Ó Capitão, meu Capitão
Quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Ó Capitão, meu Capitão

Arte: Caroline Oliveira

Tenho estado nostálgico ultimamente e, revolvendo o escaninho da memória afetiva, veio-me à mente a palavra “Capitão”. A palavra, em outros tempos, invocava imagens benfazejas, quase heróicas, associada a uma pessoa que havia conduzido uma nação a um porto seguro, como no poema de Walt Whitman. Ou, uma turma de neófitos alunos à descoberta de si mesmos e do mundo à sua volta, como no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”.

No contexto atual, político e social, em que estamos imersos, a mesma palavra emergiu, tal como um voraz leviatã, e passou a ser ouvida com uma freqüência perturbadora e intimidativa. Nestes tempos lúgubres, a invocação desta palavra – Capitão – passou a ser fonte de apreensão, inquietude, temor. Ela passou a ser mencionada na imprensa, passou a ecoar da boca do cidadão, passou a ser vocalizada por milhões. Aludida palavra, que ganhou foros de galardão, reverbera em meus tímpanos, cada sílaba a soar como o bater de um tacão.

Ela agora, numa feérica transmudação semântica, a desdenhar dos significados dignificantes a que esteve, até aqui, associada, apresenta-se sob vestes bélicas, a investir contra a democracia, a pluralidade de ideias, de visões de mundo, contra a diversidade sexual, étnica, religiosa. Contra a escola e a liberdade de ensinar e aprender. A palavra, personificada nessa nova e iníqua versão, ganha vida, corpo e alma: esbravece, brada, vocifera! Pronuncia impropérios impublicáveis, fúfios, grotescos, grosseiros, incivilizados.   

Contudo, num antagonismo visceral, essa palavra invoca minha memória afetiva, como uma madeleine mergulhada em uma chávena de chá. Sou transportado ao mundo mágico do cinema e de seus filmes inesquecíveis. Em 1989 veio a lume um filme que se tornaria, nos anos seguintes e até hoje, antológico: “Sociedade dos Poetas Mortos”. Não pretendo discutir ou atestar a qualidade cinematográfica do mesmo. Não reúno os atributos indispensáveis a tal mister. O que me leva a invocá-lo neste instante é a temática que aborda: a educação para a liberdade ou a liberdade de educar. Seja na sala de aula, seja em espaços antes inimagináveis, a relação professor-aluno, mestre-discípulo, educação liberticida versus educação libertária, se constrói e se constitui nas trilhas do filme.

É a história de um professor, que por meio de métodos heterodoxos, de uma pedagogia libertária, poética e transcendental, desvenda para seus alunos um mundo insuspeito e impensável até então, conduzindo-os, tal qual um timoneiro, para uma terra, para eles, antes desértica e inacessível, onde habita a Literatura e a poesia. 

A história se passa no interior de um colégio interno, de existência centenária, marcado por anos de incontestada tradição e por uma inflexível disciplina, imposta a seus alunos e professores. O colégio de Welton , localizado no Estado de Vermont, nos EUA, rege-se pelas palavras de ordem: “tradição”, “disciplina”, “honra” e “excelência”, que os estudantes carregam nos estandartes, na cerimônia de abertura do ano letivo. O colégio tem a pretensão de formar as elites mandatárias da nação. Na cerimônia de abertura do ano letivo que se inicia, o diretor do colégio, Senhor Nolan, apresenta o novo professor de Inglês, John Keating, ele próprio um antigo aluno de Welton.

O professor Keating, brilhantemente interpretado no filme pelo ator Robin Williams, irá por em xeque os cânones sob os quais se assenta a educação ancestral, ali professada. A primeira aula que ministra já dá o tom quanto à sua visão do ensino e da aprendizagem. Ele começa por romper com as regras de espaço e tempo, até ali vigentes. Regras ancestralmente estabelecidas, às quais ele mesmo teve que se curvar um dia, enquanto aluno.

Nesta primeira aula os alunos são solicitados a deixar seus lugares, habitualmente ocupados diante de suas mesas de estudos, para adentrarem em uma sala, no qual estão dispostos, como numa galeria, retratos de antigos alunos. Fotos esmaecidas pela voragem do tempo, mas que foram capazes de capturar um instante daquelas juvenis existências.

O professor se dirige a um dos alunos e o solicita que abra o livro, que tem nas mãos, na página 542, e faça a leitura do poema que ali se encontra. O aluno então, entre desconfiado e obediente, procede à leitura solicitada. Das páginas estáticas do livro, despertam para a dinâmica da vida os versos do poeta latino Horácio (65 a.C-8 a.C). Na verdade, o filme usa de uma licença poética, ao promover uma transfiguração dos mesmos.

O poeta latino não é explicitamente nominado no filme, mas os versos que ganham vida pela voz do aluno são de todo conhecidos. Vejamos os mencionados versos que são enunciados no filme, pela leitura do aluno:

“Pegue seus botões de rosa enquanto pode, o tempo está voando, a estas horas, flores que hoje riem, amanhã estarão mortas”.

Agora na obra de Horário:

“Só o presente é verdade, o mais, promessa …
O tempo, enquanto discutimos, foge:
colhe o teu dia, – não o percas – hoje.”
(Horácio. Odes e Epodos. Biblioteca Martins Fontes, 2013).

Em seguida à leitura, o professor pede aos seus pupilos que se aproximem dos retratos, observem-nos de mais perto, escutem o que os jovens ali retratados desejam sussurrar-lhes aos ouvidos. Das fotos, observadas com desconfiança, ecoam as palavras: “Carpe Diem”, “Aproveitem o dia”, “Tornem suas vidas extraordinárias”! A mensagem que se extrai desta primeira lição é de exortação à vida e a todas as suas potencialidades.

Os alunos estão atônitos, entre estranheza, encantamento, desconfiança e admiração. Aquele professor, tão estranho, tão diferente de todos os demais, instigou-lhes a curiosidade, despertou-lhes o interesse. Quem é ele? Talvez nenhum outro professor antes tenha merecido ou conseguido despertar-lhes a atenção e a perplexidade.

Evidentemente esse idílio entre professor e alunos será posto à prova. Um grave incidente, o suicídio de um dos alunos, expõe e precipita os antagonismos que já se faziam sentir. Seriam inconciliáveis os métodos libertários de ensino, postos em prática pelo professor, e os cânones da educação tradicional, observados desde tempos imemoriais por aquela instituição.

Sua permanência na escola se torna insustentável. E aqui me transporto para o final do filme, à famosa cena que dá título a este texto. Trata-se do momento em que o professor ingressa na sala de aula, na qual antes ministrava suas lições, para apanhar objetos pessoais em meio à aula que se desenrola, agora sob a batuta do diretor.

Parece que tudo voltara ao que era antes, as águas retornando ao seu leito original. Os alunos, contritos e submissos ouvem as lições que já lhes parecem sem sentido. O professor, já tendo consigo os objetos a que veio buscar, se encaminha para o vão da porta, a fim de deixar o recinto. Os alunos o observam de soslaio, sob o olhar inquisitivo e tirânico do diretor. É nesse exato instante que se dá um dos momentos mais tocantes do filme. A homenagem que seus alunos lhe prestam, vencendo o medo impingido pela presença autoritária e insensível do diretor.  Um a um, os alunos sobem sobre suas mesas e, dirigindo-se ao professor, pronunciam as palavras mágicas: “Ó Capitão, meu Capitão”!

Em uma das suas heréticas aulas, o professor Keating os apresentou à obra do poeta norte-americano Walt Whitman e a seu comovente poema dedicado a Abraham Lincoln:

Ó Capitão! meu Capitão! Finda é a temível jornada,
Vencida cada tormenta, a busca foi laureada.

Aqui estamos no ponto crucial deste texto, o que me faz volver ao parágrafo inicial do mesmo: a utilização da palavra “Capitão”. No contexto do filme, o Capitão invocado pelos alunos é alguém que lhes conquistou o respeito, a estima, o carinho e o reconhecimento. Que lhes infundiu sua autoridade, sem imposições, sem ameaças, mas assumindo para si a responsabilidade de apresentar-lhes o mundo, sob nova perspectiva.

Nas palavras de Hannah Arendt:

“Na educação, essa responsabilidade pelo mundo assume a forma de autoridade. A autoridade do educador e as qualificações do professor não são a mesma coisa. Embora certa qualificação seja indispensável para a autoridade, a qualificação, por maior que seja, nunca engendra por si só autoridade. A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste, porém sua autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo.” (A Crise na Educação. Hannah Arendt. Entre o passado e o futuro. Editora Perspectiva, 5ª edição, 2001).

Pela senda por ele aberta, os seus discípulos ingressam em um mundo novo, inacessível e inalcançável pelos parâmetros da educação tradicional, que lhes era imposta até então. O seu magistério foi efêmero e exíguo, durou apenas o tempo necessário. Porém, as sementes foram lançadas à terra, que havia sido revolvida a priori para recebê-las. A lição, veiculada desde o primeiro encontro, foi apreendida.

O ideal do ensino, que é sublimado pelo filme, é levar o aluno a pensar de forma crítica a realidade na qual se insere, a questioná-la, a transfigurá-la, a transmudá-la. Por variados caminhos e instrumentos chegamos a esse destino educativo e pedagógico, As ciências humanas dão-nos o ponto de partida, a Literatura, o Cinema e das demais artes, completam-no, com seu pecúlio de imaginação e sensibilidade.

No entanto, tristemente, o emprego da palavra Capitão, neste Brasil da pós-verdade ou da autoverdade, foi desvirtuado de toda a simbologia que a envolveu no poema de Walt Whitman e no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”.

Hoje a palavra nos infunde medo, insegurança, perplexidade, apreensão. Tudo leva a crer que estão ameaçados, sob sua atual dicção, a democracia, os direitos humanos, o pluralismo, o respeito à diversidade – de gêneros, sexual, religiosa, de idéias e de pensamento. Parece que o Brasil virou de ponta cabeça.

 

Carlos Eduardo Araújo é professor universitário e mestre em Teoria do Direito (PUC-MG).

 

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