“Como conversar com um fascista” de Márcia Tiburi continua sendo atual
Quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

“Como conversar com um fascista” de Márcia Tiburi continua sendo atual

O fortalecimento político da extrema-direita nessas eleições nos colocou de frente do fenômeno do fascismo que Márcia Tiburi apresenta. Três anos depois da primeira edição do livro “Como conversar com um fascista”(2015) podemos ter claro que ele responde grande parte dos nossos problemas. A atual conjuntura vivida no Brasil de retrocessos no campo dos direitos denota que sua superação só será possível a partir do conhecimento e compreensão dos princípios fundamentais, bem como dos nossos processos históricos. Se não centrarmos nossas análises nas particularidades da nossa transição democrática não seremos capazes de traçar ações práticas que possam contribuir para uma nova ordem.

Nesse contexto, ao tratar do fascismo, Tiburi (2015) mostra que este permite práticas arbitrárias no contexto do capitalismo e outras posturas contrárias aos interesses coletivos e ao mesmo tempo logra, a estrutura econômico-social da qual o mesmo é reflexo. Com esse processo, se apresenta diferentes elementos que atuam e condicionam visões deterministas, unilaterais, perspectivas que sustentam formas de controle social e político contra as liberdades.


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Mas afinal, o que é fascismo?

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Segundo Tiburi (2015, p.27). “Em uma política verdadeiramente democrática deveria haver lugar para todos, para vários modos de produção da existência e de subsistência que não precisassem seguir o ordenamento do capital.” Evidencia-se que, numa democracia de verdade, portanto, ninguém deve estar de fora. Porque direitos humanos e civis não têm a ver com merecê-los ou não, tem a ver com um pacto civilizatório, cuja função é assegurar condições necessárias ao bem estar social ou seja,os direitos fundamentais cumpre a tarefa de represar todo um ambiente social e político que legitima uma cultura de autoritarismos.

São muitos os exemplos, dentre tantos diários, do quanto vivemos num país desigual e de contradições. O classismo, o racismo, a homofobia atravessam quase todos os nossos espaços de socialização e nesse sentido cabe perguntar: e por que, apesar de serem expressões tão perversas e flagrantes da sociedade brasileira, elas sequer são vistas como problemas por essas pessoas que as legitima? O discurso fascista tem ganha do espaço sob o escopo do direito à liberdade de expressão, tal premissa tem sido diariamente desvirtuada e tem implicações práticas sérias no cotidiano. Esta dinâmica se traduz em ações regressivas nas condições de vida dos trabalhadores com o processo de austeridade das políticas públicas levado a cabo pelos governos neoliberais como também na destituição dos direitos humanos, das liberdades democráticas e da justiça social.


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Por que precisamos pensar sobre o fascismo?

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É importante considerar que essa forma de sociabilidade não é consequência apenas de fatores econômicos, suas determinações seguem estando no eixo da lógica das transformações socioculturais neste âmbito promovido pela cooptação dos movimentos sociais, os limites da nossa democracia, existem avanços a partir da “abertura”, mas grande parte dos traços da ditadura se mantiveram e seguem até os dias de hoje, os resultados produzidos pelo golpe de Estado de 2016 e da política de conciliação de classes.

As contribuições de Tiburi em sua obra seguem sendo atuais, ao falar que há diversos fatores constitutivos da nossa formação social que indicam a continuidade de um Estado que tende ao arbítrio e que apesar das conquistas no campo formal, a realidade brasileira nos apresenta hoje uma democracia restrita. Tiburi enfatiza que compreender as características do nosso contexto sócio histórico é de enorme importância analítica e coloca em novas bases “Somente a união em outra direção, contra o fascismo em nome da democracia, pode mudar o rumo perverso da história que se desenha hoje” ( TIBURI2015, p.51).

Pensando em tempo histórico, a respeito do avanço do conservadorismo a autora indica que “As verdades que muitos compram hoje em dia parecem baratas, mas a médio e longo prazo o preço pode ficar muito caro. Juros sociais e políticos não cessam de ser cobrados historicamente” (TIBURI, 2015, p.66). Evidencia-se, que não é só no Brasil: podemos ver os EUA de Trump, a Europa quanto ao Brexit, num contexto em que há a ascensão de movimentos fascistas, racistas e xenófobos. Movimentos iguais e crescentes, que devem ser levados a sério e barrados. Enquanto perspectiva para cenário nacional, reafirmamos que é necessário impulsionar conquistas sociais de “baixo para cima”e ampliar a articulação das mais variadas lutas sociais nesse momento contra a desconstrução do “Estado de Direito”.

Maciana de Freitas e Souza é bacharela em Serviço social pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)

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TIBURI, Márcia, Como conversar com um fascista.Rio de Janeiro, Record, 2015, p. 191.

Quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
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