Alienação generalizada e Esquizofrenia Política
Terça-feira, 27 de novembro de 2018

Alienação generalizada e Esquizofrenia Política

Imagem: Icônica capa da revista Lampoon de 1974 mostrando o então presidente americano Gerald R. Ford com um sorvete na testa. Ilustração do artista Don Ivan Punchatz. 

Por Vinicius Viana Gonçalves

 

O Brasil é um país rico de cultura, exportador de inúmeros exemplos positivos para o mundo e exemplo de conquistas, mesmo ainda sendo uma nação extremamente desigual e calcada em pilares questionáveis e problemáticos, isto é, ainda somos uma jovem pátria que lida com problemas absurdamente danosos como a corrupção sistemática inserida em todos os poderes da sociedade [1].

Porém, com o advento da internet, das redes sociais e da massificação dos mecanismos de comunicações nesta “Era Digital”, a sociedade como um todo, consegue ter acesso a informações que até então demoravam muito a chegar de forma plena ou mesmo chegar de maneira integra e com lisura para que todos possam avaliar e se manifestar para fazer valer o direito de pleitear uma sociedade melhor.

Infelizmente, nem sempre é isso que observamos, ainda mais em um tempo que o mundo vive de extremos, onde observamos sociedades mais avançadas sofrerem deste novo “mal do século”, no qual o mundo digital tem um protagonismo indiscutível, para bem ou para o mal, mesmo que muitos grupos da sociedade civil organizada tentem amenizar seus efeitos como sendo uma “pequena” parte do todo, o que não condiz com a realidade assistida.

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O mundo, de alguma forma, presencia o crescimento de pensamentos políticos danosos, que marcaram de forma negativa a história contemporânea, e que novamente vem ganhando adeptos pelo globo, e gerando conflitos que podem trazer de volta fantasmas adormecidos, principalmente após o fim da Segunda Guerra Mundial, como o Fascismo e o Nazismo [2].

Não é à toa que países como Suíça, França entre outros, em seus respectivos períodos eleitorais, tiveram a ascensão de candidatos abertamente ligados a extrema-direita, o que inclusive permitiu que deputados de extrema-direita conseguissem se eleger para o parlamento alemão, algo que não acontecia desde 1945 [3].

Talvez o mais aparente resultado dos extremismos seja a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, que é atualmente o maior expoente da Extrema-direita no núcleo do Partido Republicano e, como resultado, vem causando temor global, por conta da eminência de uma guerra nuclear com outro líder, agora representante de uma “extrema-esquerda”, Kin Jong-Un [4].

Aliás, vale lembrar que a eleição americana foi calcada em uma imensa guerra virtual, principalmente de ataques com notícias de cunho duvidoso, ou mesmo falsidades escancaradas, que acabam muitas vezes prevalecendo em detrimento da realidade, algo que é sabido ser alarmante em qualquer sociedade minimamente organizada [5].

No Brasil, esta também é a realidade que assombra nossa sociedade há alguns anos, porém, nos últimos 5 anos, acabou tomando força e gerando, inclusive, nichos extremistas que tiveram um crescimento assombroso, juntando medidas e frases truístas aos ouvidos de uma sociedade pouco informada em um misto de extremismos à flor da pele, numa polarização muitas vezes sem qualquer tipo de embasamento.

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E qual resultado isso pode trazer não só para o cenário político, como para a sociedade como um todo? Certamente os piores possíveis, pois é compreensível e legitima a revolta da população com os inúmeros casos de corrupção que assombram todos os poderes de nosso país, com os descalabros e sofismo proferidos por autoridades que hoje em dia pouco se incomodam até mesmo em esconder seus interesses. Estamos vivendo talvez o pior e o melhor momento, quando toda a podridão é escancarada e, ao mesmo tempo, os atores responsáveis já não demonstram qualquer tipo de constrangimento. Afinal de contas, não é de hoje que seguimos elegendo figuras icônicas, não por suas atuações “Pro Societate” mas sim, por proferirem pérolas, como o Deputado Federal Sérgio Moraes (PTB-RS) que ao ser indagado por uma repórter disse: “Estou me lixando para opinião pública” e acabou sendo seguidamente reeleito nos pleitos seguintes [6].

E este prognostico nada positivo decorre, pelo menos em parte, de ainda sermos uma sociedade jovem e pouco desenvolvida, que se afeta muito mais do que nações com alto desenvolvimento humano e cultural. Nestas, por mais que as informações falsas ou duvidosas tragam terríveis ônus, há um conjunto de instituições, memória histórica, capital econômico, humano e simbólico que oferece um contrapeso às fake news – estamos falando de anos e mais anos de investimentos em educação e cultura, algo que minimiza absurdamente o resultado de catástrofes que vem se desenhando no Brasil.

Em 31 de outubro de 2016, a revista Superinteressante da Editora Abril, publicou em seu site uma pesquisa que colocava o Brasil em terceiro lugar nos países mais ignorantes do mundo [7]. E, em reportagem anterior a esta, o site UOL Educação revelou que apenas 8% da população ativa brasileira tem condições de “ler e interpretar” entre outras condições de expressão [8], algo que demonstra um abismo cultural com outras nações.

Aliás, o analfabetismo funcional entre universitários (50% segundo levantamento da Universidade Católica de Brasília [9]) talvez seja também um dos grandes males da atual conjuntura que se desenha, visto que pessoas com acesso a instrução, em tese, deveriam ser mais cautelosas ao propagar informação, sem se deixar levar tanto pela “paixão” ou mesmo pela ideologia política. Talvez por isso, percebemos uma proliferação dos extremismos com frases do tipo: “bandido bom é bandido morto” e a acensão de figuras que se autoproclamam baluartes de moral e da ética.

E por fim, ainda seguimos sendo uma nação que ainda não consegue entender e compreender as maravilhas que a internet pode oferecer para o crescimento cultural. Segundo matéria do site Olhar Digital, mais da metade dos brasileiros não quer ou não sabe utilizar a internet [11].

Um prato cheio para aqueles que detêm a informação e a utilizam para realizar e pôr em pratica interesses meramente pessoais por meio da política em sentido lato.

Com todos estes ingredientes, não é de surpreender que já há algum tempo vivemos uma tremenda esquizofrenia política, que se reflete principalmente em nossa jovem democracia, em seus atores (Partidos Políticos, grupos empresariais, Sindicatos etc) e suas estratégias para impor seus interesses político-econômicos particulares.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 30 partidos políticos em atividade e uma outra parte que tenta obter registro no Tribunal Superior Eleitoral [12]. Muitas destas legendas sequer possuem um verdadeiro conteúdo programático, ideológico, servindo meramente de ferramentas eletivas  – ou mesmo “moeda de troca” como por exemplo o PEN, Partido Ecológico Nacional, que abdicou de seu conteúdo voltado ao ambientalismo para se transformar em um partido de extrema direita com viés militarista [13].

Este é apenas um exemplo da fragilidade com que se comportam os partidos políticos no Brasil, onde poucas agremiações se mantem fiéis aos seus conteúdos ideológicos.

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De certa forma, tudo isso faz parte da grande alienação coletiva em que vivemos, onde não sabemos ou não queremos saber do que realmente se trata “Direita e Esquerda”, onde pessoas pedem “intervenção militar constitucional”, fazem ode a torturadores e demonstram uma irracionalidade e uma raiva maniqueístas, para apenas uma ou outra figura, ou mesmo legenda política.

Esta esquizofrenia coletiva faz com que caminhamos para terríveis resultados, refletindo-se no corte de verbas para a educação [14], e aumento de verbas em fundos partidários (de dinheiro público), numa proporção aquém de outras democracias pelo globo [15].

A sociedade brasileira não pode cair neste mar de ignorância coletiva que vem assombrando a população, tão pouco se deliciar na espuma da informação absurda e inverídica que tende apenas a transformar o indivíduo em um néscio obtuso fiel aos interesses de exploradores lesa pátria.

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Tão pouco se abdicar do debate construtivo (ao ponto de governos cogitarem remover de suas grades curriculares importantes cadeiras que fomentam o pensamento crítico como Sociologia e Filosofia [16]), se valendo meramente das mesmas informações falsas como do uso indiscriminado de figuras infantis, argumentos rasos, memes entre outros subterfúgios que amplificam este crescimento desenfreado da ignorância que vem assolado ano a ano o Brasil.

Também é necessário um maior empenho dos meios de comunicação independentes promoverem cada vez mais o desmascaramento de profissionais e da “imprensa marrom” que visa unicamente a promover interesses soturnos em detrimento da sociedade inteira.

Não sejamos ingênuos, pois em São Paulo, grupos que se tornaram populares usando este “modus operandi” não só tiveram êxito financeiro (além de visibilidade) como conseguiram eleger diversos parlamentares nas últimas eleições. 

Lembrando que muitos destes portais, veículos e “movimentos” que propagam a desinformação em massa são patrocinados por partidos fisiológicos e grandes empresas, o que exige do cidadão contemporâneo que, ao acessar uma informação, procure conferir a veracidade da mesma, não apenas se contentando com o título ou chamada [17].

Precisamos desconstruir a ideia de que existem “salvadores da pátria” dos quais podemos esperar por “soluções mágicas” para assuntos complexos que perduram sem solução durante anos.

Não esqueçamos, para relativizar um pouco nosso drama, que o Brasil ainda não inteirou 35 anos de democracia e este é o mais longo período de vivência democrática que obtemos. Não deixemos que ele termine agora. 

Vinicius Viana Gonçalves é bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais Pela Faculdade Anhanguera do Rio Grande (FARG) e pós-graduado em Ciências Políticas pela Universidade Cândido Mendes (UCAM).

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Notas:

[1] Os três poderes. O Globo. 21 de junho. 2017 < https://oglobo.globo.com/brasil/artigo-os-trespoderes-por-joaquim-falcao-21371219> Acesso em 04/01/2018.
[2] Por Que a Extrema Direita está crescendo? Huffpost Brasil. 16 de agosto.2017 < http://www.huffpostbrasil.com/alexandre-a-loch/por-que-a-extrema-direita-estacrescendo_a_23079213/>
[3] Extrema direita entra no Parlamento alemão pela primeira vez desde 1945. El Pais. 25 de setembro. 2017 < https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/24/internacional/1506276160_113753.html> Acesso em 04/01/2018.
[4] Reação de Kim Jong-un a ameaças de Trump dá abertura a desastre. Folha, 20 de setembro. 2017. < http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/09/1920051-reacao-de-kim-jongun-a-ameacas-de-trump-da-abertura-a-desastre.shtml> Acesso em 04/01/2018.
[5] Notícias falsas sobre eleição nos EUA tem mais alcance que notícias reais. G1. 11 de novembro. 2017 < http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/noticias-falsas-sobre-eleicoesnos-eua-superam-noticias-reais.html > Acesso em 04/01/2018.
[6] Deputado que “se lixa” é reeleito com 97 mil votos. Congresso em Foco. 04 de outubro. 2010. < http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/deputado-que-se-lixa-e-reeleito-com-97-mil-votos/ > Acesso em 04/01/2018.
[7] Brasil é o terceiro país mais ignorante do mundo. Superinteressante. 31 de outubro. 2016. < https://super.abril.com.br/ideias/brasil-e-o-terceiro-pais-mais-ignorante-do-mundo/> Acesso em 04/01/2018.
[8] No Brasil, apenas 8% têm plenas condições de compreender e se expressar. UOL Educação. 29 de fevereiro. 2016. < https://educacao.uol.com.br/noticias/2016/02/29/nobrasil-apenas-8-escapam-do-analfabetismo-funcional.htm> Acesso em 04/01/2018.
[9] Nem 1%, nem 80%: a real taxa de analfabetismo funcional entre universitários. Gazeta do Povo. 31 de maio. 2017. < http://www.gazetadopovo.com.br/educacao/nem-1-nem-80-a-realtaxa-de-analfabetismo-funcional-entre-universitarios-8eipsba6xmr44t7602oum3pq4> Acesso em 04/01/2018.
[10] UBER – Empresa privada de transporte urbano.
[11] Mais da metade dos brasileiros não sabe ou não quer utilizar a internet. Olhar Digital. 18 de maio. 2012. < https://olhardigital.com.br/noticia/mais-da-metade-dos-brasileiros-nao-sabe-ou-nao-querutilizar-a-internet/26285> Acesso em 01/04/2018.
[12] Partidos políticos registrados no TSE. Tribunal Superior Eleitoral. < http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos/registrados-no-tse> Acesso em 04/01/2018
[13] Bolsonaro faz sigla ecológica abandonar causa ambiental. Estadão. 22 de outubro. 2017.< http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-faz-sigla-ecologica-abandonarcausa-ambiental,70002055610> Acesso em 04/01/2017.
[14] Temer sanciona Orçamento com veto a verba extra ao Fundeb. O Globo. 02 de Janeiro. 2018. < https://oglobo.globo.com/economia/temer-sanciona-orcamento-com-veto-verba-extraao-fundeb-22247531> Acesso em 04/01/2018.
[15] Governo reserva quase R$ 900 milhões para fundo partidário. G1. 04 de setembro. 2017. < http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2017/09/governo-reserva-quase-r-900-milhoes-parafundo-partidario.html> Acesso em 04/01/2018.
[16] Relator defende retirar matérias como Filosofia e Sociologia do ensino médio. Estadão. 04 de março. 2016. < http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,relator-defende-retirarmaterias-como-filosofia-e-sociologia-do-ensino-medio,10000083657> Acesso em 04/01/2018.
[17] ‘É necessário que cada boato seja desmentido’, diz professor da USP. Estadão. 05 de fevereiro. 2017. < http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,e-necessario-que-cada-boato-sejadesmentido-diz-professor-da-usp,70001653443> Acesso em 04/01/2018.

Referências:

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Partidos Políticos em formação. TSE. < http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos/partido-em-formacao > Acesso em 26/01/2017
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Partidos Políticos registrados no TSE. Tribunal Superior Eleitoral. < http://www.tse.jus.br/partidos/partidospoliticos/registrados-no-tse> Acesso em 26/01/2017
A Social Democracia e o Estado de Bem-Estar Social: As políticas públicas de trabalho, emprego e renda e de previdência social na Suécia e Brasil. Revista Eletrônica PUC. 02 de fevereiro . 2009. < http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/graduacao/article/view/6069 > Acesso em 19/01/2017.
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