À Dona Isis e Paulo Freire 
Segunda-feira, 12 de novembro de 2018

À Dona Isis e Paulo Freire 

Imagem: Paulo Freire.

 

À dona Ísis

Eu sempre pensei (e continuo pensando) que não se separa aquilo o que você é da aula que você ministra, de maneira que eu levei muitos anos para me interessar de fato pelas bibliografias de pedagogia. Na verdade, quase toda a minha licenciatura foi feita junto com o mestrado, logo após o bacharelado em Filosofia e, mesmo assim, durante muito tempo houve de minha parte uma resistência às exposições dos professores pedagogos sobre metodologias de ensino e didáticas de sala de aula. Sempre achei que se eu me engrandecesse intelectualmente na matéria na qual eu sou mestre e doutoranda, minhas aulas seriam melhores. 

Digo isso porque levei muitos anos para de fato abrir e me debruçar sobre uma obra do Paulo Freire e outros pensadores da educação. Quando os meus colegas de profissão afirmavam que eu aplicava o método freiriano em minhas aulas, eu demorava a entender o que de fato eles queriam dizer. Nestes sete anos de trabalho como professora da educação básica da escola pública estadual, eu desenvolvi vários projetos (alguns bons, outros ruins) em que inconscientemente eu tentava aplicar aquilo que em mim estava latente, mas que racionalmente eu não sabia dizer de onde vinha.

Nas últimas semanas, perscrutando em silêncio de onde vinha esse afã, minhas memórias profundas (ímpares e singulares)  me levaram até a dona Ísis, e é a ela a quem eu dedico esse trabalho: a organização e a edição do livro Versos Livres. 

Dona Ísis é (ou foi, não sei, pois há anos eu não a vejo) a diretora da Escola Estadual Profº Carlos José Ribeiro, localizada em Atibaia-SP, cidade onde eu cresci e passei grande parte da minha vida. Eu estudei no Carlos José Ribeiro da 1º série do fundamental I até a 8º série do fundamental II (hoje chamado de 9º ano).  Nesta escola, sob a regência de Dona Ísis Gonçalves, eu fiz aulas de dança, aulas de canto (inclusive, dona Ísis tinha um coral de alunos), eu fui ao teatro pela primeira vez na vida (assistir a peça Sonhos de uma noite de Verão, de Shakespeare, no TUCA), eu entrei numa Universidade pela primeira vez na vida (na sétima série conhecemos o laboratório de anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade São Francisco e também o laboratório de Biomedicina, da mesma instituição) eu participei de uma feira de ciências com órgãos reais (emprestamos três pulmões do laboratório de anatomia, com cheiro de formol e tudo e os expomos no pátio), eu editei meu primeiro jornal (ironicamente, anos mais tarde eu acabaria fazendo faculdade de jornalismo) eu fui ao Playcenter, ao Parque da Mônica, ao Masp e à Pinacoteca, tudo pela primeira vez na vida. Tantas coisas boas, tantas lembranças, dona Isis. Todas elas, vivas em mim. 

Esses exemplos mostram que Dona Isis, como pedagoga, adorava que os professores ensinassem também fora da sala de aula. Mas tem algo, na minha concepção espetacular, que ela fez e que reverbera em mim até hoje. 

Dona Ísis construiu duas, DUAS, salas de aula enquanto eu concluía o meu ensino fundamental. Como ela fez isso? Ela colocou todos os alunos e alunas (e suas mães e pais) para construir também, metaforicamente e concretamente falando. Foram muitas gincanas, muitas prendas recolhidas no bairro para as festas juninas e não-juninas que organizamos na escola, o dinheiro da APM e sua a prestação de contas transparente e democrática. Tantas coisas Dona Ísis, tantas coisas boas. 

Quando as obras começaram alguém reclamou? Nunca. Éramos nós, cada um a sua maneira, os construtores daquelas salas. Todos ansiosos em vê-las prontas. Era a dona Ísis ensinando o que é esforço e trabalho em conjunto, era a dona Ísis ensinando através da criação, da emoção, da geração de algo novo e inédito, do construtivismo (literalmente falando). 

Hoje, mais de 20 anos depois de eu ter saído dessa escola, quando eu visito Atibaia e faço questão de passar bem devagarzinho em frente a ela só para contemplar as árvores (algumas inclusive eu ajudei a plantar e ainda estão lá firmes e fortes), o prédio (que está maior). Paro e contemplo o perfil das duas salas de aula que um dia eu vi, ouvi e ajudei a construir. Imediatamente vejo naquele todo uma parte (pequena, mas tão grande) de mim.  Olho para o pátio e de imediato eu vejo uma senhora baixinha, os cabelos curtos, os olhos brilhantes e meigos, pedindo calmamente para formarmos a fila indiana. Fila indiana sabe para o quê? Para cantarmos. Dona Ísis sobe num pequeno e singelo palco de madeira colocado no centro do pátio (só a história desse palco dá um livro) e é nele que ela rege os alunos que cantam antes de subir para a sala de aula depois do recreio. É nele que, depois das aulas, quase à noite, ela dá aula de canto e ensaia o coral da escola. É nele que, no dia das apresentações, os alunos se atarraxam para cantar para o público (também de alunos). Contemplo a escola e não vejo grades (penso em Foucault e sua teoria sobre o adestramento dos corpos ou até mesmo Vigiar e Punir…), não vejo pichações, não vejo sujeira. O palco já não está mais no pátio. Palco que fez muitos alunos sentirem artistas, grandiosos, importantes, sonhadores. 

Quando a proposta de editar um livro dos meus alunos do ensino médio surgiu em abril desse ano, eu não sabia que eram os ensinamentos de dona Ísis (todos eles através da ação) que ecoavam em mim. Era a semente transformadora plantada no final dos anos 80 que desabrochava na minha prática docente. Não era só a teoria que dizia que a escola não deve meramente reproduzir as desigualdades sociais, mas também emancipar os seus alunos, tornando-os sujeitos, autônomos, criadores de si mesmos, mas também a práxis escolar que mostrava aos meus alunos que se transformando em escritores, eles também se tornariam leitores, pois um e outro estão intrinsecamente ligados.

Assim nasceu Versos Livres, obra tecida em conjunto por mim e pelos alunos do primeiro, segundo e terceiro ano do ensino médio da escola estadual Visconde de Itaúna, localizada no bairro do Ipiranga, na capital paulista. De início, o projeto era bastante despretensioso, mas como bola de neve, foi crescendo, amadurecendo e tomando forma com o tempo.

Olhar-se de dentro para perceber o que está fora, dilatar os sentidos, fornecendo a nossa percepção àquela admiração e espanto genuínos que um dia tivemos na infância, mas que enrijeceram com as demandas instrumentais e utilitárias da vida cotidiana.  Neste sentido, Versos Livres, obra que nasceu de um projeto escolar de juntar Filosofia e Poesia, se propõe a resgatar pelo prisma e a pela pele de jovens estudantes do ensino médio a elasticidade das palavras, o descobrimento de novos signos e significados, a dilatação dos sentimentos, dos ritmos e das cores e a exploração de novas texturas e tessituras.  Decepção amorosa, ausência do pai, suicídio, depressão, luto pela morte da avó, autoestima, empoderamento, angústias e inseguranças da adolescência: são alguns dos temas distendidos pelos poemas que compõem Versos Livres.

Eu saí da EE Carlos José Ribeiro em 1995. Em 2009, eu dei uma passada rápida na escola e encontrei dona Ísis, com os mesmos olhos vivos e brilhantes (olhos que falam aquilo que as palavras não conseguem expressar), com a mesma voz calma e serena (nos nove anos em que eu fiquei naquela escola, nunca a vi levantar a voz). Para minha surpresa, ela ainda lembrava o meu nome e o das minhas irmãs (que também estudaram na mesma escola).

Obrigada, dona Ísis. Obrigada por através da arte (música, teatro, dança, literatura) me ensinar tanto. Obrigada por deixar uma parte de você tão viva em mim. 

Versos Livres é dedicado a você e todos os seus anos devotados ao magistério. Versos Livres é dedicado a todos aqueles alunos que passaram e passarão pela escola pública e que saem e sairão dela transformados.

 

Luanda Julião é Doutoranda em Filosofia Francesa Contemporânea pela Universidade Federal de São Carlos. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Professora de História e Filosofia na Escola Estadual Visconde de Itaúna.

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