Cinema negro, afrofuturismo e direitos humanos: reimaginando passados para reinventar futuros
Segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Cinema negro, afrofuturismo e direitos humanos: reimaginando passados para reinventar futuros

Imagem: cena do filme O Papel e o Mar (2010).

Por Marco Aurélio da Conceição Correa

 

Democracia em tempos de caos do humanismo

“Direitos humanos para humanos direitos”. É a lógica que perpassa a cabeça de muitos brasileiros atualmente. A era do humanismo está terminando, afirmava o filósofo negro camaronês Achille Mbembe já no ano de 2016. Se cada vez mais se questiona a total liberdade de se expressar, como pode se garantir os direitos democráticos de uma sociedade tão diversa e intolerante?

A ideia de uma democracia digna que garanta devidamente os direitos civis, sociais, culturais e principalmente humanos é difícil de ser concebida quando percebemos a agravante realidade da desigualdade brasileira: onde poucos tem muito e muitos tem pouco.

Não pensemos aqui no conceito vazio de igualdade que beira a utopia, mas sim num conceito – talvez igualmente utópico – de um constante movimento de equilibração entre as diferenças, pois são estas que nos fazem ser o que somos. Esta equidade no desequilibro, como aponta Glissant com sua ideia de caos-mundo:

“No encontro planetário das culturas que vivenciamos como se fosse um caos, temos a impressão de ter ficado sem referências. Por toda a parte, para onde voltamos os olhos vemos catástrofe e agonia.

[…] Tenhamos a força imaginária e utópica de conceber que ele não significa o caos apocalíptico dos fins de mundo. O caos é belo quando concebemos todos os seus elementos como igualmente necessários.

No encontro das culturas do mundo, precisamos ter a força imaginária de conceber todas as culturas como agentes de unidade e diversidades libertadoras, ao mesmo tempo. É por isso que reclamo para todos o direito à opacidade” (2005, p. 85-86).

A democracia por excelência seria então o equilíbrio caótico entre todas estas diferenças em conflitos e em contato. Porém, para seu acontecimento seria necessário que todas as diferenças fossem vistas como contribuintes, o que não acontece em uma sociedade de hierarquias de diferenças, onde a desigualdade reina.

Infelizmente não é possível se pensar na desigualdade brasileira sem fazer um recorte racial, já que a grande maioria da população negra está entre os menos favorecidos. Sabemos que esta desigualdade está nos alicerces que fundam a sociedade brasileira: o holocausto racial jamais interrompido e nunca publicamente confessado, sequer reparado (JESUS, 2017) da escravização negro africana.

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Se na democracia à brasileira negras e negros não eram cidadãos de fato no exercício democrático, se suas vozes, visões de mundo e manifestações estéticas não foram tidas como dignas outrora, o que nos restou? Sonhar e imaginar o mundo, através da marginalidade forçada, por tempos melhores.

Esta posição marginal talvez seja a melhor posição para se pensar proposições a situações de extrema complexidade, da mesma forma que diz o popular “quem vê de fora, vê melhor”, mas também como definiu bell hooks “ao viver como vivíamos, na margem, acabamos desenvolvendo uma forma particular de ver a realidade. Olhávamos tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora… compreendíamos ambos” (hooks, 1984, vii apud COLLINS, 2016, p. 100). A marginalização não deve acontecer somente de forma forçada, deve proporcionar a possibilidade de adentrar novamente ao centro da cena, o direito de ir e vir.

Talvez o melhor sobre essa ideia de outsider within seja a possibilidade também de olharmos para nós mesmos, perceber o que possuímos para contribuir na arena da democracia, mostrando que além de as personas negras também serem cidadãs na democracia, existe todo um legado histórico nosso a ser recordado e descoberto.

Com estas considerações, penso sobre toda a história que nos foi velada, não só a longínqua idílica história de uma África pomposa, mas também as pequenas histórias do cotidiano, casos corriqueiros de marginalidade auto imposta e de resistência. Não somente memoráveis ações de disrupções criativas e culturais como, or exemplo, no caso do samba, mas de pequenos acontecimentos, pequenos encontros que podem, poderiam ou poderão ter acontecido, mas também da possibilidade de reimaginar, de criar que sempre foi impossibilitada a pessoas negras.

Afrofuturismo, reinventar passados e reimaginar futuros

A arte do criar, a inventividade é um estado de luxo e privilégio para grupos sociais que lutam pelos seus direitos civis e sua subsistência, mas se não fosse a imaginação e coragem de sonhar, que legados teríamos hoje dos povos que resistiram ao genocídio e ao epistemicídio?

É aí onde entra a ideia do afrofuturismo, que é um movimento ético-estético de invenção artística e política que reivindica um futuro negro, no melhor sentido do termo. Como nas palavras de Ytasha Womack, o afrofuturismo é: “uma reelaboração total do passado e uma especulação do futuro repleta de críticas culturais […], uma interseção entre a imaginação, a tecnologia, o futuro e a liberação” (Womack, 2015, 30 apud FREITAS; MESSIAS, 2018, p. 408).

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Assim, engana-se pensar que o afrofuturismo estaria apenas relacionado a um futuro utópico ou distópico. O afrofuturismo é a forma de inventar o inimaginável, brincar com o passado, reinvidicar um futuro que novamente nos é recusado. Se vivemos tempos cada vez mais pessimistas e desenperançosos, o afrofuturismo pode ser uma forma de nos potencializar para outras experiências, não somente na visão utópica, mas de potencializar um presente de mudanças, que proporcione um futuro de direitos e deveres garantidos para a população negra mundial.

Encontramos uma considerável literatura afro-estadunidense sobre o afrofuturismo, muito calcada neste posicionamento de um futuro quase cyberpunk, o que não é um problema: a própria liberdade de literalizar, de narrativizar para uma pessoa negra é um ato do afrofuturismo.

O movimento de insurgência dos cinemas negros é também uma das representações do afrofuturismo. Os cinemas negros recriam constantemente narrativas antes negadas e/ou invisibilizadas que agora tingem de melanina telas e salas de cinema mundo a fora. Exemplos não faltam, desde o onirismo pós-colonial de Touki Bouki, a experimentação sci-fi de Pumzi no continente africano; no subversivo blaxplotaition de sweet, no reinado de Wakanda do Pantera Negra e até no sucesso recente Infiltrados na Klan de Spike Lee. Imaginar futuros, reinventar presentes e trazer à tona passados velados é uma ação estética e política do afrofuturismo. Afrofuturismo é não se contentar com o agora, é o devir em direção a outro futuro.

Cinema negro brasileiro na luta pelos direitos humanos

No contexto brasileiro, o cenário é mais caótico, no mal sentido da palavra. O levante do cinema negro dá medo porque ele deixa a mostra a cicatriz racial brasileira, bota o dedo na ferida e promove a cura destas chagas coloniais. Cada vez é maior a peleja para se justificar que cultura não é um privilégio, mas sim um direito. O cinema negro através de suas imagens, narrativas e sons vem desde Zózimo Bulbul buscando reivindicar os direitos sociais, civis e culturais de negras e negros brasileiros.

Se nossa humanidade é recusada como forma de garantir os direitos humanos da população negra, tentamos garantir ela através de ações políticas e sociais que promovam a cidadania de pessoas que não são garantidas. Não que o cinema, a arte e a cultura irão garantir comida na mesa, carteira assinada e sorriso no rosto, mas são formas subversivas de se lidar sorrateiramente contra um aparato que nos nega a humanidade – devolvendo a possibilidade de sonhar, imaginar e reinventar um mundo da mesma forma que nossos ancestrais fizeram. O afrofuturismo é o movimento em direção à democracia, é a constante luta pelos direitos de ser humano.

“A luta antirracismo pressupõe o combate das estruturas que sustentam o legado colonial-escravista, incrustado em um modelo de modernidade que além de racista é sexista, cis/heteronormativo e capitalista. Enquanto vigorar o modelo de produção e apropriação de corpos construído sob a lógica da desumanização e do descarte de seres humanos, formas de hierarquização de pessoas continuarão a ser (re)produzidas e naturalizadas. Contra tudo isso, renovam-se as apostas na política, no direito construído a partir da zona do não ser e na convivência intercultural para a construção de uma realidade livre e concretamente democrática” (PIRES, 2018, s/p).

É uma forma de reimaginar o passado, como o fictício encontro entre as duas grandes personalidades de Carolina Maria de Jesus e João Cândido em O Papel e o Mar (2010). Recordando duas personas que lutaram pelos direitos de uma população excluída e marginalizada, voltando à um passado inimaginável para se transformar o presente e garantindo nossos direitos no futuro, no melhor estilo sankofa.

É criar com a distopia e criticar os pessimismos com Chico (2010), que é uma distopia do presente que através da fabulação criticas assuntos atuais, como “como a redução da maioridade penal, o encarceramento em massa da população pobre e negra e o regime de exceção policial nas periferias urbanas”. Como um Ícaro afro-brasileiro, o menino voa em sua pipa, preso nos cabrestos das correntes do racismo.  Caso parecido com o novo livro ainda  a ser lançado de Ana Maria Gonçalves, “Quem é Josenildo?”, em uma São Paulo em 2064. Que faz previsões de um futuro possível mas indesejado nos alertando de todas as cautelas e atenções que devemos ter evitarmos a barbárie e o genocídio.

Afrofuturismo é Centro Afro Carioca, é APAN, é FICINE, é CAN, é Afroflix, é Dogma feijoada, é Zózimo Bulbul, é Adélia Sampaio, é André Novais, é Glenda Nicácio, é Antonio Pitanga, é Grace Passô, é parceria, é coletivo, é possibilidade, é uma arma e um afrontamento ao racismo estético e institucional brasileiro.

O afrofuturismo é se aquilombar, no mesmo princípio do quilombismo de abdias nascimento, é propor alternativas para um cenário teoricamente sem saídas, é garantir o afeto e a humanidade daqueles que não as possuem, é lutar pelos direitos civis e políticos dos seus, é garantir o sustento e a existência daqueles que estão ameaçados, é reimaginar passados e reinventar futuros.

Marco Aurélio da Conceição Correa é graduado em pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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Notas:

[1] GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Trad. Enilce Albergaria Rocha. Juiz de Fora: UFJF, 2005.
[2] JESUS, Fernando Santos de. O negro no livro paradidático. Rio de Janeiro: Gramma, 2017.
[3] COLLINS, Patricia Hill. Aprendendo com a outsider within*: a significação sociológica do pensamento feminista negro. Revista Sociedade e Estado – Volume 31 Número 1 Janeiro/Abril 2016.
[4] FREITAS, Kênia; MESSIAS, José. O futuro será negro ou não será: Afrofuturismo versus Afropessimismo – as distopias do presente. Imagofagia. Nº17. 2018.
[5] PIRES, Thula. Racializando o debate sobre direitos humanos – Limites e possibilidades da criminalização do racismo no Brasil. Revista SUR ed. 28. Dez, 2018.
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