O direito ao dia. O dia como direito. O dia como conquista da população trans
Segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O direito ao dia. O dia como direito. O dia como conquista da população trans

Foto: Marianne. 

Por Simony dos Anjos

 

Marianne é uma mulher linda, radiante e decidida. Filha de Oxum, do alto dos seus 31 anos, começa a nossa conversa de maneira poética: “nós, mulheres Trans, antes consideradas as mulheres-vampiras, conquistamos o direito do dia”. E isso faz todo sentido, no dia trabalhamos, estudamos, vamos ao médico, visitamos museus, andamos na rua e somos reconhecidas, direitos esses que a população trans, de modo geral, não usufrui. “Ter o dia negado, é ter a dignidade negada, pois as pessoas não querem nos ver”, complementa. Marianne de fato rompeu a aurora, ela é a única trans secretária executiva bilingue de São Paulo – que é o centro financeiro do País. É também integrante do coletivo Amapô, e representante da população trans na  Câmara de Comércio LGBT/SP, onde integra, também o Coral Câmara LGBT/SP

Nasceu em São Bernardo, mas passou a infância em São João da Boa Vista, interior de  São Paulo, sendo criada num ambiente muito conservador. Ao ser perguntada sobre como se deu conta de sua transexualidade, ela diz que, aos três anos de idade, disse para sua mãe: “Mamãe, tem algo errado aqui”, ela já sabia que era uma menina. Ao 13 anos quis ser Drag Queen, ganhou a noite muito cedo, pois era, de fato, onde podia ser Anne. Aos 19 anos, disse para a mãe que queria ser travesti, estavam no carro a caminho da faculdade e a mãe disse: “ Se você virar travesti, te expulso de casa”.

Cada uma dessas etapas foi pesada, difícil e dolorosa – como é para todas as pessoas que divergem do padrão de gênero. Falar sobre essas etapas é falar sobre conflitos, incertezas e dor. Quando uma pessoa trans começa seu processo de transição, tende a fugir da exposição, do foco. As pessoas não aceitam e, para se protegerem, habitam os lugares onde não serão percebidas – a noite.

Mari passou pela Igreja Universal do Reino de Deus, antes da transição. Foi obreiro da igreja em São João da Boa vista, mas se decepcionou. “Quando ouvi que o Bispo Edir Macedo tinha uma coleção de perfumes caríssimos, eu me decepcionei. Não quero uma religião de luxo”.  Sobre a religião, ainda complementa: “Com uma fala em um púlpito, você pode acabar com uma vida. Quando as pessoas procuram uma igreja, elas já estão destruídas, aí os pastores se aproveitam disso para discursarem ódio e desprezos contra elas, e elas sucumbem”.

Após essa fase de obreiro na IURD, Mari estudou, fez faculdade, pós graduação em gestão pública e foi analista financeira do programa “Transcidadania” da Prefeitura Municipal de São Paulo. Ela diz que sem o apoio dos pais, ela não teria chegado onde chegou. Ela reconhece que se ela não tivesse o apoio familiar, o que sobraria para ela, seria a prostituição. Ela estudou inglês, secretariado e, hoje, trabalha em uma empresa de tecnologia, como recepcionista executiva bilíngue. Para ela, o que falta à população trans é oportunidade: “se não temos nem o direito do dia, como vamos trabalhar, estudar e frequentar os espaços públicos?”. Com luta e muita resistência, isso vem mudando. Hoje, ela diz que pode andar de metrô, encontrar amigas em um café, almoçar com o marido em um restaurante. Mas há muito a fazer, há muito dia para conquistar.

Pergunto para ela se ela tem algum recado para os cristãos e ela dispara: “as pessoas não precisam ouvir ‘Jesus te ama’, elas precisam ouvir ‘eu te amo’”. As pessoas precisam de acolhimento, de oportunidades e respeito. Um Jesus que condena seus corpos, existências e a condena à marginalidade, não pode amar a população trans. Será que os cristãos podem amar a população trans?”.

A coluna (fé)ministas publica relatos de pessoas que combatem as opressões de gêneros em suas religiões, mande seu relato no e-mail: [email protected]

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

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