Consciência Bicha Preta
Segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Consciência Bicha Preta

Por Vinícius ZacariasKauan Almeida

“Mas se liga, macho, presta muita atenção.

Senta e observa o tamanho da tua destruição.”

Linn da Quebrada, Bixa Preta.

Inspirados pelas mulheres negras e entendendo o gênero enquanto categoria relacional, também estamos sendo convidados a refletir o lugar do homem negro na sociedade. Vemos, então, a ascensão dos estudos das masculinidades negras, trazendo a vida social do homem negro para a análise. Junto e pulsante a isso, colaborado pela visibilidade da autoafirmação identitária, interseccional e crítica na era digital, os auto intitulados “bichas pretas” vêm surgindo nos textos e ações, nos provoca a refletir os corpos marcados pela violência colonial que institui as hierarquias raciais e os regimes da cisheteropatriarcalidade.

Os estudos das feministas negras mostraram ao mundo no longo dos últimos anos que é possível a reestruturação dos estudos das desigualdades globais. Através do desenvolvimento apurado da teoria do ponto de vista, amplamente conhecido como “lugar de fala”, e do método analítico da interseccionalidade, podemos as dinâmicas das desigualdades de forma articulada e com posicionamento político. E, deste modo, pensar as capilaridades da compreensão racial e de gênero sem as sectarizações inócuas que não provocam abalos estruturais. Com isso, este movimento político e intelectual apresenta reflexões potentes deuma nova ordem civilizatória


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As “bichas pretas”, enquanto movimento político insurgente, compreende as articulações entre essas cadeias de exploração ao tentar buscar pontos de existências, fugas, criações, autoafirmação e orgulho de si perante o mundo. Por isso, recusando a neutralizar os enunciantes que escrevem esse texto, na compreensão que todo nosso arcabouço de mundo se dá pelos atravessamentos dessas marcas coloniais, não podemos falar de consciência negra, sem falar do orgulho indissociável de sermos negros e gays.

Sem pretensão de problematizar a semântica do conceito, mas considerando a potência do termo que grudou, resolvemos lançar aquilo que chamamos de “Consciência Bicha Preta” no último dia do Novembro Negro. O objetivo do texto é apresentar o movimento que sempre existiu nas fragmentações da resistência de vida de muitos homossexuais negros, mas só agora vem ganhando visibilidade e sistematização nas produções acadêmicas, artísticas, literárias, políticas e de rua.

Estamos demarcando o território do movimento queinstiga a subversão da lógica colonial de uma hipervirilidade hétero compulsória, geralmente representada no homem negro. Movimento é responsável por introduzir aspectos muito importantes na vida de jovens negros dissidentes.

Se notarmos, o “novo” movimento negro, por assim dizer, passa por mudanças radicais, sobretudo, de rupturas estéticas de uma norma heterossexual. Estaria o novo movimento negro brasileiro “enviadescendo”? E isso é positivo? Os braços pintosos de gays afeminados são importantes na luta antirracista? São as perguntas com teor provocativo que instigam a reflexão. Viemos apresentar quem são esses jovens que encontram na articulação entre ser negros e dissidentes possibilidades orgulhosas e contestativas de ser, estar e pensar.

“Da minha própria experiência acadêmica como bicha guerrilheira, posso contar das inúmeras ocasiões em que tive meu discurso intelectualmente desvalorizado em função do teor político de minhas colocações. A evocação de um saber estratégico, claramente posicionado, dinâmico e desobediente, por diversas vezes, rendeu-me conselhos sobre eleger uma atitude científica separada da minha prática política e, no subtexto, de meus próprios movimentos de vida. Como se este corpo gordo, mestiço, viado e revoltado, este cu canibal e sua política monstruosa, não tivessem lugar no âmbito da produção de conhecimento; como se este saber corpo-político não pudesse adquirir o status de saber, ou, quando muito, o de um saber menos verdadeiro que o saber científico que se supõe politicamente neutro” Mombaça, Jota. “Pode um cu mestiço falar?”, 2015[1].

MeggRayara, a primeira travesti negra a defender uma tese no Brasil, desenvolveu pesquisa sobre a vida de professores negros e gays e fez alerta sobre a matriz heterossexual de “pensar o homem negro”[2], intercruzando as subjetivação das experiências negras e das dissidentes sexuais.

Antes e depois de Doutora MeggRayara, muito se produz nas ações e estudos “bicha preta”, seja no resgate de luta do ativista negro gay sulafricano Simon Nkoli, e no deslocamento da ótica puramente humorística a Jorge Lafon. Seja nas trajetórias do Rei do Candomblé Joãozinho da Goméia[3] de Carlos Nobre ou nas expressões queers dos guetos norte americanos, chamadas de Bollroom Culture[4] de Marlon Bailey. No aprofundamento teórico e analítico da vasta produção de Osmundo Ponto[5], ou no convite de Ari Lima e Felipe Cerqueira de entender as identidades de gays negros no interior[6]. No pensamento descolonial das duplas Diásporas das Bichas Pretas[7] em Lucas Veiga e tambémser agraciado como a escrita aguda de Gabriel Sanpêra no seu livro “Fora da Cafua”.

Temos muito que aprender com as performances de rua e as experiências do cotidiano dos viados de fanfarra na Bahia de Vinícius Zacarias, as pesquisas que relacionam negritude, bicharia e currículo educacional de Kauan Almeida, das negociações de convivências escolaresentre os jovens homens negros e asêlas de Júlio Cerqueira, das afetividades e hiperssexualizações da bixa-preta nas redes sociais do Fábio Cerqueira e as vivências homoafetivas que atravessam o corpo negro gay do Juliano Pinto.


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Negritude e bicharia aqui são feitiços tecnológicos que se acoplam ao corpo para a produção de um sujeito que tem como exercício a própria reinvenção através da expressão de suas marcas. Um conjunto movediço de discursos que tentam apreender corpos tal como se represa águas, contudo, dadas as infinitas possibilidades de existências, os sujeitos contestam, negociam, resistem e reconduzem direcionamentos normalizantes e transbordam às margens.

Tecnologias ancestrais que tornam o “muro pequeno” tal como Murilo Araújo, os afetos e solidões do negro gay em Hyago Carlos e de tantos outros blogueiros nas redes, como Arthur dos Anjos, Enzio Rosa, Leandro Nascimento, sobretudo, os textos honestos e profundos de Leop Duarte. Os artivismos enegrecidos estudados por David Souza, como aqueles que param o trânsito igual ao Coletivo Afrobapho na Bahia, liderado pelo Alan Costa, Euvira que se vira nas noites paulistanas, Félix Mendonça com o vogue à brasileira e as iniciativas acolhedoras de escuta como é o Coletivo Amo Bixa Preta do Rio Janeiro. No intercâmbio de Watu MP para perceber a vida negra dissidente entre Brasil e Estados Unidos. No cênico potente dos intérpretes de Madame Satã, Denilson Tourinho e Sulivã Bispo, na musicalidade não recomendada de Caio Prado. Adensado a espiritualidade crítica de Felipe Kayodé e na ousadia do jovem José Matheus no sistema judiciário brasileiro. Na comunicação, o youtuber Samuel de Paula Gomes do Guardei no Armário que compartilha em vídeo nossas vidas.

Porém, no anúncio e ascensão restam alguns cuidados! Os perigos coloniais podem causar a forja da emancipação, já nos alerta Frantz Fanon. Sendo assim, os estudos de masculinidades negras não devem apenas representar uma ordem heteronormalizante. Bem como, a visibilidade analítica para os homens negros não podem ser reifincações do patriarcalismo. Sobretudo, é preciso considerar o caráter acadêmico que permeia de forma direta ou indireta esse movimento. Sendo assim, é preciso endereçar o olhar para as produções de dissidências negras periféricas fora do alcance do mercado LGBT, ou seja, entender as diversas estratégias de ser gay e negro no país.Ouvir as pessoas dissidentes de gênero fluido que não fazem idéia do conceito de binaridade, os viados que bancam na periferia e não se importam com isso, até os “homossexuais” que “se dão o respeito”, por que, não?

Todas essas produções insurgentes articulam de forma interseccional a vida dos homens negros dissidentes. Como o racismo e homofobia se entrecruzam e manipularam as nossas identidades e forma de agir no mundo. Homens negros gays no campo da cultura, política, arte, economia, religião. Com isso, não é nossa intenção negar os aparatos coercitivos e as violências físicas e simbólicas que operam no cotidiano dos sujeitos, mas assumir outras perspectivas, esta que não mais centrada no sujeito hegemônico ou nas estratégias pelas quais viabilizam a homofobia e o racismo, mas nas fricções que possibilitam fugas, entrecruzamentos e ginga. Afinal, “ser bicha não é só dar o cu / É também poder resistir”.

Esse deslocamento também não pressupõe papéis dados de vítima ou algoz, apenas sugere o distanciamento de uma visão essencialista que busca uma verdade absoluta sobre os sujeitos. Também, realoca a possibilidade de um corpo político constituído na/pela diferença, isto é, um corpo agonizante em constante devir que se identifica, mas, também se nega, que substitui o “ou” para o “e”, rebolando pelas fronteiras e metralhando normas, como canta a MC Linn da Quebrada :

(…)Bixapreta!/Trá-Trá-Trá-Trá/Bixa preta!/Trá-Trá-Trá-Trá-Trá/ A minha pele preta, é meu manto de coragem/ Impulsiona o movimento/ Envaidece a viadagem/ Vai desce, desce, desce/ Desce a viadagem!(…)[8]

Assim, a bicha preta a partir do seu local enunciativo provoca no adjetivo “preta” a onomatopeia de um metralhadora. Não mais é um pejorativo ou algo que se constitui como um mecanismo de constrangimento é, ao contrário, uma sonoridade que se funde à carne e produz incômodos às normas de gêneros e ao dispositivo racial, pois não apenas se faz capturar tanto pela negritude e homossexualidade, mas assimila e distorce significante e significado.

Assumir este local é gozar da razão ocidental que, via de regra, é um eufemismo para a própria voz encarnada em corpos brancos, cristãos, masculinos e burgueses, que se fez acreditar que o homem é a medida representacional da própria humanidade e com ela se assentou toda a relação entre o homem e o conhecimento, assim como a dominação. Essa razão naturalizada nas projeções epistemológicas o fez estagnar e, invariavelmente, reduzido à noção de masculinidade hegemônica, negar o atrevimento do devir, marginalizando corpos da ordem do não-heternormativo.

O Movimento“Bicha Preta não se encerra no conceito, na academia ou na rua. É um movimento ancestral, um movimento cotidiano de diversos homens negros dissidentes, criticando o endosso do heterocispatriarcalismo e, até mesmo, do arbitrário embranquecimento de nossas dissidências. Viadagem preta no campo das consciências negras brasileiras. Consciências de fortes, diversas e de resistências.

Vinícius Zacarias é Museólogo de formação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Mestrando em Ciências Sociais Pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (UFRB). Gestor Cultural na Bahia.

Kauan Almeida é mestrando em ensino e relações étnico-raciais.

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[1]MOMBAÇA, Jota. “Pode um cu mestiço falar?” [2015]. Disponível em: https://medium. com/@jotamombaca/pode-um-cu-mestico-falar-e915ed9c61ee#.yos9tcyw9. Acesso em: 21 mai. 2016.

[2]OLIVEIRA, MeggRayara Gomes de. O diabo em forma de gente:(r) existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação. 2017.

[3]NOBRE, Carlos. Gomeia João: a arte de tecer o invisível. Rio de Janeiro: Centro Portal Cultural, 2017.

[4]BAILEY, Marlon M. Butchqueensup in pumps: Gender, performance, andballroomculture in Detroit. Universityof Michigan Press, 2013.

[5]PINHO, Osmundo. Relações raciais e sexualidade. Raça novas perspectivas, p. 257, 2008.

[6]LIMA, Ari; DE ALMEIDA CERQUEIRA, Filipe. Identidade homossexual e negra em alagoinhas. Bagoas-Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 1, n. 01, 2012.

[7]VEIGA, Lucas. As diásporas da bixa preta: sobre ser negro e gay no Brasil. Tabuleiro de Letras, v. 12, n. 1, p. 77-88, 2018.

[8] Trecho da música “Bixa Preta” de Linn da Quebrada no álbum Pajubá.

Segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
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