Havan enquanto símbolo do próximo governo
Sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Havan enquanto símbolo do próximo governo

Arte: Caroline Oliveira Tudo isso me causa, particularmente, uma ressaca enorme. Ressaca que, na terra da estátua da liberdade original, chama-se hangover… Santa Catarina está cravejada de Havans. Se você for de Balneário Camboriú a Florianópolis, que dista uns 70 km, encontrará quatro ou cinco dessas lojas pelo caminho. A Havan se tornou uma espécie de símbolo modular do projeto econômico encabeçado por Paulo Guedes e seu poste. Economicamente, Hang é o modelo de tudo que há de melhor: é empreendedor, politicamente engajado, gera empregos e cumpre a missão magna da meritocracia como o pobre que ficou rico por esforço. Para quem compartilha da perspectiva neoliberal, a abissal diferença econômica entre Hang e um de seus tantos soldados rasos é, não só aceitável, mas também louvável. A brutal diferença econômica é amenizada com a exaltação da virtude empreendedora de Hang, que se torna misericordioso no plano social porque gera empregos. Assim é que a liberdade plena de atuação no mercado, como princípio reitor do projeto político de Bolsonaro, passará a estar, mais do que nunca, legitimada. Esse regime de tolerância em relação às diferenças de capital econômico – cada vez mais progressivas –, se estende para outros capitais simbólicos associados como o social e o cultural, como preceitua Pierre Bourdieu no livro “A Distinção”.   No entanto, esse regime de tolerância com a diferença econômica não encontra paralelo quando se trata de diferenças de ordem subjetiva, como é o caso das diferenças de gênero. Nesse terreno pantanoso para o medo dos conservadores, tudo que escapa à lógica binária tende a receber olhares enviesados e narizes tortos. Não se trata de deixar de reconhecer as capacidades de Hang, mas simplesmente de apontar a contradição do discurso eleito no que tange o tratamento da liberdade entre a dimensão econômica e aquelas ligadas à subjetividade. A genitalização do gênero, além de empobrecer o discurso da experiência humana na Terra, contraria o ideal de tolerância à diferença presente na dimensão econômica. Dito objetivamente: tolera-se facilmente discrepâncias abissais em relação ao bolso, aos currículos e às possibilidades de acesso, mas não se tolera com a mesma facilidade a diferença em relação a aspectos subjetivos e morais. É isso que pretende o próximo ministro da educação quando afirma que “quem define gênero é a natureza”.  Quando acena para a possibilidade de exigir que, nas salas de aula, se trate apenas sobre a crença dos dois gêneros naturais, o futuro ministro da educação confirma que a ganância e o conservadorismo tosco da agenda neoliberal. Esse é um verdadeiro contrassenso (malandro) do projeto político que vociferou pelo fim das ideologias partidárias nas escolas. Afinal, trocar-se-ão partidos por crenças? E tudo isso não é, enfim, inevitável ideologia? Como aponta Contardo Calligaris (Folha de São Paulo de 29/11/18), “as crianças não são burras a ponto de se engajarem sem necessidade num caminho no qual constatam, pelo bullying de cada recreio, que é árduo e sofrido” se identificar com um gênero que não pertença ao binarismo biológico. Assim como os soldados rasos do exército de Hang também não são burros a ponto de imaginar que é possível repetir, sem brilhantismo, sorte e muita ganância, o caminho de êxito empresarial daquele que é novo namoradinho econômico do Brasil. Afinal, se alguém tem liberdade para acumular montanhas de dinheiro à custa de uma nova espécie de escravizados, porque não tem a mesma liberdade para permitir que seu filho aprenda a respeitar as identidades que se formam no fundo subjetivo de cada um. Chegamos a essa obscena conclusão: tolera-se o controle que alguém exerce sobre outros corpos, como na relação patrão-empregados, mas moraliza-se a definição que cada um tem sobre o próprio corpo e a própria identidade sexual. A prevalência de um projeto de organização social sobre o outro, no campo da disputa política, antes de ser mais ou menos correto, é reflexo daquilo que se esconde no inconsciente social da aglutinação mais numerosa de pessoas que foram às urnas. Tudo isso me causa, particularmente, uma ressaca enorme. Ressaca que, na terra da estátua da liberdade original, chama-se hangover   Paulo Ferrareze Filho é doutor em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), professor de Psicologia Jurídica, advogado e psicanalista em formação.  

Leia mais: Liberalismo à brasileira: do conservadorismo ao militarismo Precisamos falar sobre o (neo)conservadorismo no Brasil O liberalismo escravocrata de João Amoêdo

 
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