Seria 2018 uma celebração dos 50 anos do AI-5?
Segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Seria 2018 uma celebração dos 50 anos do AI-5?

O famigerado Ato Institucional Número 5, mais conhecido como AI-5, foi o instrumento da ditadura para recrudescer sua violência contra os brasileiros. Suspendou seus direitos, fechou o congresso, deu poderes supremos ao presidente e legalizou a ruína dos habitantes do país. Ora pela prisão e tortura, ora pela submissão econômica das pessoas que não tinham nem o direito de protestar. Tudo aos que tudo tem, nada aos que nada tem na ordem da família, de deus e da liberdade que foi implantada com o golpe de 1964.

Assistimos, em 2016, um governo tomar o estado brasileiro e realizar impopulares políticas ao mesmo tempo em que instituía corruptos nos altos cargos da administração pública. Ninguém votou nesse plano – até votaram, mas o antigo salvador agora está em Minas Gerais fugindo das notícias e provavelmente com seus amigos traficantes. Em 2018, o novo salvador mais cotado para vencer a eleição presidencial diz, claramente, que o estado existe para servir o setor privado. O emulador também afirma família, deus e liberdade.


Leia também 

Como é o plano de governo de Bolsonaro?

Como é o plano de governo de Bolsonaro?


O ditador – para não usar o eufemismo do termo presidente – que promulgou o AI-5 era um homem do século XIX. Artur da Costa e Silva, militar nascido em 1899. Costa e Silva e os outros terroristas do governo organizaram e dirigiram um estado de terror. Esse estado usava os seus recursos para treinar criminosos como o homicida Fleury e desenvolver organizações da morte como a Operação Bandeirantes e a Operação Condor.

Ao invés de serem punidos, esses homens receberam paz e tranquilidade por seus serviços de assassinatos e estupros. Um deles, Brilhante Ustra, foi homenageado e aplaudido na câmara dos deputados brasileiros em 2016 enquanto o golpe era televisionado com as graças da mídia do eterno status quo. Hoje, 2018, um candidato a presidente já ameaçou estuprar uma deputada, diz que é necessário que a polícia mate mais, despreza até nossa tímida democracia, já louvou criminosos em diversos momentos e perversamente os heroiciza junto de seus seguidores. Os adoradores do candidato perseguem e agridem quem não se alinha as suas ideias e o filho do adorado já foi fotografada usando a camisa do torturador Ustra, exibindo o criminoso como herói. O pensamento dos homens nascidos no final do século XIX e que trabalharam duro por esse Brasil autoritário vive tranquilamente em nossa sociedade.

Os militares brasileiros nunca se arrependeram da sua “Revolução” e 50 anos depois do AI-5 o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, saúda essa falsificação do passado chamando o acontecimento de “Movimento de 1964” e nomeia um militar para assessorar o STF. A história é assunto sério. Eles sabem disso. Nossa educação escolar, nossa mídia e nossa ignorância sobre a história de nosso país contribui para que narrativas distorcidas, mentirosas, com viéses ideológicos perversos e que justificam a humilhação diária sejam compartilhadas, normalizadas e admiradas.

Existe um projeto onde o passado não pode ser encarado de forma crítica. A narrativa que domina nossa história é de que tudo sempre foi pacífico. Fora universidades, ONGs e interessados com mentes mais curiosas e críticas, os problemas legados pelo nosso passado seguem no tempo hodierno sem serem encarados. Para piorar, quando não são ignorados, são enaltecidos.

Tempos atrás as chamas consumiram um museu e destruíram o pouco que existia de instituição histórica nesse país. Junto do absurdo desinvestimento em pesquisa, o país está no rumo certo da proliferação da ignorância e da dependência intelectual. Aqueles educados por um projeto escolar antieducacional, de desinformação, de opressão mental e de conformismo, puderam assistir e se entreter com o fogo que destruiu o passado, presente e futuro. Queimar, queimou. Assim um arigó mental pensa o nosso passado enquanto sonha em dirigir o país a um fracasso florido. Florido porque sua pirotecnia verbal faz o fundo do poço parecer colorido.

O incêndio do Museu Nacional do Brasil é mais um daqueles problemas que não é reconhecido como problema. É só algo que aconteceu. Nunca foi um problema a contínua destruição da natureza brasileira, o contínuo genocídio de indígenas, os mais variados tipos de violências cometidos contra populações escravizadas e a subalternização de todo o ser humano que não seja homem, branco e heterossexual. O arigó mental, nos trópicos, vive sob os holofotes e com aplausos dos que compartilham sua miséria mental que justifica essa situação. Vivem a encarar palavras e gestos em vídeos de celular e de olhos fechados ao mundo real. O problema parece ser quando te atiram dados e fatos na cara (eles parecem doer).

As casernas que deveriam ser o lugar dos militares parecem ser pequenas demais para eles. O governo não consegue – e parece que nunca quis – ter controle sobre os altos hierarcas que aproveitam para atuar constantemente sobre a política. Como nos tempos do AI-5 os militares fazem declarações avessas a ordem democrática. Vale a lei do forte, não a da democracia. A ordem é a do berro. A hierarquia é simples: os de cima mandam e os de baixo obedecem. A democracia, com suas possibilidades de horizontalização das decisões, deve ser evitada. Enquanto isso, e mesmo que usem outras palavras, persiste o pensamento de que é muito bom não poder ter nenhum tipo de controle sobre as instituições que gerem a vida.

Como bons obedientes, não dos interesses soberanos da nação que dizem proteger, mas como cães das ideias e dos dogmas do norte, os altos hierarcas ficam felizes em entender a presença de uma força estrangeira em solo brasileiro como algo bom para o país, seja pelo seu valoroso dinheiro, suas famintas empresas ou por seus (nossos) traidores agentes. Fica a impressão de que os militares parecem trabalhar para a manutenção do país como periferia. Afinal, até na constituição eles colocaram essa garantia, dando-se o direito de intervir pelo o que eles chamam o bem do país.

Ao racismo estrutural a resposta é: o Brasil tem maiores problemas. Aos indígenas massacrados a quinhentos anos a resposta é: fazer a economia crescer. A todos os vulneráveis do Brasil, a todos diariamente violentados por problemas que “não importam” só se ouve que a resposta é a economia. Todos os marginalizados de uma vida de dignidade econômica ouviram cinco décadas atrás que era necessário fazer o bolo crescer. Em 2018 se ouve que o Brasil precisa entrar nos trilhos. Afirmar que o economicismo não é o único caminho da vida, segundo seus arautos, é um pecado até no mundo daqueles que não tem dinheiro.


Leia também

Como é a guerra às drogas do ‘Bolsonaro’ das Filipinas, Rodrigo Duterte

Como é a guerra às drogas do ‘Bolsonaro’ das Filipinas, Rodrigo Duterte


Problemas de natureza social são ignorados e quando lembrados, são adendos de agendas econômicas. Aos seus problemas? Danem-se. A economia precisa crescer. Números enchem bocas e discursos, enfeitam papéis e notícias de jornal, mas nunca enchem o seu bolso. Alguém deve estar ganhando como alguém ganhou 50 anos atrás. Dificilmente você que está lendo esse artigo é um dos ganhadores, mas pode ser um dos sobreviventes ou um daqueles de vida tranquila.

Aos não-brancos do Brasil tudo que se pode desejar é sorte quando se depararem com um sistema judiciário, policial, executivo, legislativo, cultural e econômico criados, mantidos, organizados e comandados por brancos. Se não houver sorte, ao menos pode-se esperar sorte com uma pena branda em presídios de destruição de seres humanos. Ainda é necessário dizer que, caso o próximo presidente eleito seja aquele que foi criado nas escolas militares da ditadura, vão continuar as operações de criminalização da pobreza, de assassinato e genocídio, e então, que pelo menos as balas não te encontram.

O Brasil flerta com o passado, paquera os modos de antigamente, romantiza ou esquece os terrores e abranda as desigualdades numa falsificação histórica que coaduna com o projeto de país dos donos do poder. E hoje – não falo em repetição, não há repetição na história – há um não reconhecimento da história brasileira para que padrões, comportamentos e privilégios possam continuar a existir. A história não é a salvadora da pátria, isso não existe, mas quando nem um dado tão básico da vida humana não é levado em conta, nós pagamos o preço. Se vive a estar ser esmagado pela história, mas ao mesmo tempo ela é invisível para os que sentem o seu peso. Enquanto isso o arigó mental continua a pensar que o português nunca pisou na África.

Não são oficiais as celebrações dos 50 anos do AI-5, mas parecem ter sido bem organizadas por décadas de descaso com tudo aquilo que não é a maximização dos lucros de uma minoria de malandros de vida fácil.

Bruno Oliveira é formado em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e é mestre em história pela Universidade de Lisboa com ênfase em história de África, história do Quênia e literatura africana. 

Leia mais:

O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Segunda-feira, 12 de novembro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend