Quanto tempo é de visita, qual roupa devo vestir
Quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Quanto tempo é de visita, qual roupa devo vestir

Arte: obra original de Mubat Dohvoma (modificada para o template desta publicação).

 

Fui criada em uma família muito tradicional, tenho 24 anos, casada há 5 anos, mãe do Davi Miguel, esposa do Pablo, que se encontra custodiado na Casa de Custódia de são Jose dos Pinhais, município do Estado do Paraná. Ainda hoje enfrento o preconceito da “mulher do bandido”.

Bom, minha vida começou a muda a partir do dia 12 de agosto de 2014, quando meu marido foi preso pela primeira vez, meu filho tinha somente seis dias de vida, e eu apenas 20 anos, até que no dia 6 de janeiro de 2015, recebi a notícia que ele seria transferido para o Complexo Penitenciário de Piraquara. Logo vieram as incertezas, as dúvidas, “Como será que é lá? Quanto tempo é de visita, qual roupa devo vestir? Mais uma descoberta que pra uma garota de 20 anos é muitas vezes perturbadora, sempre me faço aquela pergunta até onde o amor pode nos levar? Até onde eu sou capaz de suportar todas estas duvidas e sofrimento por uma pessoa que neste momento não vê nenhuma luz no fim do túnel e que incansavelmente esperava por mim em toda a visita, nem que seja somente a minha singela presença.

Nesta incansável luta, eu precisava de um advogado. Naquela época, não sabia sequer qual era o trabalho de um advogado, muito menos o que seria um Habeas Corpus, ou que dirá uma sentença. Eis que minha curiosidade começo a aflorar, foi  ai que eu comecei minhas incansáveis pesquisas no famoso Google, sobre processos, consultas e diversos temas do mundo jurídico, ao qual naquele momento eu já fazia parte. Como mencionei, naquela época meu marido tinha advogada, que inclusive é minha prima, muitos advogados trabalham de uma forma estranha, se é que posso me referir desta maneira, não dão informações aos seus clientes, só passam um resumo do que está acontecendo e muitas das vezes nem te respondem e você que morra com a sua curiosidade.

Os dias foram se passando, eu logo descobri como entrar no sistema de consulta de processos usados aqui no meu Estado e minhas pesquisas não pararam, fui aprendendo cada dia mais, me interessando de fato por um mundo muito distante do que eu vivia, já havia se passado 1 ano da prisão do meu marido, um dia sentada em minha cama parei e pensei: vou fazer faculdade de Direito. Foi ai que minha alma despertou, foi ai que eu descobri o que eu queria ser quando crescer, foi ai que eu me dei conta de que através do erro do meu marido eu descobri um dos amores da minha vida, o Direito.

Tive que terminar meu ensino médio para poder dar entrada na faculdade, e fui à luta, terminei meus estudos, hoje eu sou a “mulher do bandido” que tem ensino médio completo, hoje eu sou a caloura da Faculdade, do curso de Direito do ano de 2019. É impossível explicar a alegria que sinto em saber que uma simples ideia, através de um erro de uma pessoa tão amada por mim, me fez descobrir que eu poderia ser quem eu quisesse ser, me fez ir atrás de um futuro melhor pra mim, até mesmo para ele e nosso filho, para nossa família.

Atualmente, trabalho em um escritório de advocacia, localizado no Bairro Rebouças em Curitiba, neste 1 ano e três meses sendo a estagiaria do Doutor Divalmiro Pereira, que inclusive é advogado do meu marido, e é meu professor não somente de carreira, mas também de vida. Hoje eu sou a promessa de ser uma grande advogada, e quem sabe uma futura juíza de direito.

Obrigada a todos que acreditam em mim, minha família, minha mãe, meus colegas de escritório, meus amigos, nos vemos em 2023 na minha formatura, a tão sonhada, e que em breve irá se realizar se Deus quiser.

Pablo, ai aonde você está neste momento, sei que talvez não vai ler este meu relato, mas quero que saiba que sou imensamente grata por você existir, obrigada por tudo meu amor.

Quero dizer a todos os familiares de pessoas custodiadas, que sigam os seus sonhos, sejam aquilo que vocês querem ser e jamais parem de viver.

De uma mulher de preso e estudante de direito…

Quatro Barras, 30 de Dezembro de 2018.

Giseli Rossi

Carta enviada à Redação do Justificando e publicada na íntegra. 


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Quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
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