Política: substantivo feminino
Quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Política: substantivo feminino

“Mais uma vez o tecimento do presente foi suspenso. Mas não podemos permitir que nossos dias sejam devorados, porque, no banquete dos perversos, nossas almas é que são comidas. Há que se resistir ao devoramento das almas[1]”.

Esse é um texto que começa com um nó na garganta e desemboca num grito. Não há espaço para silêncio. O desamparo está posto, a tensão que sempre esteve percorrendo em sussurros e piadinhas resolveu andar livremente por aí. Não nos enganemos, quando os corpos, como os femininos, são colocados em questão, mais uma vez, como pilares da moralidade, é porque falhamos como sociedade.

Não é segredo para ninguém que vivemos num Brasil dividido, divisão esta que deixa exposta às entranhas da nossa constituição social e democrática precária, ficando bem evidente que as regras sociais escolhidas na nossa Constituição Federal não foram necessariamente incorporadas por pelo menos metade da população que ainda insiste num autoritarismo infantil como saída para os problemas sociais.


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Nesta linha, não é de se estranhar que as minorias e os lugares ocupados por seus corpos no social sejam ainda, em 2018, os destinos de toda a não elaboração das diferenças e de toda a recusa ao enfrentamento dos fantasmas do povo brasileiro. Ora, uma sociedade que não consegue sequer se a ver com uma ditadura militar recente em sua história, mas que ainda se pretende cordial ao mundo, só poderia mesmo resultar nesse estado de uma espécie de “transe coletivo”que hoje assistimos.

Se ainda em 2018 temos como minorias, o que em número representa hoje, somado, a maior parte da população brasileira, fica difícil negar que continuamos insistindo em deixar que os homens brancos, cis e heterossexuais continuem a pautar as nossas existências e a limitar, com seus autoritarismos, nossas sexualidades e nossos corpos.

Não é à toa que, quando estamos lidando com o retorno da autorização à segregação das minorias e das imposições morais aos corpos, o discurso autoritário que emerge tenha como seu representante a arma de fogo, seja literal, seja simulada com as mãos. Não precisa ser Freud para entender do que se trata. Não é preciso ler nas entrelinhas tampouco, já que o próprio discurso deixa exposto as suas rupturas e a base dos supostos valores tradicionais que se pretende defender acaba por evidenciar a necessidade que a elite brasileira tem, patriarcal e preconceituosa como só ela sabe ser, de manutenção de seus privilégios.

Ficamos perplexas com o fenômeno atual de parte das mulheresbrasileiras ainda insistindo em defender os tais valores tradicionais, que nada dizem sobre elas e que apenas perpetuam a sua exclusão da representação política, seja ela nos próprios cargos eletivos, seja como voz a ser considerada as decisões políticas e sociais. No entanto, não haveria outro lugar para quem sequer conseguiu reconhecer a diferença como algo não diminuidor de seu ser.

O lugar que é dado às mulheres, quando não integradas e submetidas a esse discurso, não é outro que à margem, onde se exige uma permanência em resistência, nem sempre suportável, contra as constantes tentativas (e consumações) de destruição de nossos lugares de fala e de nossos corpos.

É importante que se perceba, como apontado por Eliane Brum em seu texto Mulheres contra a opressão[2], que o novo patamar do machismo, ouso dizerque o machismo que não cessa de se reinventar, com mais violência, a cada passo que damos para desconstruí-lo, é o que toma a mulher hoje, não é apenas como objeto, mas como inimiga. E isso se estende claramente as outras minorias, que ousaram e ousam ocupar os espaços públicos.


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Mais que isso, é imprescindível que consigamos perceber o que está por trás do discurso que nos sustenta como inimigas, desde que discursivamente a Eva comeu a maça e tirou Adão, o homem, do paraíso, desde que somos neste mesmo discurso a parte que se fez da costela do homem, para então cair em tentação e traí-lo. É imprescindível que se perceba que esse discurso serve justamente para sustentar que não se pode confiar na nossa palavra. Ou é mentira que o fato de ser estuprada por 30 homens, ou executada com 04 tiros na cabeça, não impede a narrativa de culpa, de ódio e de destruição da memória que se espalha como pólvora para justificar os atos?

Reparem que a escolha do significante pólvora não foi uma escolha metafórica ao acaso. É daexplosão que dilacera que quero dizer, é disso que tentei dizer sobre a maternidade para a mulher[3], e é também disso que tento dizer da narrativa que destrói a existência dos corpos femininos – ambas são consequências de um mesmo discurso opressor.

Imagina ainda ousar ser presidenta ou candidata a vice-presidente, como vimos com a presidente Dilma e a deputada estadual Manuela D`avila? A resposta é sempre os ataques aos corpos, suas posturas, suas maternidades, apenas porque ousam ocupar os espaços que, convenhamos, não foram criados para elas – para nós.

Voltando à divisão e ao ódio que se espalha em velocidade explosiva desde 2013 no Brasil, não podemos negar que se somos um povo cuja história foi construída a partir da exploração e extermínio dos povos indígenas e negros, inclusive com o estupro das mulheres indígenas e negras, sem com que até hoje tivéssemos a capacidade de reconhecimento e responsabilização por tais fatos, não surpreende que hoje no espelho encontremos o reflexo do povo ainda perdido em sua própria identidade que, como nação, somos.

Tanto é assim que não é a primeira vez na história que parte da população brasileira clama por ordem e autoridade contra as supostas ameaças comunistas e desmoralizantes que pretendem destruir a inexistente família tradicional brasileira, ainda que agora a trama tenha se tornado um pouco mais complexa, já que o pedido da intervenção se deu dentro do jogo democrático.

Escuta-se muito que o fascismo saiu do armário, que com as redes sociais as pessoas passaram a se sentir autorizadas a dizer sobre o que, como escolha civilizatória, não poderia ser dito. Contudo, ainda que o fenômeno da virtualização das relações tenha dado espaço para que os discursos de ódio pudessem circular, ao menos em tese, livremente, a questão me parece ser também sobre o fato de que as chamadas minorias ousaram tentar existir livremente e com isso passaram a contestar e a enfrentar as ofensas, as opressões e as piadas sobre suas existências.

É justamente isso que parece ter explodido na nossa cara, não porque é ruim, muito pelo contrário, mas porque nos obrigou a encarar de frente a realidade de nunca termos de fato lidado com a repulsa às diferenças sobre a qual fomos moldados como nação.

E se somos uma população que não fez o luto necessário de seus mortos, nem consegue respeitar as suas memórias, mas que, ao invés disso, forjou-se coletivamente como imagem de um povo alegre e cordial, aceitando a manutenção disfarçada dos privilégios de poucos e da servidão de muitos, por óbvio que corríamos o risco de o resultado da ocupação dos espaços pelas mulheres, especialmente as mulheres negras, pelos homossexuais e também pelos negros ser o ódio.

Citando mais uma vez Eliane Brum[4], a crise no Brasil é muito mais do que econômica e política, é uma crise de identidade e de palavra, o que fica evidente quando se vê que o que tem vencido os não debates no país é a precariedade simbólica, e é justamentenessa precariedade, pela via do ódio à diferença, que a opressão se sobrepõe às nossas subjetividades.

Como vamos começar a construir o caminho da superação da crise é incerto, o tempo da pós-verdade e da “autoverdade”[5]não deixou claro ainda o seu limite, mas fato é que a resistência das mulheres, com seus corpos nas ruas e suas vozes em coro, conseguiu uma vez mais perfurar a narrativa discursiva patriarcal do opressor. Pode não parecer evidente agora, mas um movimento desejante desperto é a única força capaz de emancipar os sujeitos de suas amarras.

“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer” – Conceição Evaristo

Ana Carolina Bartolamei Ramos é Juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná e Membra da Associação Juízes para a Democracia. Escreve na coluna Sororidade em Pauta.

 

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[1]Eliane Brum, https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/08/opinion/1539019640_653931.html

[2]Eliane Brum, https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/24/opinion/1537805079_256045.html

[3]http://www.justificando.com/2018/06/20/a-maternidade-dilacera/

[4]Eliane Brum, https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/08/opinion/1539019640_653931.html

[5]Eliane Brum, https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/08/opinion/1539019640_653931.html

Quarta-feira, 7 de novembro de 2018
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