Retrocesso na diminuição da desigualdade e pessimismo entre os brasileiros
Segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Retrocesso na diminuição da desigualdade e pessimismo entre os brasileiros

Imagem: Agência Brasil

Segundo pesquisas divulgadas nesta segunda-feira, o Brasil tem os indivíduos mais pessimistas entre 24 países e a desigualdade de renda que vinha diminuindo nos últimos 15 anos estagnou pela primeira vez no período

Por Caroline Oliveira

Em 2018, duas das principais ferramentas de combate às desigualdades e violações de direitos humanos passam por datas importantes. Em setembro, a Constituição Federal completou 30 anos. Em dezembro, a Declaração Universal dos Direitos Humanos totalizará 70 anos de existência. Nesse contexto, no entanto, a Oxfam Brasil e a empresa de estudos Ipsos divulgam dados que vão na contramão das diretrizes dos documentos.

Segundo a pesquisa de opinião “Beyond Populism? Revisited” (“Além do populismo? Revisto”, em tradução livre), da Ipsos, divulgada nesta segunda-feira, 26 de novembro, os brasileiros perfazem a população mais pessimista entre 24 países estudados. Cerca de sete a cada dez pessoas, um total de 67% da sociedade brasileira, acreditam que o País está em declínio, ou seja, tende a se tornar um lugar pior nos próximos anos. A mesma porcentagem de pessoas que disseram “não confiar” ou “confiar pouco” no sistema de Justiça do país.

Atrás do Brasil, está a África do Sul, onde 64% acredita nesse declínio, e a Argentina, com 58%. Os mais otimistas são os chilenos, alemães e canadenses. Sobre as regras econômicas, 71% dos brasileiros acreditam que são injustas e só favorecem a parcela já rica da população.

O objetivo da pesquisa é analisar a confiança dos indivíduos nas instituições e normas políticas e econômicas e em soluções populistas e totalitárias para as crises em diversas esferas. O estudo vem em um momento de ascensão da extrema-direita populista no mundo. Viktor Orbán na Hungria. Recep Erdoğan na Turquia. Donald Trump dos Estados Unidos. Marine Le Pen na França. Alexander Gauland, do partido ultranacionalista AfD (Alternativa para a Alemanha). Na Itália, o movimento Liga do Norte, anti-imigrantes. Na Grécia, o partido Aurora Dourada (AD), que nega ser neonazista, mas defende a “raça branca”. Na Eslováquia, o partido neonazista Nossa Eslováquia conseguiu 14 assentos no Parlamento, de um total de 150. No Brasil, Jair Bolsonaro tem 33% das intenções de voto, segundo a última pesquisa, do BTG Pactual.

Em comparação com a mesma pesquisa de 2016, numa média global, 57% dos entrevistados acreditavam que seus países iam piorar no futuro, ante 44% de agora. No Brasil, o movimento foi o mesmo: há dois anos foram 72% contra os 67% de agora. Naquele momento, o País passava por um processo de impeachment contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, a intensificação da Operação Lava-Jato, eleições municipais e, tecnicamente, pelo aprofundamento da crise econômica.

Em entrevista à BBC News, o diretor da Ipsos Danilo Cersosimo afirmou que os dados desta pesquisa podem estar ligados “ao fato de que vários dos países pesquisados elegeram governos de direita, de extrema-direita ou autoritários. Então, este sentimento antissistema, que teve um ápice em 2016, com a vitória do ‘sim’ ao Brexit e com a eleição de Trump, pode já ter arrefecido. São dois anos de Trump, que perdeu apoio nas eleições legislativas deste ano; são dois anos de negociações travadas no Brexit”.

No mesmo contexto, a pesquisa de 2018 da Latinobarômetro mostra que, em 2010, 61% dos latinoamericanos apoiavam a democracia. Em 2018, esse número caiu para 48%.

Na pesquisa da Ipsos, no total, foram ouvidas 17.203 pessoas entre 16 e 64 anos de idade, durante os dias 26 de junho e 9 de julho. Foram 24 países incluídos, entre eles Estados Unidos, Grã-Bretanha, Espanha, França, Brasil, Índia, Rússia, México e Turquia.

Oxfam Brasil

A Organização Não Governamental Oxfam Brasil, junto com o DataFolha de 2017, divulgou também nesta segunda-feira, 26 de novembro, que nove a cada dez brasileiros percebem que o País é muito desigual. Segundo o estudo, a desigualdade de renda que vinha diminuindo nos últimos 15 anos estagnou pela primeira no período. De acordo com os entrevistados, a solução para enfrentar a discrepância deve focar em maior oferta de empregos, maior investimento público em políticas sociais e uma reforma tributária.

No entanto, a resposta dada pelo governo federal tem sido na direção contrária. Depois de aproximadamente um ano de sua promulgação, a Reforma Trabalhista diminuiu os salários e aumentou a rotatividade e a precarização de empregos. Estudo promovido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) demonstra que os trabalhadores terceirizados ganham 25% menos em salários e que trabalham 7,5% (3 horas) a mais que outros empregados e ainda ficam menos de metade de tempo no emprego.

Com a Constituição de 1988 e os avanços decorrentes, como universalização dos serviços públicos, inclusão educacional, expansão do gasto e dos programas sociais e valorização do salário mínimo, ligados aos ciclos econômicos favoráveis graças ao aumento da demanda por commodities, o Estado avançou na garantia de direitos básicos.

Contudo, segundos os dados de 2017, “a pobreza no país recrudesceu e teve fim a dinâmica de convergência entre a renda de mulheres e homens – o primeiro recuo em 23 anos. Também recuou a equiparação de renda entre negros e brancos até chegar à estagnação, que completa atualmente sete anos seguidos. São retrocessos inaceitáveis, especialmente em um país onde a maioria populacional é de mulheres e negros”, afirma o texto do relatório da Oxfam. A proporção de pobres voltou a ser a mesma de 2012. Pela primeira vez, em 2016, foi registrada alta na mortalidade infantil, que passou de 13,3, em 2015, para 14 mortes a cada mil habitantes.

 

Leia mais:
Basta reduzir a pobreza para combater a desigualdade social?
A ideologia de direita e a extinção do Ministério do Trabalho
O Supremo aval da desordem econômica

 


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Segunda-feira, 26 de novembro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]