A infância como bandeira da política conservadora no Brasil
Terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A infância como bandeira da política conservadora no Brasil

Imagem: detalhe de cartaz de 1940 utilizado como propaganda política por Getúlio Vargas.

Por Monique Roecker Lazarin

 

Começava 2019 e eu via uma criança, na vivência de sua infância, não se conformar à função atribuída à cadeira de praia: colocou-a no mar e sentou-se inquieta; passados alguns instantes esticou as pernas, fazendo da cadeira um objeto que lhe deixasse flutuar sobre as ondas que passavam por baixo. Mas a cadeira tinha mais potência: sentou-se virado, com as pernas cruzadas e a barriga voltada ao encosto, contemplando a imensidão do mar e dos fluxos de água que vinham em sua direção.

Aos poucos foi alargando ainda mais a imaginação, ficou de cócoras e, pouco tempo depois, descobriu que tal objeto não tinha limites: experimentou-o de inúmeras formas, dançou de pé nos braços da  cadeira, ergueu as mãos ao alto, como em contemplação, tentou equilibrar-se nela com apoio das mãos jogando os pés ao alto… aquilo me fez perceber que uma das grandes capacidades da criança é a de inventar e reiventar o que parece estar dado.

A inquietação do menino foi ao encontro de minhas inquietações. Estava tomando posse um governo que utilizou como uma de suas alavancas o discurso de proteção da infância – inclusive, o próprio pronunciamento proferido naquele dia deixava explícito que uma das áreas de combate seria contra a “ideologização de nossas crianças”. 

A fala se insere no contexto do Brasil contemporâneo em que existe toda uma rede de ações cuja pauta vem sendo a proteção da infância de forma conservadora, inclusive criticando o estatuto que de forma pioneria no Brasil buscou garantir em lei os direitos da Criança e do Adolescente [1]. O que estaria causando tal mal estar em relação à infância atual a ponto de torná-la bandeira, uma pauta em disputa? Que infância é essa que se diz ser necessário proteger? Perceba que aqui não é só o termo criança – pessoas físicas, atores sociais – que se utiliza; se emprega, ao contrário, a palavra infância, um conceito, uma ideia.

Nestes discursos a infância vem sendo tomada como uma norma moral, a ditar o que deve ser a primeira fase da vida. Tal norma é concebida na definição de infância enquanto etapa que precisaria de proteção contra tudo o que há de nocivo no mundo e que deve, para tanto, ter todo seu conteúdo pré-determinado e limitado (vide o projeto Escola sem Partido).

Mas talvez, antes de discutir infância, há que se descortinar o que está por trás ainda desse dito cuidado: não é sobre infância unicamente que se fala, é sobre um projeto de nação, de vida, que segrega as diversidades. Nesse sentido, parece não haver contradição entre infância e violência, (como incentivar o famigerado gesto de representar uma arma com as mãos). Muito pior, ao contrário, é ensinar sobre respeito às diversidades sexuais (como o debate sobre o falacioso kit gay).

Está aí umas das maiores mostras da incongruência do que se quer formar enquanto infância: nela não cabem conteúdos sobre diversidade sexual, mas cabem conteúdos de violência. Não nos enganemos, a proteção da infância não pode ser pauta para justificação de preconceitos. A proteção da infância passa por assumir o respeito e a diversidade: não é formar uma criança ideal, mas incluir e respeitar a pluralidade existente.

Estamos em frente a discursos que não querem aceitar que as crianças podem fazer parte de mudanças, que elas passaram por mudanças, que conseguem apreender um número enorme e diverso de conteúdo: afinal, são sujeitos ativos na construção de suas sociabilidades. Parecem querer estagnar, limitar e retroceder o conceito de infância para aquém da complexidade que as crianças realmente possuem – e o conceito de infância fica, assim, descolado da realidade.

É por isso que a infância se tornou uma pauta tão grande de movimentos reacionários: porque ela mudou e tal mudança não é aceita. Buscam um conceito de infância que condiga com uma sociedade em que não se discuta e problematize as desigualdade sociais e cujo projeto não é de coexistência das diversidades, mas de conformação às regras de vida arbitrariamente impostas ou sanção àqueles que não se submeterem a tal projeto.

Mas, só conseguiremos verdadeiramente pensar em proteção das crianças quando revisitarmos esse conceito tomado pelo conservadorismo, prestando atenção mais nas próprias crianças do que em um ideal de infância.

Afinal, há que se considerar que essa disputa política e moral que utiliza o campo da infância esbarra na realidade empírica, porque as crianças aprendem e reiventam: reiventam a função da cadeira, reinventam a própria infância.

Monique Roecker Lazarin é Mestranda em Sociologia pela UFSCar. Graduada em Ciências Sociais pela UFRGS. Pesquisadora na área da Sociologia da Infância.

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Referencias:

[1] https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-diz-que-eca-deve-ser-rasgado-jogado-na-latrina-23006248.

Terça-feira, 15 de janeiro de 2019
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