito Público pela Universidade Anhanguera. Titular do Cartório de Registro Civil de Igarapava –SP.

 

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