A culpa é de quem?
Sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A culpa é de quem?

As eleições já passaram, mas, ao que parece, o assunto ainda vai perdurar um bom tempo dentro do campo progressista brasileiro. Justiça seja feita, dentro de uma parcela desse campo apenas. Aquela parcela que parece mais preocupada com um 2022 que ninguém sabe se existirá do que com o dia de hoje. E é por se ater a esse clima ainda eleitoreiro que essa parte da esquerda brasileira tem mantido um inútil e “apequenador” jogo de empurra-empurra com uma suposta culpa pelo que acaba de acontecer no país.

E cada farpa trocada entre lideranças partidárias envolvidas nesse jogo tem servido como combustível pra rodar a máquina de debates eternamente inúteis entre seus apoiadores pelas redes sociais. Um debate que não tem servido pra construir absolutamente nada, nem mesmo as tão famosas “autocríticas”, palavra que, de tão repetida, desconfio que já tenha perdido seu sentido.

Mas já que o jogo jogado tem sido o da culpa, então falemos dessa tal culpa.


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A começar pelo PT, o eterno culpado da política brasileira. Aliás, já estava acostumado a ouvir o mantra do “é culpa do PT” do lado de lá, mas tem sido uma surpresa ver que do lado de cá também vem virando hábito. Mas bem que o PT merece algumas pedras. Discordo, porém, das pedras que estão sendo atiradas. Eu atiraria outras.

Isso porque os grandes erros do PT não foram exatamente eleitorais. Considero totalmente plausível que o partido tenha insistido na candidatura de Lula, uma das maiores lideranças da história da esquerda brasileira que, em um processo completamente fraudulento, foi retirado ilegalmente da disputa. A retirada arbitrária de um candidato que, ao que tudo indica, venceria ainda em primeiro turno escancarou a ruptura democrática brasileira para toda a comunidade internacional

Além disso, a bandeira “Lula Livre” é legítima e necessária, até porque seria ingenuidade acreditarmos que, num contexto de golpe como o que vivemos desde 2016, as arbitrariedades que trancafiaram Lula não estejam sedentas para continuar seu trabalho enclausurando toda a esquerda brasileira.

Tampouco diria que há culpa em sua substituição por Haddad, embora possamos, sim, reclamar na demora dessa troca. Há quem diga, principalmente lá pelos lados de Sobral, que a insistência do PT em uma candidatura própria seria arrogância. E se tem uma coisa que tem irritado no PT, certamente, é a arrogância. Mas não nesse caso.

É absolutamente normal que um partido queira lançar candidatura própria em uma eleição, assim como é normal (diria que é até um dever) que um partido lute pra implantar o projeto em que ele acredita em seu país. Sobretudo em se tratando de um partido que, apesar dos pesares, ainda possui as maiores expressividade e militância do país.

Pra outros partidos então, vale dizer, lançar candidatura própria em certos momentos é até necessário. É de se pensar, por exemplo, se o PCdoB não está arrependido de ter retirado a candidatura de Manuela, perdendo destaque na eleição e não conseguindo atingir os votos necessários no Legislativo pra superar a cláusula de barreira. Também é de se pensar se o PSOL conseguiria um resultado tão expressivo no Legislativo, superando a mesma cláusula e aumentando sua bancada federal, sem a grande e impactante presença de Boulos nos debates.

Mas voltemos ao PT e a sua culpa. Bem, na verdade, não falo aqui de culpa, mas de erros que, a essa altura do campeonato, já são notórios pra quem, mesmo no campo das esquerdas, sempre se colocou como crítico aos Governos petistas. Foi nítido o tom conciliador do período petista no Brasil, assim como também sempre foi nítido que esse modo de governar tinha sérios limites e que uma hora a conta ia chegar. Principalmente depois que a Crise de 2008 chacoalhou toda a conjuntura política mundial.


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A impressão que fica é que o PT perdeu o bonde da história passando. Enquanto a Crise de 2008 foi jogando a esquerda mundial, acertadamente, cada vez mais pra esquerda, o PT preferiu continuar com Eunícios, Calheiros e Sarneys e ir se afastando de movimentos sociais, numa espécie de fobia das ruas que desenvolveu por se recusar a entender 2013. E, assim, o PT preferiu, erroneamente, começar a acreditar mais na força de recursos infindáveis em processos viciados de instituições que queriam derrotá-lo do que na própria força da mobilização popular.

Em resumo, até porque o tema sozinho dá pra ser abordado em um artigo inteiro, esse é o grande erro que eu apontaria no PT, até mais grave do que uma suposta “culpa” nas eleições. Algo bem distante do que aqueles que repetem a palavra “autocrítica”, geralmente a grande mídia ou partidários de outras siglas, gostariam de ouvir. Algo bem diferente de uma confissão de “culpa eleitoral” que serviria apenas para alavancar o projeto de terceiros a um pleito de 2022 que nem sabemos se existirá.

Mas se a culpa eleitoral pela vitória de Bolsonaro não é do PT, então de quem seria? Da segunda força de esquerda nessas eleições, o PDT?

Bem, certamente a postura de Ciro Gomes no segundo turno foi, pra dizer o mínimo, criticável. Não é à toa que há um punhado de seus eleitores demonstrando certo arrependimento. Mais deplorável ainda foi a postura de vários de seus correligionários. O que dizer, por exemplo, dos três candidatos ao Governo pelo PDT no Mato Grosso do Sul, no Rio Grande do Norte e no Amazonas, que passaram o segundo turno inteiro utilizando a verba, o tempo de TV e a estrutura partidária do PDT pra pedir votos em Bolsonaro. O mesmo aconteceu com outros quadros do partido em outros estados. No que isso os difere do método petista que tanto criticam?

Certamente, a postura do PDT não o credencia em nada para que ele possa continuar apontando o dedo publicamente para o PT pedindo uma “autocrítica”. Está faltando ao PDT, com toda a certeza, olhar-se um pouco mais no espelho para corrigir as suas falhas, como a de aceitar apoiadores do fascismo dentro da própria sigla, o que não vem de hoje, ou a nítida falta de trabalho de base no partido nos últimos anos.

Ainda assim, tampouco no PDT há culpa pelo que aconteceu nas eleições. Difícil crer que o apoio mais enérgico de Ciro poderia alterar o resultado final e mesmo os quadros do PDT que apoiaram Bolsonaro não representaram peso suficiente para serem decisivos. Muito menos se pode acusar Ciro de ter sido o responsável por não ter se formado uma frente única de esquerda no país. Assim como respeito a decisão do PT em lançar candidatura própria, não poderia pensar diferente do PDT.

Além disso, a própria ideia de candidatura única não é lá muito necessária numa eleição de dois turnos como a nossa. Afinal, como sempre foi dito e esperado, a esquerda garantiu seu representante no 2º turno das eleições, onde a frente única faz real sentido.

Importante, também, ressaltar que, mesmo que várias atitudes do partido não venham fazendo jus ao legado “brizolista” que o PDT deveria carregar, é fato que a campanha de Ciro despertou, em certos setores da sociedade, sobretudo numa parte da classe média jovem universitária, um embrião de uma nova onda de “trabalhismo”, que pode ser muito bem-vinda nesses tempos que vem por aí.

Porém, é preciso dizer que a narrativa que o PDT vem querendo emplacar de que a retirada da candidatura petista abriria espaço pra uma vitória certa de Ciro não faz o menor sentido. Pesquisas eleitorais não registram o futuro, mas o momento presente. E, em nenhum dos momentos em que elas foram realizadas, Ciro tinha destaque o suficiente para ser alvo das campanhas difamatórias e ilegais como foi Haddad.

A verdade é que Ciro nunca foi alvo da guerra suja e silenciosa que se travou nas redes e, tão logo virasse alvo, as pesquisas registrariam números bem diferentes. Estamos falando de uma eleição tão suja que o discurso “antipetista” conseguiu colar a “pecha” de socialista até mesmo em Márcio França, ex-Vice do tucano Alckmin cuja Vice era uma Coronel. Não seria mais difícil colar uma campanha como essa em Ciro e no PDT, que sempre compuseram os Governos petistas.

Aliás, vai aí mais uma pra “autocrítica” do PDT: o partido parece ter se esquecido de que compôs o Governo do PT até 2015, quando seu último Ministro resolveu deixar o barco. A oposição de esquerda ao PT já existia bem antes disso, mas o PDT escolheu o governismo.

Mas se a culpa pelo resultado das eleições não é dos dois principais partidos do campo das esquerdas que concorreram, de quem seria? Dos partidos menores?

Por certo, esses partidos também tiveram seus erros. Como já dito, é provável que o PCdoB esteja arrependido, por motivos próprios, de retirar a candidatura de Manuela. Mas, pra além disso, será que uma candidatura progressista e feminista no debate não poderia ter feito uma diferença maior nos resultados? E o PCdoB, com todo seu histórico, não poderia ter dado um apoio um pouco mais crítico ao PT nos últimos anos?

Teria também o PSB erradoao permitir que o partido se comportasse como um camaleão pelo país, escondido atrás de neutralidades, atirando pros dois lados? Não estaria na hora de cobrar uma maior coerência nacional dentro do seu próprio partido?

Certamente, tais escolhas podem ser consideradas erros, mas, novamente, difícil falar em culpa desses partidos pelo resultado eleitoral em si.

Então, pra encerrar a visão partidária, teria a culpa ficado no PSOL? O único partido com um pouco de destaque na mídia que trazia uma proposta sem medo de se dizer socialista, justamente o caminho que as esquerdas que conseguiram avançar no mundo têm adotado, não conseguiu ter forças suficientes para superar o tal do “voto útil” na eleição presidencial.

Com certeza, apesar do bom crescimento que teve neste ano, é hora do PSOL se perguntar se, a essa altura, o partido não deveria já ter acumulado forças suficientes pra poder, ele mesmo, ser considerado o “voto útil” da parte progressista da população.

Mas ainda é muito pouco pra dizer que achamos um culpado. Sobretudo quando falamos de um partido que construiu sua campanha lado a lado com movimentos sociais. Há muitos erros a serem corrigidos pra que o PSOL seja a alternativa que se espera dele, sem dúvidas, mas nenhum o coloca como um “culpado” nessas eleições.

Percebe-se, assim, uma sucessão de erros que podem ter contribuído pra formar o cenário em que essas eleições ocorreram e elegeram uma força nitidamente fascista para ocupar a Presidência do país. E não há um só culpado por tudo isso na esquerda partidária? Estaria a culpa, portanto, toda do outro lado?

É verdade que foi a direita política quem não aceitou o resultado das urnas em 2014 e, desde então, nos jogou em um eterno “estado de golpe”. Partidos, instituições (sobretudo da Justiça), grande mídia e elites se uniram num grande conluio que culminou com uma forte ruptura democrática em 2016. Terreno fértil pro crescimento do fascismo, que foi cultivado com carinho por todos esses grupos citados.

Prenderam o candidato favorito e fizeram vistas grossas para crimes eleitorais. Mas a direita tampouco tem culpa. Pra usar os jargões do direito, ela não tem culpa, pois agiu com dolo, com intenção de causar o que causou.

Dito tudo isso, a culpa, então, não sobrará para ninguém?

Me perdoem os que chegaram até aqui neste artigo esperando um veredito, mas não haverá. Prefiro deixar a sentença final de culpa para os futuros livros de história. Enquanto se vive o momento histórico, o melhor a se fazer é falar em correção de erros e construção.

O “jogo da culpa” só serve a cúpulas partidárias que ainda não compreenderam o momento histórico que o país vive. Brigam pela hegemonia de uma oposição democrática enquanto a própria democracia agoniza e os direitos mais básicos do povo sofrem a ameaça de serem extintos.

É tempo de construção, de se organizar. Organizar-se em partidos, sim, mas também em movimentos sociais, escolas, universidades, igrejas, bairros e locais de trabalho. Uma Frente Ampla é, como o próprio nome diz, ampla, e os partidos são apenas um pedaço de toda uma resistência democrática que não deve se sujeitar a hegemonias.

Há um governo próximo sem o menor apego democrático cuja principal força mobilizadora é o discurso de ódio. Organizem-se e deixem que a história se ocupe dos julgamentos que virão.

Almir Felitte é graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

 

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