Visão logística desconsidera emocional de imigrantes venezuelanos no Brasil
Segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Visão logística desconsidera emocional de imigrantes venezuelanos no Brasil

Fugindo da crise, eles trazem na mala ansiedade e desamparo; resposta militarizada não dá apoio humano necessário para virar a situação.

Por Giovanna Galvani 

Na ação articulada para o recebimento dos venezuelanos que entram no Brasil, utilizar apenas das estratégias militares, sem considerar o efeito psicológico sofrido continuadamente pelos refugiados, gera dúvidas sobre qual será a vida possível deste lado da fronteira. A acolhida humanitária, prevista na Lei de Migração, acaba ficando de lado em relação à logística – necessária, mas pura matemática. O apoio emocional devia ser foco de ação humanitária para quem é forçado a sair do próprio país. Na teoria e na prática, ainda não é.

É impossível dizer que há omissão total do Estado brasileiro em relação à crise migratória venezuelana, e os acertos não devem ser esquecidos. Medidas de interiorização de migrantes para outras regiões do país, por exemplo, já levaram mais de 3 mil venezuelanos Brasil adentro, segundo dados recentes da Casa Civil. Essa foi uma das estratégias adotadas pela Operação Acolhida, deflagrada pelo Governo Federal em março de 2018.

Ela também é a responsável pela implantação ou aprimoramento dos 12 abrigos localizados em Roraima, conforme números verificados até setembro. Mesmo assim, segundo Camila Asano, mestre em Ciências Políticas e assessora da Conectas Direitos Humanos, a atuação meramente militar não funciona para direitos de recuperação emocional e financeira dos venezuelanos. Expulsos da própria realidade, migrantes e refugiados encontram boas estruturas burocráticas de identificação e documentação, mas não conseguem avançar além para obterem direitos assegurados a eles por lei.

É a Lei de Migração, sancionada em 2017, que assegura que quem chega ao país possui os mesmos direitos de cidadãos brasileiros – com exceção ao voto. Na questão da saúde, o “bem-estar mental” e a “integridade psíquica” fazem parte desse escopo, conforme definido pela Constituição quando se trata de direito à saúde mental. No dia a dia, são as organizações da sociedade civil que tentam oferecer perspectivas à população mais fragilizada.

É com esse objetivo que o projeto social Casa de Los Niños trabalha com crianças indígenas venezuelanas, que, além de sofrerem forte impacto cultural por estarem em outro país, precisam lidar com as novidades de um universo urbano bem diferente das comunidades em que antes viviam. A coordenadora do projeto, Jaqueline Rocha, diz que a ideia das ações promovidas é de “trabalhar juntamente com eles para que não esqueçam quem são”. Para ela, o foco específico na logística pode criar uma lógica errada de “tutela”, que prevê apenas a sobrevivência como suficiente. “O ser humano precisa ter perspectiva, esperança e objetivos”, afirma, “e temos visto que as ações que potencializam questões sociais e humanas têm sido fundamentais para a interpretação do momento que elas estão passando”.

A segurança de que é possível se reerguer tem grande impacto sobre os jovens e adultos venezuelanos, especialmente quando se trata do mercado de trabalho. Para Ana Mendes, coordenadora do Núcleo de Trabalho e Renda do Instituto de Reintegração do Refugiado, o ADUS, a saúde mental desse público é de extrema relevância: “ É através do trabalho que eles conseguem reconstruir a vida.

Desempregados, eles ficam ansiosos, frustrados e preocupados com o futuro”. Se ações governamentais específicas já seriam importantes para este recomeço, elas se fazem essenciais no combate ao trabalho escravo e a situações exploratórias, nas quais empregadores tiram proveito do desespero e da falta de informação dos refugiados em relação às leis trabalhistas brasileiras. De acordo com Mendes, esses percalços impedem que os refugiados tenham acesso a decência e dignidade em suas vidas. Afinal, como todos os humanos, os refugiados têm problemas pessoais e familiares que somam ao cenário e status que eles possuem no país. “Enfrentar essas condições precárias maltrata ainda mais o íntimo de cada um deles”, afirma a coordenadora.

Por mais que se sintam sozinhos dentro do novo país, os migrantes definitivamente não são os únicos dentro do contexto global. Desde a Segunda Guerra Mundial que o mundo não encara uma crise migratória tão grande: são mais de 68,5 milhões de pessoas deslocadas, segundo a pesquisa Global Trends 2017, entre as quais 85% delas estão em países em desenvolvimento. Para Camila Asano, não há justificativa de “crise econômica” que autorize qualquer país, inclusive o Brasil, a se abster desse momento histórico: “Essas pessoas foram forçadas a sair de suas casas, e não podemos nos furtar desse compromisso”.

Casa e comida são elementos que cercam pessoas todos os dias, seja pela presença ou pela falta. Mente, porém, quem afirma que esses dois são suficientes para a construção de uma vida efetiva. Ter direito a um futuro vai além de fronteiras. Para as crianças indígenas venezuelanas, “falta a ideia de estar no próprio mundo“, diz Jaqueline Rocha. É, além do dever moral, constitucional deixar que eles o encontrem – e se encontrem – por aqui.

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