A escatologia política brasileira: inquisição, fé e anarquia
Sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A escatologia política brasileira: inquisição, fé e anarquia

Arte: Daniel Caseiro

Por Tatiana Lionço

 

A fragilização da laicidade do Estado brasileiro leva a uma dispersão retórica que faz confundir as argumentações de cunho legalistas e constitucionalistas àquelas típicas da eclesiologia. Some-se a isso o caráter sincrético da religiosidade brasileira, tal como proposto pelo antropólogo Pierre Sanchis [1], e assim nos aproximamos do limbo argumentativo que sedia os debates contemporâneos sobre direitos sociais e políticas públicas no Brasil. Estamos imersas em uma escatologia política.

Se é do apocalipse que se trata a nossa condição, qual haveria de ser a característica desta nossa escatologia brasileira? Que fim dos tempos seria o nosso? Ainda, caberia perguntar: fim de quê? Notícias pós-eleições relataram as consequências desastrosas da mania verborrágica do presidente eleito: seria o fim do privilégio da imunidade parlamentar para esse político afeito à vociferação? Aguardemos a tomada de posse para verificar se a estratégia retórica de Jair Bolsonaro sofrerá as devidas adequações diante da perda da proteção constitucional sobre o abusivo uso da imunidade parlamentar para a livre expressão de ideias que tensionam o ordenamento legal. Por enquanto estamos em “transição” e, note-se,  ele vem tendo a oportunidade de perceber que aquilo que diz, a partir de agora, tem consequências. Oremos pelo fim dos imunes tempos, mas, sobretudo, oremos para que o suplício decorrente da expiação da verborragia desmedida não recaia inteiramente sobre o povo brasileiro. Ao menos que ele,  tão logo assuma o mandato presidencial, tenha que responder às reivindicações populares. Internet: multiplicai esta prece!

Se não sabemos ainda o que virá, resta a certeza de que alguma coisa está em etapa de finalização. Seria a democracia? Nem tanto, diriam alguns, mas certamente o ideal democrático que ainda é entoado hoje está embebido no fel amargo de sua implicação na condução ao iminente desmonte do Estado de direitos sociais. Como afirmara o anarquista Errico Malatesta [2] nos idos 1924, “não somos a favor da democracia, entre outras razões porque, cedo ou tarde, ela conduz à guerra e à ditadura”. Resta saber se podemos citar uma referência anarquista, em tempos em que mesmo o feminismo liberal é compreendido como risco social e ruína da civilização.

Talvez seja mais prudente mencionar que Manuel Castels [3] finaliza o livro Ruptura – a crise da democracia liberal, argumentando que diante da falência da representatividade política nas democracias liberais, em tempos de neoliberalismo, um caminho de esperança seria a proliferação de potências micropolíticas afeitas à autogestão. Horizontalidade nas relações e radicalização de novas apostas comunitárias de auto-organização. Podemos não chamar de anarquia, podemos fingir que não sabemos, que não entendemos, que não pensamos e que nunca foi questionada a forma de organização política republicana na lógica dos Estados-nação. Há os que ainda acreditam que defender a bandeira nacional resolve problemas persistentes tais como corrupção, insegurança, desemprego. Podemos ainda fingir que o nacionalismo é bom para o povo? Acredito que não. Isso é crença de europeu, não de gente brasileira que foi, por que não dizer, expulsa há algumas gerações, na condição da pobreza européia que não se quis manter como identidade nacional. O nacionalismo do capitão, aliado à inquisição midiática contra a politizada expertise da Medicina cubana afeita à atenção básica à saúde de populações às margens, rendeu prejuízo explícito para o direito à saúde do povo que habita este vasto purgatório.

Ou seria melhor reconhecermos que estamos no inferno? Paraíso, se houver algum neste mundo, está reservado para poucos e certamente não é aqui. Diz-se que se localiza alhures, onde não se aplicam regulações tributárias, onde a responsabilidade comum não se cumpre. Diz-se também que políticos brasileiros gozam de paraísos fiscais, de tempos em tempos tomamos notícias a respeito. Nós, condenadas a viver em sociedade e a compartilhar responsabilidades e deveres, estamos destinadas a expiar supostos pecados, temporariamente ou definitivamente, a depender das intersecções entre cor/etnia, sexo/identidade de gênero, orientação sexual, classe econômica, regionalidade, idade, escolaridade, entre outros marcadores da eleição divina para o gozo da bênção ou da maldição.

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O Novo Mundo, como nos lembra a história, tão logo se materializou colônia perdeu status de paraíso [4]. Sequer a Santa Cruz se sustentou diante da infernal situação do depósito de excluídos da “civilização”: hereges, bruxas e feiticeiros degredados da Europa, somados aos povos originários demonizados e aqueles traficados para o Brasil, posteriormente “embranquecidos” com sangue pobre europeu: temos aí o povo brasileiro. A escória moral branca expulsa para além-mar, misturada a etnias indígenas e africanas, povo submetido à doutrinação jesuítica para a moralização da sociedade, eventualmente julgado pelas visitações do Santo Ofício e posteriormente submetido secularmente e em tempos republicanos ao coronelismo, à ditadura militar e mais recentemente ao fundamentalismo oportunista e ao proselitismo neoliberal.

Triste saga política pela legitimidade da autoridade inquisitorial: disputa-se hoje no Congresso Nacional o estatuto legal da interdição de nossas esforços de resistência. Seja coibindo direitos políticos, seja cerceando práticas educativas que visam incidir pedagogicamente sobre a necessária revisão das desigualdades estruturais da sociedade brasileira escravocrata e patriarcal, os inquisidores da Casa Grande pretendem reservar a democracia para os interesses de colonização da Terra de Santa Cruz.

Voltemos à anarquia, já que estamos assumindo a ruptura drástica da retórica politicamente correta em tempos escatológicos. O discurso da vitória, como o nomeou Jair Bolsonaro, inicia com uma citação bíblica: “Conheceis a verdade, e a verdade vos libertará”. Assim se manifesta aquele que se elegeu na base de polêmicas sensacionalistas, tendo sido proibido por tribunal eleitoral de disseminar mais notícias falsas sobre o alegado mas inverídico “Kit Gay”. Há uma vertente anarquista cristã que pode se coadunar melhor ao momento político em que nos encontramos, afinal é imprescindível recorrer ao argumento de fé para alcançar legitimidade política no Brasil de hoje. Tolstoi [5], no livro anarquista O Reino de Deus está em vós, afirmou que “não sem razão a única palavra dura e ameaçadora de Cristo foi dirigida aos hipócritas”.

De minha parte, já que estou envolvida na polêmica do “Kit Gay” desde que Jair Bolsonaro editou, ainda em 2012, meu pronunciamento sobre sexualidade infantil para levar a sociedade a entender que eu estimularia sexo entre crianças – o que ele denominou por homossexualismo infantil [6]. É no mínimo curioso que estejamos hoje presenciando a multiplicação dos ataques morais contra professoras e pesquisadoras, bem como a profissionais de Psicologia, num amplo processo de replicação da propaganda de ação de Jair Bolsonaro. Vale mencionar que não interessa se o capitão leu ou não textos anarquistas, o fato é que uma de suas estratégias políticas é derivada do anarquismo e se chama propaganda de ação: o sujeito realiza uma ação direta na expectativa de que outras pessoas repliquem tal iniciativa.

É isso o que ocorreu e, caso então o presidente eleito, ou seus apoiadores, ou sua assessoria, venham a ter interesse pelo anarquismo, recomendo a leitura da referida obra de Leon Tolstoi, pois como Deus está acima de todos segundo o slogan político da próxima gestão presidencial, podem começar se aproximando do anarquismo por meio da vertente cristã. Penso isso pois a implosão do Estado, caso levada às últimas consequências, chegará à realização do projeto anarquista. Talvez interesse. Ao menos interessa à sociedade civil, pois diante do desmonte de uma série de políticas públicas será necessária a auto-organização, será questão de sobrevivência.

Tolstoi segue argumentando que é gravíssimo que se saiba distinguir entre o certo e o errado, e que se aja deliberadamente no erro, sobretudo quando o que se está em questão não é apenas um dano diretamente perpetrado contra alguém, mas quando a ação induz inúmeros outros sujeitos ao erro, multiplicando os danos a outrem. Deus Salve as Crianças: Bolsonaro sabia muito bem o que estava fazendo ao produzir o video difamatório contra mim e outros participantes do IX Seminário LGBT da Câmara dos Deputados, pois estava já ali articulando uma de suas principais pautas políticas na base da distorção e da propagação de pânico moral homofóbico e, por que não dizer, da disseminação de repulsa moral contra o pensamento acadêmico. Multiplicai a discriminação: não consigo pensar em uma atitude menos cristã a ser propagada por meio de uma propaganda de ação. Uma pena o Ministério Público não ter entendido a conexão entre este ato do deputado e os danos à coletividades. O tempo parece ter se encarregado de tornar evidente, pois são muitas as pessoas perseguidas no exercício da docência e da pesquisa. Até mesmo professores mais importantes passaram a dispor da atenção e proteção Estatal diante de ataques morais similares.

Já que estamos em tempos de confusão retórica e epistemológica, numa escatologia política em que sequer sabemos distinguir a teologia da filosofia política, a ação do Estado da bênção, caridade ou punição, a autoridade política da eleição divina, seria prudente reconhecermos que sempre foi assim. O Brasil de Bolsonaro nos confronta com nossa história, com a força de permanência do projeto colonizador que usa do moralismo civilizador como cortina de fumaça para escamotear a intenção meramente comercial e, portanto, demasiado não divina, sobre o massacre que opera na vida das pessoas não abençoadas pela conivência com a manutenção dos privilégios.

Para que não acreditem que esta guerra está ganha, pois vencer uma batalha não significa que tenham nos rendido e derrotado, afirmo que muitas e muitos de nós, independentemente de termos ou não religião, temos compreendido que a resistência é espiritual. Temos compromisso com o registro da história, com a escrita do passado, com a memória que não se compra, não se corrompe e não se apaga. Queimem museus, queimem arquivos, queimem pessoas, queimem livros: escreveremos novos, nasceremos de novo, educaremos nossas filhas e filhos, desenterraremos relíquias, esconderemos evidências arqueológicas de quem somos. Fomos hereges, somos ainda. Somos más e podemos ser muito piores. Fomos degredadas, agora somos brasileiras não mais recusadas, mas que recusam a Europa e todo imperialismo, inclusive o da bandeira norte-americana reverenciada pelo presidente eleito Jair Bolsonaro. Somos América Latina, o que significa que escapamos a variadas tentativas de supressão e reinventamos humanidades imprevisíveis. Somos futuro incerto, seremos gerações inteiras que estão por nascer e que, a cada vez, serão menos colonizador e mais povo brasileiro. Assim seja.

Desespero? Passou. No dia da consciência negra, feriado aqui no Rio de Janeiro, entrei em uma Igreja Católica ao acaso, na rua em que estou hospedada, curiosa por perceber a movimentação de muitas pessoas com indumentárias africanas no local. Assisti a uma missa em que o padre afirmava que racismo não era cristão, que não existia racismo reverso e que consciência branca não fazia sentido, que a diversidade cultural deve ser celebrada, que somos todos filhos de Deus. Disse ainda o padre que a discriminação contra homossexuais deveria ser combatida, assim como muitas outras formas de justificar a exclusão e a marginalização de pessoas. Fazia muito tempo que eu não acompanhava uma missa. Não apenas permaneci a cerimônia inteira como recebi o corpo de cristo. Afinal, se para padre nenhum eu me confesso, por outro lado o exercício de refletir sobre o sentido do que fiz ou faço, sobre o meu lugar no mundo e o propósito de minhas ações e palavras, felizmente está em dia.

Reitero, no entanto, minha convicção de fé: herege, graças a Deus. Os inquisidores – sobretudo esses que têm suas denominações religiosas desdobradas da Reforma, que era entendida como heresia mas que prefeririam disso se esquecer, chamando hoje por sua vez os outros de heréticos como se xingamento fosse, e que hoje mais se aproximam do que Cristo referiu como mercadores da casa do Pai nesta Teologia da Prosperidade –, terão que fazer melhor. Compram-se juízes, compram-se campanhas eleitorais, compram-se votos em casas legislativas, mas temos fé que não se compra o Juízo Final. Estamos preparadas para sermos as demoníacas que atormentam os seus pesadelos, afinal, vocês não apenas nos assim nomearam na inquisição que vem empreendendo, como nos interpelaram. Somos nós que sabemos o que significa dar a outra face. Vale notar que não adiantou e portanto não mais adiantará queimar e nem matar. Já percebemos que estão a tentar legalizar a censura do que pensamos e expressamos, a criminalizar nosso trabalho e nosso ativismo político. No entanto, como vocês preferem acreditar ou simplesmente pregar, somos legião e, portanto, aí está a medida do desafio que terão adiante.

Tatiana Lionço é doutora em Psicologia, professora do Instituto de Psicologia e coordenadora do Núcleo de Estudos da Diversidade sexual e de Gênero do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília (NEDIG/CEAM/UnB).

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Referências:

[1] SANCHIS, Pierre. Cultura brasileira e religião… Passado e atualidade… in Cadernos CERU série 2, v. 19, n. 2, dezembro de 2008, pag. 71-92.
[2] MALATESTA, Errico. Escritos Revolucionários. São Paulo: Editora Imaginário, 2000.
[3] CASTELS, Manuel. Ruptura – Crise das democracias liberais. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2018.
[4] SOUZA, Laura de Mello e. Inferno Atlântico: demonologia e colonização: séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
[5] TOLSTOI, Leon. O Reino de Deus está em vós. 1983. Disponível em: https://we.riseup.net/assets/160463/1249581-Leon-Tolstoy-O-Reino-De-Deus-Esta-Em-Vos.pdf
[6] Reflexões sobre a polêmica do Kit Gay nas eleições de 2018 bem como a ocorrência anterior do uso do meu pronunciamento para fins de visibilidade política podem ser encontradas na matéria produzida pela Agência Pública, acessível por meio do link https://apublica.org/2018/10/a-eleicao-do-kit-gay/

 

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