O Brasil e a velho-nova luta de classes em 2019
Segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O Brasil e a velho-nova luta de classes em 2019

Pensar sobre as perspectivas políticas para o ano 2019, no Brasil, nos direciona a um cenário de questionamentos e inquietações. Pairam sobre nós (in)certezas quando pomos em xeque o futuro governo Bolsonaro.

Aos brasileiros que se entendem forjados /forjando-se no campo das lutas por direitos humanos e pela superação de ordens sociais desiguais, a partir do enfrentamento radical dos privilégios de classe,dos preconceitos e das violências diversas, cabem reflexões e previsões nem um pouco otimistas quando consideramos a trajetória política do presidente eleito,bem como o seu repertório discursivo com defesas machistas, racistas, LGBTfóbicas, contrário às pauta ambientais, aos assentamentos e demarcações indígenas e, sobretudo, no que se refere às propostas de medidas econômicas austeras já sinalizadas por sua equipe de transição.

Trata-se de um contexto de incertezas quando pensamos as potencialidades e desdobramentos possíveis por parte desse novo governo; por outro lado, também é um contexto de possibilidades no tocante à organização social para envidar esforços na resistência e oposição às medidas econômicas duras e posicionamentos intolerantes que porventura sejam propostas pelo governo federal.

Nesse sentido, proponho um enfoque particular no (re)arranjo social pelo ativismo em defesa do enfrentamento dos discursos e interpelações neoconservadoras, entrecruzado com a organização em torno da “velha” bandeira da luta de classes e do combate ao estado-mínimo neoliberal.  


Primeiramente, destaco que esse chamamento não se propõe a ir de encontro a categorias centrais para pautas contemporâneas, tais como:identidade, diferença e cultura. Afinal, quando reflito acerca de onde me situo enquanto sujeito intelectual e militante, reitero a inscrição no campo das lutas para além do marxismo. Sou um militante dos direitos humanos e assumo a crítica aos determinismos sociais frente ao sujeito e aos reducionismos econômicos e culturais.

Na medida que proponho essa articulação ou costura política entre a luta de classes e as lutas identitárias que afirmam as diferenças, não implica negar nossa postura política, contudo, também não é negar cenários contingentes de possíveis rearranjos pela disputa com projetos liberais, quando ponderamos acerca dos grupos políticos por trás do governo Bolsonaro: grupos empresariais e cristãos fundamentalistas.

Essa mobilização pela organização em torno da luta de classes e enfrentamento do estado-mínimo neoliberal não se propõe a negar a perversidade, os riscos e perdas potenciais para mulheres, negros, indígenas, LGBT e etc, quando nos deparamos com projetos conservadores que propõem vetos ou cerceamentos à escola e aos educadores ( Escola Sem Partido, por exemplo), ou às censuras e proposições que porventura advenham do ‘Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos’ ou de outros setores governamentais.

 Por outro lado, proponho um olhar especial ao fomento de grupos empresariais (inclusive daqueles fundamentalistas cristãos, capitaneado pela Rede Record) ao projeto de poder do Bolsonaro. A quem interessa uma escola partida, com um currículo tecnicista, voltado para uma grande ampliação da carga-horária profissionalizante, retirando tempo escolar das discussões humanistas, das reflexões crítico-sociais de disciplinas como história, geografia e filosofia? A quem interessa um ensino básico a distância, diminuindo número de escolas, professores e, desse modo, gastos estatais? Quem se beneficia com a retirada de orçamentos e cortes de investimentos para políticas afirmativas, sociais e deslocamento desses recursos para o setor econômico? Quem tira vantagem com desapropriação de terra indígena e frouxidão nas legislações de enfrentamento aos desmatamentos, exploração de terra e afins?

Coadunamos com Rolnik(2018) quando ela reitera a relação entre os discursos conservadores e/ou fascistas e os interesses empresariais. Segundo Rolnik, o capitalismo financeirizado precisa dessas subjetividades rudes no poder. São como seus capangas que se incumbirão do trabalho sujo imprescindível para a sustentação de um Estado neoliberal: destruir todas as conquistas democráticas e republicanas, dissolver seu imaginário e erradicar da cena seus protagonistas, entre os quais, prioritariamente, as esquerdas em todos os seus matizes (ROLNIK, 2018, p. 148).

Não há fascismo que se consolide sem o sustento do capital. É um jogo com início e hora marcada para acabar. Assim, quando for conveniente, quando todas as medidas econômicas austeras foram aprovadas, a ‘idiotização’ estimulada pelas redes sociais e suas fakenews terá hora para acabar, perderá a valia; o mito deixará de ser mito, parecerá um idiota em meios às mídias, os discursos jornalísticos e do judiciário trarão cenários de corrupção por parte do presidente eleito. Ele, por sua vez, não sai perdendo no jogo. Sairá no lucro, terá um patrimônio “misteriosamente” ampliado, ao longo dos anos que esse mandato se sustentar. É o mesmo jogo nos Estados Unidos com o Donald Trump, assim como foi noutros espaços-tempo.

Nem iniciou seu governo, Bolsonaro e sua equipe de transição já aposta numa proposta de reforma da previdência desigual , que prejudica aposentados e a classe média (mantendo benefícios dos ricos, judiciário e militares) ; aponta para privatização de setores ou atividades fins ( com o aceno, por exemplo, para o desmonte das universidades públicas) ; sugere a retirada de direitos trabalhistas como 13º salário ou a retirada do ministério do trabalho; aponta para medidas que ampliam a terceirização e o desmonte do servidorismo público e etc.

Por mais danosas que as pautas fascistas sejam, elas ainda conseguem aglutinar setores antagônicos na luta antifascista. Não nos é espantoso agregar Raquel Sherazade ou Miriam Leitão no combate ao machismo e à tortura, entretanto, é quase impossível aglutinar setores economicamente privilegiados em torno da luta de classes. Quanto mais esses preconceitos e discursos de ódio circulam no debate, ‘saem do armário’, mais frágeis e possíveis de desestabilização eles se tornam. Mais antagonismos se reúnem em torno de contradiscursos e das reações anti-hegemônicas. Não é fácil instaurar uma ordem social fascista.

Por isso, insistamos, agreguemos forças com sindicatos e partidos políticos, reunamos os coletivos e persistamos em defesa do fortalecimento das pautas dos trabalhadores. Elas perpassam as dimensões do trabalho, atingindo o bem-estar comum, a sanidade mental, os direitos humanos e o Índice de Desenvolvimento Humano. Não obstante aos exemplos de situações de caos instaurado a partir de medidas econômicas rígidas, relembremos a crise nos últimos 03 anos no estado do Rio de Janeiro.

Enquanto a questão econômica e suas desigualdades for uma pauta apenas de sindicatos, uma travesti que vivencia a violência transfóbica, também está arriscada a não ter direitos à uma escola de qualidade e ao mercado de trabalho (o que amplia ou reforça o espectro dessa mesma transfobia). Enquanto a luta de professores contra o Escola Sem Partido for apenas dos professores e não dos sindicatos e demais movimentos sociais, a manutenção ideológica da dominação e subalternização econômica e cultural se firmará enquanto statusquo. Enquanto os sindicatos não agregarem a pauta das diferenças, as classes não terão forças para a luta. O comodismo ou conformidade do “cada um no seu quadrado” soa enquanto um cinismo político, bem como desorganiza e enfraquece a luta. Trabalhadores e ativistas, uni-vos!     *Doutorando em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Membro da Comissão Dom Helder Câmara de Direitos Humanos da UFPE.

Luciano Freitas Filho é doutorando em Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ e membro da Comissão Dom Helder Câmara de Direitos Humanos da UFPE. 

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