Onde deixamos nossos princípios e valores nestas eleições?
Segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Onde deixamos nossos princípios e valores nestas eleições?

Imagem: ilustração de Ikon Grafix. 

Qual foi o real papel dos milhares de brasileiros que, como eu, abdicaram do próprio viés ideológico em uma tentativa desesperada de salvar o país

.

Este período pós eleições que força a população (mesmo uma cuja retórica seja tão dicotômica quando a nossa) a ficar em banho-maria à espera do que está por vir – por mais entorpecente que seja, afinal, para ambos os lados já não se há mais nada o que fazer – ainda pode render alguns pequenos frutos de reflexão que sejam, no mínimo, úteis para o que enfrentaremos a partir do 1º de janeiro.

Se por um lado, já temos um festival de eleitores arrependidos, estejam eles admitindo ou não se arrependimento quanto ao nosso futuro presidente, de outro lado temos uma esquerda que, agora, mais do que nunca, precisa olhar para o próprio umbigo e delinear seus próximos passos. Veja bem, objetivo, ainda que um tanto quanto difuso, ela já tem. Temos pautas e, principalmente, valores definidos, ainda que o seu conjunto tenha um caráter divergente em nosso círculo interno de vertentes e debates. Mas o problema é como iremos chegar a um determinador em comum.

E digo isso por mim mesma. No início da corrida eleitoral, quando muito ainda se falava se Lula teria ou não sua candidatura impugnada, eu, como muitos que estão adentrando o debate político agora, estava sem um norte para seguir. Não cogitava Lula ou qualquer indicado pelo Partido dos Trabalhadores justamente por estar inserida em um meio em que o antipetismo é explícito e gritante; independente da minha leitura sobre as intenções do ex-presidente hoje ou de qualquer que fosse seu indicado – cargo que, posteriormente, coube a Fernando Haddad -, entendia que muito dificilmente as pernas bambas do partido em território da esquerda conseguiriam manter qualquer candidatura que fosse de pé. O ódio sempre falou mais alto e o impeachment absurdo de Dilma Rousseff serviu para nos mostrar exatamente isso.

Leia mais:

Dito isso, dei início à minha prospecção. Dos candidatos que realmente tinham uma voz condizente com as pautas e bandeiras levantadas pela esquerda, tínhamos, ao meu ver, três opções válidas: Guilherme Boulos, do PSOL, Vera Lúcia, do PSTU e João Goulart Filho, do PPL. Boulos, embora com certeza fosse o dono do discurso com mais visibilidade (foi o único dos citados acima a ter direito a comparecer aos debates televisivos, por exemplo), teve a pior colocação do PSOL em todas suas candidaturas à presidência na história. Em décimo lugar, obteve somente 0,58% dos votos válidos. Enquanto isso, Vera Lúcia, a real representante de qualquer retórica de uma esquerda radical no país, obteve 0,05% e o filho do presidente deposto no golpe de ‘64, João Goulart Filho, ficou em último lugar, com somente 0,03%. Complicado.

Nisso, fora levantada a grande questão que norteou toda a esquerda nessas eleições: com Bolsonaro e o seu discurso carregado de ataques à todos os tipos de minorias no Brasil, nos restaram duas opções: o voto ideológico, ou seja, ignorar qualquer estatística e simplesmente exercer o seu direito democrático de acordo com aquilo que mais nos representava, ou o voto estratégico, o qual consistia, basicamente, em escolher a opção menos pior. E aqui chegamos em minha opção para o primeiro turno, Ciro Gomes.

Há aqueles que categorizem Ciro como representante da esquerda. Honestamente, desde o início vi Ciro mais como um integrante do centrão do que tudo: passou por sete partidos diferentes em sua carreira política, indo desde o MDB, PSDB até partidos como o PPS (Partido Popular Socialista) e PSB (Partido Socialista Brasileiro). A palavra concessões estava escrita em sua testa feito um outdoor de fast food.

O que não necessariamente representava algo negativo. Olhando com um viés estritamente pragmático, qualquer um de nós era capaz de compreender que os discursos fiéis às pautas humanistas e inclusivas dos candidatos da esquerda, apesar de deslumbrantes, jamais chegariam ao pleito nessas eleições. E muito provavelmente, nem nas próximas. Será necessária toda uma geração disposta a debater e ressignificar muitos conceitos no imaginário coletivo para que cheguemos lá, para que discursos como o de Boulos tenham uma real chance à presidência da república. Por essas e outras que tanto para mim quanto para outros 13.344.366 brasileiros, Ciro parecia uma opção, no mínimo, justificável.

Sem partir para a demagogia, que tão facilmente conquista aqueles que se encantam com discursos supérfluos, Ciro trazia um viés progressista e razoavelmente respeitoso aos grupos já tão violentados dentro do país. Se retratou de falas machistas e misóginas no passado e trazia alguma sensatez quando questionado a respeito das questões mais, digamos, polêmicas na política brasileira nos últimos anos. Veemente contra o impeachment de Dilma, o discurso agressivo – para dizer o mínimo – de Bolsonaro e outras questões centrais, todos vimos que se ele chegasse ao segundo turno, tínhamos ainda uma faísca de esperança. Portanto, votei nele sem qualquer peso na consciência.

Mas, com sua postura que começou como escorregadia no segundo turno, quando optou por não declarar uma oposição explícita contra Bolsonaro e partindo logo para o oportunismo descarado – em entrevista recente à revista Veja, Ciro se retratou de inúmeras falas que conquistaram pessoas como eu no primeiro turno ao deixar claro que não, não fará oposição ao novo governo – Ciro confirma sua única função em todo o período eleitoral de 2018, o qual sim, se estende até o momento em que temos em mãos o resultado e examinamos seus próximos desdobramentos. 

Tanto os eleitores que, como eu, partiram para Ciro Gomes com a justificativa do voto útil, quando os de Haddad, candidato que recusei única e exclusivamente por conta de julgar fraca demais a sua figura perante aquilo que queríamos vencer, precisarão se reinventar retoricamente como um todo. O tal do voto útil não foi tão útil assim em nenhum dos lados: enquanto o meu morreu na praia por confiar demais em uma crítica rebuscada que flertava com a intelectualidade do showman político que Ciro é, o outro, dos eleitores do Partido dos Trabalhadores, até regozijou um pouco mais do seu momento de glória, mas também quebrou a cara por conta de uma fé cega em uma opção simplesmente inviável ao eleitorado brasileiro: aquela que tem a estrela vermelha no broche e causa repulsa na direita do Brasil. Ela, a direita, erra muito, mas é organizadíssima, isso não podemos negar. Quando chegou a hora de se organizar para evitar o que eles menos queriam, tiveram a eficiência que nós precisamos aprender neste momento – Nós, tanto os que se julgavam tão sensatos ao escolher o cara do centrão que dialogava conosco para chegar onde queria, quanto aqueles cuja esperança em Haddad foi até admirável, mas ao mesmo tempo, egocêntrica e teimosa.

Leia mais:

A questão aqui não é brigar com a própria esquerda mais uma vez, afinal, foi essa desunião que mais nos prejudicou. O ponto central desta discussão reside em fomentar uma autoanálise a respeito de qual equívoco nos conquistou e nos levou à ruína. Eu, como eleitora de Ciro Gomes, enxerguei o meu. Os eleitores de Haddad, por mais criteriosos ideologicamente que tenham sido em sua escolha, também precisam realizar esta revisão. E, uma vez que ela seja feita e cada um de nós saiba verdadeiramente o que quer e entenda os percalços para se chegar lá, talvez entendamos que a minoria de eleitores de Guilherme Boulos, Vera Lúcia e João Goulart Filho, por exemplo, não estavam tão errados ou não eram tão ingênuos como nós pensávamos.

Como eu disse no início, não é agora, momento em que o país está com um discurso mais agressivo e retrógrado do que nunca que iremos eleger o representante que queremos. Mas, se as opções que tanto julgávamos sabias, fosse Haddad pelo apoio dos eleitores fiéis de Lula, ou Ciro, o cara que conversava com todos e os enganava por debaixo dos panos, se mostraram imensamente equivocadas, talvez seja a hora de pensar que o voto ideológico tenha sido, desde o começo, a coisa mais sã a se fazer.

Infelizmente, não é de hoje que temos indícios do fenômeno doentio que Bolsonaro representa crescendo na mentalidade da população brasileira. Crimes de ódio, perdas de direitos e medidas cada vez mais excludentes já flertam com a nossa conjuntura política há tempos e dificilmente conseguiríamos parar este trem agora. O que, de maneira alguma, quer dizer que devamos deixar de tentar. Isso nunca. Mas tentemos com lealdade ao que nos representa, então. O país, que inevitavelmente terá mais essa mancha em sua história, precisará de uma resistência assertiva e organizada, uma resistência fiel às suas origens. Seja hoje, daqui quatro, oito ou vinte anos, certamente precisará. Então, estudemos as ideologias e, mesmo que estejamos pregando no deserto, não vamos abandoná-las mais uma vez.

Aqueles que tanto nos prometeram um meio termo, um caminho gradual para a melhoria, nos falharam. Portanto, se não tivermos uma base, nas próximas eleições seremos mais uma vez miseravelmente derrotados por acreditarmos em pontes que simplesmente não existem ainda. Cabe a nós estarmos prontos para construí-las. Cabe a nós reconhecermos onde erramos para que possamos apresentar frentes progressistas capazes de vencer o avanço do ultraconservadorismo. Nem Boulos, nem Vera ou João serão nossos presidentes a partir de 2019, isso é um fato. Mas precisamos começar de algum lugar, precisamos dar forças para que num futuro, nomes como estes tenham a força necessária nas disputas que estão por vir. O voto ideológico foi, por fim, o único gesto de sanidade do brasileiro nestas eleições. Ele foi a faísca inicial e está em nossas mãos mantê-la acessa para que um dia sua luz seja forte o suficiente para ofuscar os males que hoje nos subjugam e nos dominam.

Letícia Castor é estudante do 6º semestre de Comunicação Social.

Leia mais:


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Segunda-feira, 26 de novembro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend