O novo ministro da Educação contra os moinhos de Marx e Gramsci
Sexta-feira, 23 de novembro de 2018

O novo ministro da Educação contra os moinhos de Marx e Gramsci

Arte: Caroline Oliveira

Ricardo Vélez Rodríguez fala em “marxismo cultural” e “revolução gramsciana” no presidencialismo de coalizão. Mas o que isso representa?

Por Caroline Oliveira

Foi da festa de casamento do futuro ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni, no Clube do Congresso, em Brasília que o próximo presidente Jair Bolsonaro anunciou o ministro da Educação de seu governo. O nome do colombiano Ricardo Vélez Rodríguez para o cargo no Brasil botou fim ao descontentamento de uma parcela de evangélicos contrários à suposta nomeação anterior de Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna, que chegaria próximo a uma unanimidade entre as variantes do espectro ideológico direita-esquerda.

Após o convite do pesselista, Rodríguez, que foi naturalizado no País em 1997, afirmou em suas redes sociais que aceitou “a indicação movido unicamente por um motivo: tornar realidade, no terreno do MEC, a proposta de governo externada pelo candidato Jair Bolsonaro, de ‘Mais Brasil, menos Brasília'”. Para ele, em primeiro lugar, é necessário limpar todo o “entulho marxista que tomou conta das propostas educacionais de não poucos funcionários alojados no Ministério da Educação”. Em contraposição, valoriza os Institutos Militares, ao acrescentar que “são excelentes lugares de ensino”, porque neles há “patriotismo, disciplina, valorização dos docentes e amor pelo Brasil”.

Ao anunciar o nome do novo ministro, Bolsonaro destacou a produção de mais de 30 obras e a experiência enquanto Professor Emérito da Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Em 2006, Rodríguez publicou um artigo intitulado “O marxismo gramsciano, pano de fundo ideológico da reforma educacional petista”. Fã do escritor Miguel de Cervantes, o próximo ministro, em seu blog Rocinante, nome do cavalo de Dom Quixote de La Mancha, também traça impropérios acerca da miragem marxista sobre a educação brasileira.

No site, “um espaço para defesa da Liberdade, da forma incondicional em que Dom Quixote fazia nas suas heróicas empreitadas!”, segundo o próprio, Rodríguez, que não tem experiência em políticas educacionais, publicou “Um Roteiro para o MEC”, em letras garrafais, as quais me permito não reproduzir.

Para ele, a quantidade de leis aprovadas, nas últimas décadas, tornou os brasileiros “reféns de um sistema de ensino” numa “tentativa de impor à sociedade uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista, travestida de ‘revolução cultural gramsciana’”. Nessa imposição, Rodríguez lista “educação de gênero” e “dialética do nós contra eles” para “desmontar os valores tradicionais da nossa sociedade, no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em soma, do patriotismo”.

Como uma das soluções, ele propôs, em 2004 durante uma entrevista, que “todas as escolas deveriam ter Conselhos de Ética que zelem pela reta educação moral dos alunos”. Para ele, “não se trata de comitês de moralismo, nem de juntas de censura”. “Trata-se de institucionalizar a reflexão sobre (…) a forma que cada escola está correspondendo a essa exigência”. Segundo o colombiano, o Programa Escola Sem Partido é uma “providência fundamental”.

No mesmo roteiro, afirmou que “contra o globalismo politicamente correto que adotou a maluca proposta da ‘educação de gênero’, devemos nos erguer com persistência. Essa maluquice, esse crime contra as nossas famílias, não pode prosperar”.

Em seu blog, afirmou que a vitória de Bolsonaro virou mais uma página da “História do Brasil” e trouxe uma “imensa carga de esperança, com o intenso desejo de que os últimos resquícios do socialismo sejam escoimados dentre nós”. Porém, na realidade crua, durante os governos petistas, os bancos atingiram lucros estratosféricos, que nada tiveram de fantástico; foi aprovada a Lei Antiterrorismo e a Lei de Drogas, frutos de uma política criminal permeada por um juízo punitivista e racista; distribuiu-se subsídios e desonerações confiando no bom senso dos grandes empresários; foi emplacado o desenvolvimentismo do partido simbolizado por Belo Monte; aumentou o número de rádios comunitárias fechadas; e houve o crescimento das bancadas do Bíblia, da Bala e do Boi. Não foi Ciro Gomes que colocou a pecuarista Kátia Abreu no escalão de uma chapa de governo. Foi Dilma Rousseff que a escolheu para o Ministério da Agricultura. A política de alianças, no máximo reformista, está longe de perfazer o que Rodríguez, aos 75 anos, chama de socialismo.

Indicado pelo filósofo Olavo de Carvalho e alinhado ao ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, cujas ideias, de ambos, miram o suposto “marxismo cultural” incrementado pela “revolução cultural gramsciana”, o colombiano Rodríguez, que diz colocar à frente de sua atuação o lema de “Mais Brasil, Menos Brasília”, parece por demais adornado pelo “american way of life”. Muito provavelmente, o homem latinoamericano, conterrâneo de Gabriel García Márquez, salientado como realista mágico por descrever a realidade crua, poderia ter encenado o filme fantástico “Vampiros de Almas”, na caça aos comunistas, dirigido por ninguém menos do que Kevin McCarthy, durante a Guerra Fria, em solo estadunidense, ou participado dos documentários brasileiros “O Brasil precisa de você” e “A Máquina Comunista”. Aos EUA, o nacionalismo bom é o anticomunista.

Contudo, cabe à esquerda compreender, no mais utópico sentido de Hannah Arendt, as expressões “marxismo cultural” e “revolução cultural gramsciana”. De acordo com Eduardo Migowski, professor formado em História, mestre em Filosofia pela PUC-RJ e doutorando em Ciências Políticas na Universidade Federal Fluminense (UFF), para explicar a utilização desses conceitos, é necessário recorrer à década de 1960. Naquele momento, as reformas de base propostas, principalmente por João Goulart, foram acreditadas pelos conservadores como o “totalitarismo comunista”, o que legitimou o golpe militar de 1964, e o mesmo discurso, vestido com outros trajes, abriu portas para a vitória de Bolsonaro no pleito presidencial deste ano.

“Após a redemocratização, o comunismo praticamente desapareceu no mundo. Ou seja, esse discurso não tinha mais contato com a realidade do século XXI, estava anacrônico. Porém, ele não seria abandonado, mas reciclado. É nesse momento que ganha força a ideia de marxismo cultural”, afirma. Migowski acredita que, de acordo com os conservadores, o impedimento ao avanço do comunismo do mundo foi uma conquista da moral cristão. Nesse espectro moralista, “o marxismo cultural seria uma reorganização do marxismo, que estaria sendo deslocado das questões econômicas para a esfera simbólica, cultural. O comunismo não seria mais imposto a partir da revolução, mas seria conquistado através do convencimento, do consentimento e da relativização das tradições”.

“Deus acima de tudo, Brasil acima de todos” é a atualização dos valores religiosos que “passam a ser apresentados como a última barreira contra o autoritarismo” do comunismo e socialismo. “Eles devem ser protegidos e impostos ao conjunto da sociedade, mesmo num Estado laico, unindo, religião e política. Por isso, a noção de marxismo cultural é tão forte no meio religioso”, conclui. 

O mesmo se repete em Gramsci, “a lógica é a mesma”. Para os conservadores, “o marxismo cultural seria o meio para o que os conservadores chamam de revolução gramsciana, que seria uma revolução das idéias contra a moral cristã, não mais uma revolução armada do proletariado. A revolução gramsciana visaria conquistar os corações e as mentes”. Essa é a visão principalmente do filósofo Olavo de Carvalho. 

Quem é Ricardo Vélez Rodríguez?

Rodríguez é filósofo, mestre em pensamento brasileiro pela PUC do Rio de Janeiro, doutor em pensamento lusobrasileiro pela Universidade Gama Filho e coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora. Entre os livros que escreveu, estão “A Grande Mentira. Lula e o Patrimonialismo Petista” (2015), “Da guerra à pacificação: a escolha colombiana” (2010), “Estado, cultura y sociedad en la América Latina” (2010) e “Patrimonialismo e a realidade latino-americana” (2006).

 

Leia mais:
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