A democracia que violenta travestis
Terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A democracia que violenta travestis

Madrugada de 16 de outubro de 2018. Por volta das cinco horas da manhã,moradores próximos de um bar no Largo do Arouche (São Paulo, SP) ouvem uma discussão, gritos, agressões verbais. Em seguida a travesti Priscila leva várias facadas, cambaleia do bar até a porta de um hotel e cai no chão, já envolta por muito sangue; morreu a caminho do hospital. Moradores próximos ouviram alguns homens dizendo: “Bolsonaro!”, “Bolsonaro, ele sim!”[1], “Bolsonaro presidente!”, “com Bolsonaro presidente, a caça aos viados vai ser legalizada!”[2].

No dia 6 de outubro, a trans Julyanna, ex-vocalista da banda Furacão 2000 e conhecida como Garota X, subia uma passarela que passa sobre a via Dutra, no município de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, por volta das nove horas. Nesse momento alguns ambulantes dizem: “Bolsonaro vai ganhar para acabar com os veados, essa gente lixo tem que morrer”. Segundo ela mesma:

“Eu argumentei que não estava mexendo com ninguém, perguntei por que eles me chamaram de lixo e disse que mereço respeito. Foi aí que um deles pegou a barra de ferro numa barraca e começou a me agredir. Na primeira pancada eu fiquei tonta e caí. Logo depois vieram mais três, quatro homens dando socos e chutes em mim. Perdi muito sangue, mal conseguia ver direito”[3]


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Por volta das quatro horas da madrugada de 05 de novembro Luana Sousa, conhecida como Luana Trans, caminhava com uma amiga no bairro Elcione Barbalho, em Santarém (PA). Um carro passou ao lado delas e o homem do banco de trás gritou “É Bolsonaro! É Bolsonaro!”; o carro parou logo à frente, um homem desceu com um revólver gritando “É Bolsonaro!” e, em seguida, com uma coronhada, quebrou vários dentes de Luana[4].

Não se trata de casos isolados. Agressões e homicídios de travestis[5] se espalharam pelo país no período de 30 de setembro a 5 de novembro, ápice do período eleitoral, com novos ingredientes, conforme relatado pelos meios de comunicação e observatórios LGBT+. Vários outros casos poderiam ser mencionados, como a rasteira dada em Guil e o espancamento sofrido por Isabela, ambos em Belo Horizonte (MG), dentre outros, sempre com menções a Bolsonaro, fora os casos apenas suspeitos, além dos ataques a gays e lésbicas, amplamente divulgados na mídia[6].

Mesmo, em geral, tratando-se de informações fruto de matérias de mídia e relatos de vítimas e testemunhas e, portanto, podendo-se questionar a sua veracidade, não deve ser à toa que se criaram manuais e dicas de segurança para pessoas LGBT+, grupos de discussão, redes de apoio jurídico e psicológico, observatórios, acompanhamentos, relatórios e estudos, dentre outros, além da sensação de medo muito maior que a do cotidiano para esse contingente da sociedade.

Marcelo Gil, presidente da ABCD’s (Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual), afirmou, após o assassinato de uma travesti em Santo André: “Tivemos registro de 130 casos de homofobia na região, sendo 65 nos últimos 15 dias”[7].

Quer dizer que agora é tudo culpa dele, como andaram dizendo nas redes sociais? Claro que não, e aqui se remete apenas a casos em que concretamente se pronuncia o nome Bolsonaro. O problema não é Bolsonaro em si, mas o gatilho de permissividade disparado pela (até então provável) vitória de um candidato,o que fazem em nome dele e imaginando-se impunes sob algum manto protetor que emana do presidente eleito. Assistimos, desde o período eleitoral, ao destravamento dos sistemas de coerção inerentes a qualquer discurso[8]emergindo sem pudor enunciados que potencializam a já cotidiana transfobia entranhada nessa sociedade heteronormativa. 

As violências contra as travestis são parte integrante de nossa sociedade, mas o nome “Bolsonaro”nas falas é algo novo, se não fosse isso, seriam mais casos a engrossar as grotescas estatísticas, alimentadas pela naturalização de todo sofrimento das travestis. E mais, muitas dessas falas carregando ameaças, anunciando que a situação vai piorar. As travestis sempre foram vítimas das mais variadas violações de direitos. E vai piorar?

Num país como o Brasil, todos sabemos, travestis são assassinadas, espancadas e ameaçadas diariamente, geralmente fruto de transfobia. De acordo com o Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE)[9], neste ano, até 5 de dezembro, 148 travestis foram assassinadas, 55 sofreram tentativa e 76 agressões.Em que pese os avanços legais conquistados, trata-se de cotidiano de violências físicas e simbólicas que costuma começar na rejeição familiar, depois na escola, no atendimento nas instituições públicas, as empresas que lhes fecham as portas e a decorrente alternativa de sobrevivência na prostituição, com todos os seus perigos. E ainda vai piorar? A luta tem que continuar!

Voltando aos enunciados enriquecidos pelo termo “Bolsonaro”, proferidos por homens violentando e/ou assassinando travestis;embora sejam apenas alguns casos, eles não estão aí à toa, sabemos que é um transbordamento do que muitos indivíduos pensam de fato, isso é o que sentem na pele muitas pessoas LGBT+ no país. E eles nos mostram o enraizamento de um discurso que, como acontece em geral, sofre modulações (enfraquecimentos e engrossamentos) ao sabor de acontecimentos significativos, como este da eleição de um presidente que dá sensação de impunidade para algozes. A candidatura de Bolsonaro nos acorda para o fato de que,apesar de avanços, ainda reina o ódio em relação a pessoas que decidem mudar sua identidade de gênero, transpondo um limiar inaceitável para muitos, com todas as alterações físicas e performáticas decorrentes, na busca pela felicidade; como se esquecêssemos disso, ou ficasse escondido, mas, vimos que não. Está, e muito, presente.

Pensemos como um candidato (e seu nível de responsabilidade) pôde aflorar tanto sentimento contrário ao que se entende numa sociedade democrática como um avanço de direitos, para além das questões LGBT+, como em relação ao racismo, ao feminismo, aos povos indígenas, aos quilombolas, aos sem-terra,direitos trabalhistas, dentre outros, inclusive no âmbito da preservação ambiental.No entanto, discursos podem se contrapor a discursos, o fortalecimento de um pode ser enfraquecido por outro, na junção com ações efetivas de atores sociais relevantes. Nesse embate, e neste momento crucial, as falas e ações das organizações e movimentos deverão sofrer um engrossamento e fortalecimento em prol da sobrevivência das travestis numa sociedade em que tantos males elas padecem. 

Cassiano Ricardo Martines Bovo é mestre mestrado e doutor em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo  Faz parte do Conselho de Assessores Científicos Externos ao Mackenzie do Fundo Mackenzie de Pesquisa – MackPesquisa.

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[1]https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2018/10/16/travesti-e-morta-a-facadas-durante-briga-em-bar-no-centro-de sp.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=sptv&utm_content=post

[2]https://ponte.org/travesti-e-assassinada-a-facadas-no-centro-de-sp-sob-gritos-de-bolsonaro-presidente/Menu

[3]https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2018/10/5582426-ex-furacao-2000-mulher-trans-e-atacada-com-barra-de-ferro-por-apoiadores-de-bolsonaro.html#foto=1

[4]https://g1.globo.com/pa/santarem-regiao/noticia/2018/11/05/aos-gritos-de-e-bolsonaro-jovem-transgenero-e-agredida-a-coronhada-em-santarem.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=share-bar desktop&utm_campaign=share-bar&fbclid=IwAR0nOhWOqufl6nhikVMVH52QyERHCsDQQ58yYIFP_2hUXbBhQjfDjkHEDUw; https://conexaoamz.com.br/2018/11/pensei-que-fosse-morrer-diz-trangenero-agredida-em-entrevista-a-amz/

 

[5]Sem adentrar em questões conceituais e teóricas, com o termo “travestis” estou abarcando todas as configurações do universo trans, ciente da extrema generalização, mas respeitando a corriqueira utilização do termo na sociedade brasileira. 

[6]https://ponte.org/apoiadores-de-bolsonaro-realizaram-pelo-menos-50-ataques-em-todo-o-pais/

[7]https://abcdjornal.com.br/travesti-e-agredida-e-morta-em-santo-andre/. A matéria está datada de 22/10/2018.

[8]FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no College de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 24. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

 

[9]www.observatóriotrans.org. Estou desconsiderando casos envolvendo brasileiras no exterior.

Terça-feira, 11 de dezembro de 2018
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