Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era
Quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era

Ler os jornais e os sites de notícias nos últimos anos tem sido uma tarefa difícil até pra brasileiros de estômago preparado e forte. Nos últimos dois meses, porém, olhar os canais de mídia quase faz soar uma marcha fúnebre na cabeça. Pra lembrar Raul, dá a impressão de que o povo brasileiro, sobretudo a classe trabalhadora, vai entrando em uma estrada comprida e sem saída.

Toda a agenda econômica prometida por Bolsonaro parece prestes a virar realidade. Uma agenda econômica, diga-se de passagem, altamente rejeitada pelo povo. Mas isso não impediu a eleição de Jair, que, em um país assustado e revoltado, apostou no medo, no discurso da bala, no ódio às diferenças e em uma ampla rede ilegal de mentiras pra vencer.

Bolsonaro conseguiu eliminar qualquer chance de debates sobre propostas, pois sabia que, nesse campo, jamais venceria. Levou o embate para o campo do ódio e da mentira, onde é realmente imbatível. Conseguiu a proeza de fazer uma agenda econômica odiada pelo povo desde 2015 vencer. Não se transformou em um movimento de massas, mas minou a possibilidade de que se formasse um movimento de massas pró-trabalhadores do outro lado. Com mais uma grande abstenção, venceu na antipolítica.


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E foi assim que muitos votaram em Bolsonaro pensando que ele não seria capaz de fazer tudo o que prometeu. Já está fazendo antes de assumir…

Pra quem achou que uma nova privataria era impossível, Embraer, Infraero, Eletrobras, Petrobras, Banco do Brasil e Caixa já estão na mira segundo a própria equipe de Bolsonaro. Pra quem pensou que os ataques aos direitos trabalhistas acabaram na última Reforma, vem aí a carteira de trabalho “verde e amarela”. Pra quem pensou que o funcionalismo público estaria protegido, esperem pelo fim da estabilidade, transformando o setor público do país no maior cabide de empregos já visto, onde quem não apoiar o Governo será facilmente demitido.

O sonho de quem colocou o “Poste” Bolsonaro lá no poder vai se realizar. Como o próprio Jair disse, os empregos formais vão ficar “o mais próximo possível da informalidade”. E o artigo 7º que se cuide, pois continua não sendo poupado de críticas pelos novos Chicago Boys e, certamente, não resistiria a uma “Constituição feita por notáveis” como sonham os fardados de Mourão.

E a estrada vai ficar realmente comprida para o trabalhador, não só pela precariedade, mas pela própria duração. É que a Previdência brasileira vai sendo amplamente discutida. Tão amplamente que extrapola nossas fronteiras pra ser discutida por Eduardo Bolsonaro, Paulo Guedes e Mourão com investidores nos EUA. “É prioridade”, todos eles dizem. Os investidores norte-americanos concordam. Nossa guerra realmente é com o “Zeú”.

Mas não é só no campo trabalhista que a estrada parece piorar. Um Governo com uma agenda econômica impopular precisa de uma muleta forte para se apoiar. E, num Brasil extremamente conservador, não há muleta mais forte do que o falso moralismo daqueles para quem, “depois do carnaval, a carne é algo mortal”.


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Com a falsa promessa de “moralização” do país, aos moldes do que esse grupo político acha “moral”, é claro, tem quem aceitaria até mesmo o fim da CLT e de todos os serviços públicos. Quem paga o preço são as minorias.

Cultura negra e indígena se tornam alvos do moralismo, verdadeiras afrontas ao “macarthismo cristão” de um Presidente eleito através da propaganda de falsos pastores. Liberdade feminina e qualquer coisa fora da heterossexualidade ganham status de pecado, e o pecado, nessa “Nova República”, terá status de crime.

Está se formando um Estado que é mínimo na hora de colocar comida em sua mesa ou te levar ao médico, mas que é máximo o suficiente pra te dizer em qual Deus acreditar ou com quem você (não) deve transar.

Há uma clara determinação desse futuro Governo em minar tudo aquilo que ele considera diferente, subversivo. Não vai precisar nem ser comunista pra ser taxado como um dos “marginais vermelhos” que esse grupo político quer mandar “pra ponta da praia” e varrer do Brasil.

Projetos como o “Escola Sem Partido” ou a criminalização dos movimentos sociais pela “Lei Antiterrorismo” prometem transformar qualquer pensamento questionador ou ‘Associação de Bairro’ em inimigos nº1 do Estado.

Mas nem tudo é motivo pra desespero, pois o mundo não é feito só pelo lado de lá. Do lado de cá, quem sabe o que há lá na França (ou talvez na Hungria) não vá “mudar nossa dança”?

O avanço da direita pelo mundo, capitalizando em cima de um discurso antissistema em uma época que povos do mundo todo mostram insatisfação com a democracia burguesa, é uma realidade. Mas, seja na figura do liberal “não sou político, sou gestor”, seja na figura da truculência nazifascista de quem oferece o “autoritarismo salvador” como solução para a crise democrática, a direita, logicamente, não tem oferecido soluções para a outra grande crise que vive o mundo: a crise do capitalismo.

Chegamos num atual estágio do capitalismo em que as elites perderam a capacidade de ceder migalhas à classe trabalhadora e o único jeito de manterem seus status é aumentar o arrocho sobre essa classe. Também chegamos em um atual estágio de desigualdade extrema onde a classe trabalhadora não suportará novos arrochos por muito tempo. É o que os “Coletes Amarelos” dizem ao “Presidente dos Ricos” Macron. É o que os sindicatos, estudantes e partidos de esquerda húngaros dizem ao fascista Orbán.

Será o que diremos ao grupo político empresarial-militar de Bolsonaro quando o arrocho ainda mais forte prometido chegar? Difícil dizer. O que é certo é que a insatisfação virá e, nessa hora, a diferença entre uma inédita “primavera” ou um novo longo inverno será a nossa capacidade de mobilização.

Por isso, apesar de pensar que o momento é mais de seguirmos Belchior e perceber que a “velha roupa colorida” já não serve mais, encerro esse artigo com um trecho de “Cachorro Urubu”, do eterno Raul:

Todo jornal que eu leio

Me diz que a gente já era

Que já não é mais primavera

Oh, baby, oh baby

A gente ainda nem começou

Baby isso só vai dar certo

Se você ficar perto

Eu sou índio Sioux

Eu sou cachorro urubu

Em guerra com Zeú!

Almir Felitte é graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

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