A reconfiguração do possível
Quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A reconfiguração do possível

Imagem: Antígona, quadro de Frederic Leighton, 1882. Edição de Daniel Caseiro.

Por Tiago Braz 

 

A esperança na humanidade acabou esfriando nos últimos tempos e a expectativa de que seria possível a cada um desfrutar o nível máximo de direitos, respeito e realizações esbarra no medo de tentar.

Esse fenômeno acaba ocorrendo (Safatle, 2016) graças a uma limitação da visão do futuro por meio de uma reprodução constante das mesmas coisas (violência, decadência e etc.) deslegitimando e “radicalizando a condição do possível, visto que aquele que controla o futuro, controla o passado e o presente” (Safatle, 2016). É como se o mundo tivesse chegado ao limite do horizonte, e uma sociedade justa, fraterna e solidária não fosse possível pela própria natureza do homem.

Sob essa visão de desesperança a ideia de voltar a uma sociedade fechada e autoritária acaba ganhando forças na medida em que passa a povoar o imaginário social de que não é possível reconfigurar as atuais condições de experiência respeitando os direitos humanos, justiça social e a igualdade.

É uma perspectiva de que nada vai dar certo, de que a experiência humana falhou e precisa de uma mão forte para traze-la novamente ao eixo, mesmo que pelo autoritarismo. Essa melancolia, como afirma Safatle é “o eixo psicológico da servidão, isso é a base da ideia de servidão, é você olhar para si mesmo e dizer em última instância: eu não tenho força, sou impotente, sou fraco, porque a natureza humana é impotente, é fraca, em mim, em todos, é finita, é egoísta” (2017).

Mas será mesmo que uma sociedade solidária, fraterna, igualitária e justa se tornou impossível pela própria natureza humana e só resta o retrocesso? No decorrer da história, o possível passou por fortes reconfigurações dentro do contexto social, e a própria arte demonstra isso muito bem.

Os gregos utilizavam as tragédias para refletir sobre os conflitos sociais. Sófocles (2013), na peça trágica de Antígona, produzida em 442 a. C., traz como protagonista uma mulher desamparada – sem armas, exércitos ou partidos – que ao ver a injustiça praticada pelo tirano, sozinha o desafia. Os respeitáveis da época se calavam e até mesmo sua irmã Ismene a taxou de desventurada. Porém, Antígona não se abalou pelas condições de experiência da época e de forma corajosa estremeceu as estruturas daquela sociedade.

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Por falar em experiências, o que dirá Picasso que, em 1907, de forma audaciosa, no estúdio de Bateau-Lavoir, apresentou a pintura das Senhoritas de Avignon que retratava prostitutas do Bordel de Barcelona levantando à época fortes críticas por romper com a tradição pictórica ocidental. As cinco moças retratadas acabaram ocasionando uma revolução artística levando a novos rumos a arte do século XX. Passados alguns anos, Picasso produz Guernica que se torna um verdadeiro manifesto contra a violência ao retratar o bombardeiro aéreo, ocorrido em 26 de abril de 1937, praticado por caças alemães como apoio de Hitler ao General Francisco Franco.

Mas ao se falar em arte – tanto alográfica quanto autográfica – logo acirram acusações no sentido de que tais, estariam em uma constante busca pelo impossível como meio de atingir a fruição da estesia, algo que não seria viável no cotidiano, visto que este se dá dentro dos parâmetros do possível. Será mesmo? Em uma breve análise histórica observe que Pico Della Mirandola – que é tido como criador do humanismo renascentista – ao trazer o homem e a razão para o centro do mundo (algo impensável à época) na beira da idade moderna chegou a ter suas teses consideradas como heréticas pelo Papa Inocêncio VIII (Barroso, 2014). Passados alguns tempos, graças a suas contribuições, já é possível até falar em dignidade da pessoa humana.

Nesse contexto, fica claro que o horizonte não é uma fronteira rígida, está em constante expansividade e transformação, e o possível é altamente configurável. No decorrer da história, algumas coisas deram erradas. Porém isso não é motivo para desistir e tomar uma posição de retrocesso abandonando todas as conquistas alcançadas até aqui.

Inegável que o medo faz os cidadãos mais respeitáveis se calarem – como ocorreu na peça de Antígona – todavia foi a atitude daquela corajosa mulher que abalou a tirania ao reescrever a insubordinação como direito fundamental em um ambiente em que a vida pública era de exclusividade masculina (Sófocles, 2013). Como o próprio Safatle afirma “o impossível apenas diz respeito as condições atuais de experiências” (2016).

Assim é bom que seja, visto que a mão da história se revela como realizadora das causas impossíveis. A própria pós-modernidade, com o rompimento do espaço por meio da tecnologia, globalização, internet etc é a maior prova disso: povos anteriormente considerados antagônicos passam a conviver em um mundo virtual que é o próprio epicentro da pluralidade. Se tudo isso foi possível, é óbvio que a natureza humana não é nenhum empecilho para uma sociedade justa. Assim, a busca por uma sociedade mais justa e igualitária deve continuar e não retroceder.

Aos que alegam que o “ser humano é muito egoísta para ser solidário; a justiça social e ressocialização são impossíveis” ou qualquer outra afirmativa melancólica nesse sentido, é bom não esquecer, a história conhece os tempos longos e breves, e a única certeza que há é a de que o horizonte da humanidade tem muito ainda o que expandir e nenhuma postura autoritária com base em desesperanças impedirá que o ser humano usufrua do nível máximo de direitos, respeitos e realizações dentro de uma sociedade justa, fraterna e solidária, nem que para isso seja necessário reconfigurar o possível e ressuscitar a esperança.

Tiago Braz de Menezes é graduando em direito na Faculdade Montes Belo. 

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Referências:

A LÓGICA DO CONDOMÍNIO: Vladimir Safatle. Café Filosófico CPFL. YouTube. 30 de agosto de 2016. 48min 49 s. disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=zWnD_FYo1sQ>. Acesso em 18 de Novembro de 2018.
BARROSO, Luís Roberto. A Dignidade da Pessoa Humana no Direito Constitucional Contemporâneo: a construção de um conceito jurídico à luz da jurisprudência mundial. Tradução de Humberto Laport de Mello. Belo Horizonte: Fórum, 2014. 132p.
QUEM SOMOS NÓS: Nova direita por Vladimir Safatle. Quem Somos Nós? YouTube. 09 de setembro de 2017. 1h 37min 34s. disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=VC6tITfhsGU >. Acesso em 18 de Novembro de 2018
SÓFOCLES. Antígona. Tradução de Donald Schüler. Porto Alegre: L&PM, 2013. 96p;
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