“Se o ex-detento não tiver oportunidade, é fato que volta para o sistema prisional”
Quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

“Se o ex-detento não tiver oportunidade, é fato que volta para o sistema prisional”

Imagem: Caroline Oliveira

Karine Vieira, de 37 anos, é egressa do sistema penitenciário paulista e fundadora do Responsa, projeto que ajuda ex-internos a se inserirem no mercado de trabalho

Por Caroline Oliveira

Karine é Vieira, como as pessoas a chamam, pois seu nome completo é “super longo”. Mãe de três, uma de 18, um de 11 e outro de 5, também é esposa e filha. Aos 13 anos, trabalhou como estoquista em um shopping center. Há uns anos, ocupava-se em um bico numa papelaria que lhe rendia 25 reais por dia, um média de R$ 750,00 por mês, pouco, mas o suficiente para “viver em paz”. Depois, trabalhou em um escritório de advocacia. Seu berço vem de uma família de classe média de São Paulo. Seu pai, apesar de retraído e distante da filha, nunca lhe deixou faltar nada. Ele é formado em Direito. A mãe, rígida e exigente, virava turnos em um hospital como enfermeira. Separados desde que Karine tinha quatro anos, ela diz hoje que a família é a instituição mais importante na vida de uma criança, “pois é a primeira com quem tem contato no mundo”.

A formação acadêmica de Karine é de assistente social, faculdade que cursou com 100% de bolsa e para trabalhar com medidas socioeducativas. Dos 14 aos 29, um total de 15 anos, a formação que a constitui também se deu em diálogo com o crime. Nesse ínterim, ficou reclusa provisoriamente por seis meses no antigo cadeião Dacar IV, onde atualmente é o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros e, diferente de sua época, agora é ocupado somente por homens. Karine recebeu a acusação de associação ao crime organizado e tráfico de drogas por uma equipe do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc). Por inconsistências jurídicas, foi absolvida.

Responsa

Hoje, Karine é fundadora do Responsa, um projeto financiado pelo Instituto Ação pela Paz, da Porto Seguro, e pela Humanitas360, que funciona como uma agência de recursos humanos ao realocar egressos do sistema penitenciário no mercado de trabalho. Alguns dos parceiros para onde os ex-internos são encaminhados são as empresas Grupo Tejofran, Porto Seguro, Joaquina Brasil, Yougreen, CanCan, Civi-co, Detrilog e PanoSocial.

Ela explica grande parte das pessoas que chegam até o Responsa não teve acesso às garantias constitucionais, como educação e saúde. “Tiveram seus direitos negados”, diz. E, “se não tiver oportunidade, é fato que vai reincidir”. Por tal razão, ela explica, gerar renda é tão importante quando se fala em egressos, para que possam reorganizar suas vidas financeiramente e, só assim, pensarem e em estudos e investimentos a longo prazo.

Mensalmente, cerca de 25 pessoas são assessoradas pela iniciativa, onde conseguem contratação entre regime CLT e outros modelos. Ainda, como freelancer é uma média de 100 pessoas. Todos os que chegam até o Responsa e são encaminhados para empresas recebem um acompanhamento de seis meses a um ano, o que Karine chama de “gestão compartilhada” com a empresa. Nesse modelo, o Responsa observa e auxilia o desenvolvimento dos trabalhadores para saber se há lacunas trabalhistas entre contratantes e contratados, e, caso existam, procura saná-las.

Dentro do projeto, também há o incentivo para que ex-detentos criem seus próprios empreendimentos. “A gente tem a formação de empreendedores também. Formamos seis manicures e pedicures semana passada”, conta. Além dos empreendimentos, “a gente procura saber se eles têm vontade de retomar os estudos. Se sim, a gente aciona os parceiros que queiram fazer isso. Até porque tem vários cursos gratuitos no território, mas a gente também identifica o curso mais próximo da residência”, conta Karine.

Karine conta que a maioria dos egressos é encaminhada para trabalhos operacionais, visto que não tem um grau de qualificação profissional elevado. Lá dentro, “procuramos não tocar no tema cadeia, porque isso acaba ferindo a pessoa. Então, tentamos trazer uma outra realidade por meio de um trato mais parceiro e fazer com que a pessoa identifique outras qualidades e competências”.

O investimento ainda é pequeno e precisa de mais parceiros e parceiras. Sobre isso, empreendedora social afirma que uma das ideias é criar multiplicadores e espalhar o projeto para outros lugares do País.

Karine ficou seis meses em reclusão

O que levou Karine a trabalhar com medidas socioeducativas e ter fundado o Responsa pode ser explicado, em partes, por sua trajetória. Desde muito cedo, Karine, que morava em um bairro rodeado por favelas, viveu na rua, o seu espaço de diálogo, visto que em casa o relacionamento com a mãe não era dos melhores. Desde pequena, nunca aceitou as desigualdades sociais. “Meus amigos eram de classe média, mas também da favela. Para gente, todo mundo era igual e tinha que ser tratado como tal”.

Naquela época, Karine conta que entrou “no meio de algumas pessoas que já cometiam ilicitudes e aquilo foi se tornando natural pra mim, porque quando se faz parte de um grupo, a ideia é se tornar pertencente àquele grupo”. Sempre esteve ao lado de pessoas rígidas e experientes que lhe ensinaram o tom da prática de ilícitos. “Eu aprendi a sobreviver nessa vida com pessoas que já eram criminosas há muitos anos, não eram moleques, me ensinaram a viver numa disciplina muito reta. Por isso, eu tinha muita responsabilidade. Era diferente de uma pessoa que vendia droga na biqueira. Afinal, o crime funciona como a nossa sociedade. Dentro da cadeia, é o mesmo fluxo. É o fluxo da nossa sociedade”, diz.

Ela explica que há uns bons anos a vida no crime melhorou. Karine associa a mudança, entre outros aspectos, ao crescimento das organizações criminosas na rua. Na época em que Karine começou a praticar ilícitos, na metade da década de 90, o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior facção criminosa da América do Sul, ainda estava em uma formação incipiente e não tinha a abrangência que tem hoje.

“Eu fui presa em 2005. Fui presa porque alguém me caguetou. A polícia invadiu a minha casa. Não tinha droga dentro de casa, até porque meu trabalho era de distribuição de mercadoria. Mas a menina que morava comigo tinha coisas. Sem contar as minhas anotações, porque nem sempre o crime é perfeito, acaba deixando alguns rastros”, relata.

A tônica de responsabilidade é visível em Karine. O telefone celular a todo momento vibrava e assim, dava sinais de ali estar alguém a quem as pessoas recorrem frequentemente. No meio da entrevista, ela pede licença para atender a uma ligação. Depois, para ouvir um áudio que alardeou a entrevista: “E aí, Karine, um bom dia pra nós cheio de saúde. Deixa eu te falar, aqui é o Olavo, o serralheiro, fala comigo. Eu preciso falar com você, por gentileza. Chamar aí pelo ‘zap’, muito obrigado aí”. Diante das demandas que pipocam, Karine explica que tem trabalhado muito nos últimos tempos, motivo pelo qual não visita seu marido na penitenciária há uns dois meses. Mas também está “de saco cheio, porque não é fácil, né?”

Na cadeia, “eu morava no melhor lugar que tinha”

Do tempo que esteve em reclusão, Karine conta que, pelo seu status no crime, fazia parte do barraco da disciplina, que seria a “elite” da prisão. “Eu morava no melhor lugar que tinha. Com chuveiro quente, DVD, televisão, comia do bom e do melhor, mas porque todo mundo ali tinha dinheiro para bancar isso. É diferente de quem comia o bandeco de dentro da cadeia, que é horrível. Tinha dia que vinham misturas ali que não dava para comer. A gente pagava uma menina na cela pra cozinhar para nós. A única coisa que a gente aproveitava do bandeco quando vinha era a mistura, quando dava para aproveitar. Tinha dia que vinha carne moída, que a gente chamava de boi na lata, que era horrível. Deus do céu”, conta.

Na disciplina, o respeito deveria ser máximo entre as mulheres. E assim ainda o é. “Não pode xingar. Isso é inaceitável, dá punição. Não vai ter uma punição muito severa. Mas pelo menos um puxão de orelha e uma vergonha moralmente você vai ter. No nosso caso, a gente não podia fazer isso, porque éramos setor.”

Segundo Karine, onde o Estado não está, o crime organizado aproveita as lacunas para entrar. Inclusive levando os familiares de presidiários para visitá-los quando o Estado os coloca em lugares distantes. E, nesse sentido, “a família tem um papel fundamental na ressocialização, porque a família é a primeira instituição que qualquer ser humano tem contato. Como alguém é ressocializado sem um carinho humano, uma escuta, um toque? Porque dentro da cadeia é tudo número”.

“Meu pai foi todos os finais de semana me visitar. Na verdade, meu pai sempre foi uma pessoa muito fechada, muito seca, muito pra ele. Eu falo que o momento em que eu tive mais proximidade com o meu pai foi quando estava presa, de sentar e ter uma relação de diálogo”, relata.

Fora da penitenciária, Karine não se arrepende da trajetória que a trouxe onde está, porque é sua trajetória. “Eu aprendi muitas coisas que me tornaram o ser humano que eu sou hoje, ainda que a vida do crime não seja uma vida legal pra ninguém, porque te dá, mas tira muita coisa”, principalmente a paz. “Você pode ter o dinheiro que for, você não vai ter paz. Então, não me arrependo de ter vivido do que eu vivi, mas eu não viveria novamente.”

Quanto ao próximo governo, de Jair Bolsonaro, Karine se sente assustada com as promessas de uma política repressiva dentro do sistema carcerário. “Até mesmo o governo de São Paulo diz que a Polícia Militar vai atirar para matar”, afirma. Para ela, gerar mais confronto não é o ideal, pois isso só “vai aumentar o crime e gerar mais ódio nas pessoas, e as coisas só acontecem porque a gente gera ódio nas pessoas”.

“A falta de amor está na sociedade, tanto é que o governo eleito é reflexo da nossa sociedade. A sociedade que optou, é de onde está vindo o discurso de ódio. Eles venderam para a sociedade o que esta queria ouvir.”

 

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