2018 e a celebração da nossa estupidez humana
Segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

2018 e a celebração da nossa estupidez humana

No Brasil, o ano de 2018, embora tenha sido importante no fortalecimento da necessidade do “lugar de fala” (Djamila Ribeiro) e na ocorrência da maior manifestação de mulheres reunidas da história do país (#EleNão), foi um ano bastante tumultuado e ajudou a escancarar algo que, talvez, fingimos, durante muito tempo, não enxergar em nossos relacionamentos pessoais. Sabe aquele jogo de futebol camarada que terminava em muitas gargalhadas? Lembra aquele happy hour dos colegas de trabalho no final do expediente? E aquela reunião familiar de domingo? Pois é. Muitos desses eventos não terminaram bem este ano.

No ano em que muitos políticos pregaram declaradamente a intolerância, a violência, a morte e o extermínio, uma parcela significativa da população (amigos, familiares, colegas de trabalho etc.) passou a se sentir representada e autorizada a expelir o que antes era impublicável. Foi o passaporte para não esconder mais, internamente, o racismo, a misoginia, a homofobia, a LGBTfobia, a xenofobia, a aporofobia[1], a apologia à tortura e ao extermínio, a demonização do diferente, enfim, a destruição do “outro” que não é espelho.

É óbvio que tudo isso já acontecia antes e em números assustadores, mas tal prática passou a ser celebrada farta e publicamente. Não bastava mais a estupidez ser cultuada na intimidade. Era necessário “celebrar a estupidez humana”, como diz a música “Perfeição”, da banda Legião Urbana. Era preciso retirar a tampa da panela e cozinhar o “outro” para todo mundo ver. O sentimento de depenar o “outro” foi fetichizado e agregou valor para os sedentos da punição alheia.

Nessa visão distorcida, o “outro” ideologizado contém o gérmen da contaminação social e precisa ser destruído, daí a ausência de qualquer sentimento de empatia e compaixão com o “objeto” a ser anulado. Basta ter o estigma que, automaticamente, estará autorizada a eliminação, quer simbólica quer física. As mídias sociais virtuais, agitadas e assanhadas, foram o terreno fértil para essa espetacularização da agressão que contempla o sofrimento do “outro”. Foi o ato de libertação dos grilhões do politicamente correto “mimimista”.

Imagine, pois, toda essa descarga de sentimentos represados vir de alguém de quem gostamos muito? Não é fácil digerir isso. Ficou muito difícil entender como aquele clima descontraído e risonho de antes foi sustentado, durante tanto tempo, através de uma máscara pessoal e social que escondia a “banalidade do mal”, nos termos de Hannah Arendt. A emergência explícita e oportuna, sem “pudor”, dessa banalidade foi um golpe na alma. E logo a alma que, paradoxalmente, muitos vão em busca, por meio de um canal espiritual de reza ou oração em igrejas aos domingos.

Como pessoas que esbanjavam, aparentemente, tanta alegria e enorme alto-astral acabaram sendo consumidas por tanto ódio ao “outro”? Quando as máscaras caem, ficam olhares de desconfiança. Olhares que se incomodam com maquiagens. Olhares que desvelaram toda a hipocrisia encoberta. Amizades desfeitas? Só o tempo dirá. É muito doloroso pensar que aquele amigo de infância tão querido ou um familiar tão amável passou a cultivar, explicitamente, sentimentos tão assustadores de violência e eliminação do “outro”.

Tal discurso de ódio e violência coloca em xeque os supostos sinais ou indícios de “progresso moral da humanidade” dos quais Norberto Bobbio fez referência quando refletiu sobre a amplitude da discussão relacionada aos direitos do ser humano, apesar de Bobbio admitir o caráter problemático do conceito de “moral” e a imprecisão para medir o “progresso moral”[2].De qualquer forma, o eco mortífero e ensurdecedor de vozes da destruição do “outro” balança eventual zona de conforto determinista da história, reacendendo a necessária vigilância de não repetir erros do passado.

É inevitável, desse modo, não se assustar com esse discurso de ódio e violência tão próximo de nós, que nos invade como uma onda que quebra nossas ilusórias “certezas”. Dúvidas passam a surgir. Inquietações pululam na mente. Angústias navegam num mar de incertezas. Quem são, verdadeiramente, essas pessoas queridas que amamos tanto? Será se, de fato, nós as conhecemos? Em circunstâncias propícias, cairiam nas armadilhas de apoiar uma fábrica institucional de mortes similar ao nazismo, sob o pretexto de combater esse “outro” indesejável?E a todas essas perguntas é inescapável, também, um mergulho interno, pois o nosso “eu”, que tende a ter uma pretensão falsamente “purista”, deve ser incluído. Quem somos nós? A perversão é intrínseca ao ser humano?E é sintomático que esses questionamentos nos perturbem tanto no ano em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, completa 70 anos.

Nesse sentido, logo vem à lembrança a aterrorizante “Experiência de Milgram” e o apavorante “Experimento de Aprisionamento de Stanford”. E como não lembrar, também, da “normalidade” de Adolf Eichmann, um dos principais reitores do Holocausto?A propósito, Zygmunt Bauman diz que “estamos desprotegidos […] ‘indefesos ante nossa própria morbidez’. […] Ataques de sadismo e paroxismos de bestialidade podem ocorrer com qualquer um. Se Eichmann era ‘normal’, então ninguém está a priori isento de suspeita”[3].

Ora, se ninguém está livre da suspeita de cometer atrocidades – derrubando, portanto, eventual maniqueísmo pueril –, é mais angustiante ainda quando olhamos de perto essa produção escancarada do discurso de eliminação do “outro”, sobretudo quando direcionada a minorias e grupos vulneráveis (negros, quilombolas, mulheres, LGBTQIA+, povos indígenas). É torturante, assim, pensar na representação carrasca, sádica e monstruosa de queridos amigos, familiares e colegas de trabalho nessa situação contaminada pelo ódio, isto é, de quem menos esperávamos, por estarmos afetivamente vinculados. São pessoas que amamos. E isso causa uma grande perturbação psíquica, talvez como mecanismo inconsciente de defesa de nossa suposta saúde mental.

Dessa forma, causa menos incômodo procurar uma bolha confortável do pensamento, seja através da simulação do real ou da anulação da criticidade. No contexto brasileiro, muitas pessoas criaram a ilusão de um país de todos e camuflaram a realidade através da alegria fugaz do carnaval e do futebol. Assim, se no campo acadêmico inúmeras obras desconstruíram, há muito tempo, o mito da democracia racial e do pacifismo brasileiro, por outro lado, o cotidiano das pessoas ainda teima em insistir numa falsa imagem de um país de relacionamento tranquilo e pacífico entre as pessoas. Por quê? As estatísticas da violência sempre foram alarmantes.

Somos um país extremamente violento, um dos países com maior taxa de homicídio por ano, cujas vítimas, em sua maioria, são pessoas negras e pobres. Somos o país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Ocupamos o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio. Somos o país em que mais morrem ativistas na luta pela terra e pelo meio ambiente. Somos o país das Américas que mais mata defensores dos direitos humanos. Temos a polícia que mais mata e a que mais morre. Somos um país de linchamentos naturalizados.

Esses números alarmantes da violência, somados a um ambiente de guerras culturais, pânicos morais, narrativas do medo, espantalhos reforçados, foram o quadro perfeito para a situação piorar. E piorou muito em 2018. A caçada aos “inimigos” escolhidos, ou seja, aqueles que não estão projetados no mundo autointitulado da purificação do “eu/nós”, encontrou seu porto-seguro legitimador nos mais variados porta-vozes da política brasileira.

E parte disso ajuda a entender a intensificação da produção desse discurso de ódio e violência que estamos vendo em amigos, familiares e colegas de trabalho. O que fazer para nos libertarmos dessa cilada do ódio? É importante lutarmos para que os laços dessa fratura social sejam reconstruídos – através do amor, do diálogo, da criticidade, da autocrítica e da desconstrução da política demagógica –, mas não podemos ser hipócritas em não admitir que existe, sim, uma dose enorme de desconforto e estranhamento nessas relações pessoais. Nesses casos, a afetividade que nutrimos embaraça um pouco a racionalidade exigida para lidar com o problema.

Desse modo, celebrar a estupidez é algo tão estúpido que chega a ser estúpido precisar falar sobre essa própria estupidez. Mas não estamos num mundo perfeito. Conversemos e não tentemos perder a esperança, por mais difícil que isso seja, pois, em vários momentos e diferentes fases da vida, todos nós já fomos estúpidos (e continuamos sendo), além do fato de que sempre seremos imperfeitos. Mas vale o esforço de, pelo menos, tentar não ser tão estúpido e nem elevar a estupidez à categoria de elemento a ser cultuado e celebrado.

Assim, voltando à música “Perfeição” – que denuncia a estupidez humana, as mazelas sociais, o descaso político, as nossas imperfeições e trata das ambivalências do ideal de perfeição – Renato Russo cantava, na referida música, que “podemos celebrar a estupidez de quem cantou essa canção”, assim como convido você, leitor, a celebrar a estupidez de quem escreveu essa “reflexão”. Feliz 2019 e anos vindouros! Afinal, a referida canção, lançada no ano de 1993, já finalizava assim: “O amor tem sempre a porta aberta. E vem chegando a primavera. Nosso futuro recomeça. Venha que o que vem é perfeição”.

Bruno Antonio Barros Santos é defensor Público no Estado do Maranhão

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[1]Expressão criada pela filósofa espanhola, Adela Cortina, que, em apertada síntese, significa o medo e a aversão aos pobres. Além disso, a expressão “aporofobia” foi eleita, em 2017, a palavra do ano, na Espanha, pela Fundação Espanhola Urgente (Fundéu).

[2]Norberto Bobbio faz referência ao “progresso moral da humanidade” no livro “A Era dos Direitos”.

[3] BAUMAN, Zygmunt. E-book 44 Cartas do mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2011. Kindle Version. Paginação irregular.

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