A UNIFESP, a quebrada e a molecada da quebrada
Segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A UNIFESP, a quebrada e a molecada da quebrada

O bom da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – EFLCH da Universidade Federal de São Paulo é que ela está situada na região do Pimentas, uma das maiores quebradas de SP. O ruim da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – EFLCH da Universidade Federal de São Paulo é que ela está situada na região do Pimentas, uma das maiores quebradas de SP.

Mesmo a gente, que nasceu e cresceu em quebrada, passa por um processo de “desquebradização”. Natural. Automático. Afinal, passamos a frequentar ambientes cuja parcela majoritária das pessoas não são periféricas. Das que são periféricas, uma parcela minoritária se reivindica favelada. Um contraste gritante, mesmo de quem é periférico e está na faculdade, com quem vive na – e sobre tudo a – quebrada. Sempre digo que ser periférico é uma condição geográfica; ser favelado é uma opção cultural. Pois bem.

Todo ano acontece a mesma discussão sobre a molecada da região da Unifesp Guarulhos, a integração entre a universidade e a comunidade, etc. Discussão importante, pouco feita e quase sempre em momentos de crise ou de tensão. Esclarecendo rapidamente: a molecada tem que acessar o campus. A molecada tem que ter direito à educação e lazer. A molecada tem que estar ocupando aquele espaço que também é delas. Entretanto, a molecada precisa entender o que representa e o que significa a universidade. Entrar por entrar não vai ajudar em nada a vida delas.

Tenho acompanhado há quase dois anos esse drama e lembrado da minha infância e adolescência no Jardim Elisa Maria, no extremo norte de São Paulo, quando o finado Muia, o finado Kafifa, o Mailson, o Mantega, o Negão, o Weydson, o Chico, o Carlinhos, o Iury, eu e uma galera ia para o Flamínio, para a Serragem ou para a Cachoeira, respectivamente jogar bola, dar mortal, nadar – e aprontar.

Éramos apenas uma garotada preta, pobre e periférica que queria se “divertir”. Isso incluía arrumar briga com outros moleques de outras ruas ou quebradas, desobedecer qualquer autoridade que não fosse nossas mães, pais, tias ou avós e uma vez até furtar a escola. Isso mesmo! Certa vez furtamos a escola em que jogávamos bola.

Nós íamos para a Quadra, Serragem ou Cachoeira com uma mão na frente e outra atrás e essa era a graça da coisa. Íamos planejando o que faríamos para conseguir comer alguma coisa antes de voltar pra casa, depois de ir para a Quadra jogar bola, para a Serragem dar mortal ou nadar na Cachoeira.

O mais comum era a gente ir até os fundos da escola, comer amora e tretar com o caseiro. O pé de amora era em frente a casa dele. A gente falava muito palavrão e ainda achava que o fato de a escola ser pública e ele um funcionário nos dava o direito de comer amora ali e a ele o dever de nos deixar comê-las e falar palavrão em paz.

Uma vez furtamos a casa dele, por pirraça, depois de ele ter jogado água no Carlinhos por subir no telhado da casa para pegar amora e em seguida mandá-lo tomar naquele lugar depois de suas reclamações e advertências enérgicas. Evidentemente ele teve pouca habilidade para lidar com a gente. Mas o que esperar de um tiozão da quebrada, sem estudo e aparentemente sem instrução alguma, que morava numa casa velha nos fundos de uma escola provavelmente por ser a única moradia e trabalho possíveis? Pois bem.

Amora só dá no verão. Quadra, Serragem e Cachoeira eram nosso trivial de lazer – sendo as duas últimas acessíveis apenas em dias de sol. Nos dias de frio nos restava apenas a quadra. Certa vez, no frio, depois de a bola cair dentro da escola, tivemos a necessidade de buscá-la. Uma vez lá dentro, lembramos que estávamos com fome e que talvez, hipoteticamente, a escola poderia ter bola, material esportivo e comida para nós. Forçamos a porta de aço da cantina, abrimos um vão e o Carlinhos entrou. Isso aconteceu tempos antes de ele ir parar na Fundação Casa por motivos que não cabem citar nesse texto e que não tiveram nenhuma relação com o episódio.

Lembro que pegamos uma leiteira que tinha linguiça calabresa frita e que estava na geladeira com a gordura endurecida pela temperatura. Foi a melhor refeição. Achamos uma garrafa de refrigerante Sprite, umas bolachas e uns pães. Não satisfeitos ainda abrimos uma porta da escola e achamos alguns materiais esportivos e pegamos uma bomba de encher bola, uma bola e uma rede de futsal.

Tempos depois ficamos sabendo que a quadra tinha sido fechada porque a escola teria sido roubada. Mané, a gente brecou o role de todo mundo por alguns meses para comer uma porção de calabresa, tomar uma garrafa de refrigerante Sprite e levar alguns materiais esportivos, que rapidamente se perderam. O pior de tudo é que na época não nos arrependíamos de nada. Ao contrário. Tudo para nós era “o sistema” e aquilo era só desobediência, uma obrigação moral nossa.

Dias desses, em um dos vários episódios de tensão entre funcionários da Unifesp Guarulhos e a molecada da região do campus – que me lembra a minha molecada de infância – os vi xingando um dos seguranças do campus durante a acalorada discussão. Poxa, já fui filho, hoje sou pai e espero ter eternamente a consciência de favelado. Sei me colocar no lugar da molecada, do segurança e do pai que existe por trás do trabalhador. A molecada quer correr no campus, subir e descer de elevador e desobedecer aos guardas. Não são demônios nem anjos por isso. No entanto, precisamos deixar claro que isso não é integração, não é acesso à educação e ao lazer que elas têm direito e, principalmente, que essas entradas, sem planejamento, projeto ou acompanhamento efetivo, não mudarão em nada a vida delas.

A galera não periférica e não favelada da universidade tem que parar de, ou romantizar, ou bestializar o que a molecada da quebrada faz dentro e fora do campus. A molecada é inteligente, cheia de energia e ideias mal aproveitadas, desassistida pelo poder público, mas também mal-educada. Nossos universitários e universitárias precisam assistir mais o clássico filme Cidade de Deus e ver que a turma do Caixa Baixa não é ficção e existe em toda quebrada. Eu, inclusive, já fiz parte.

Igor Santos estuda história na Universidade Federal de São Paulo, em Guarulhos e também sou coordenador e professor na rede de cursinhos populares UNEafro Brasil.

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