A mamata está só começando
Quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A mamata está só começando

Imagem: montagem com a foto original de Alexander JE Bradley. 

Por Almir Felitte

 

“Acabou a mamata”. Se você usa a internet habitualmente, são grandes as chances de já ter esbarrado nessa frase por aí. Entoada pelos seguidores do Presidente eleito como argumento pra quase tudo (pra algumas coisas, arminha com as mãos já basta), ela virou um mantra simbólico da apropriação do discurso “antissistema” por Bolsonaro durante sua campanha.

Porém, quando se é apenas um “poste” de grupos de interesse poderosos como ruralistas, fundamentalistas, rentistas, militares e o capital estrangeiro, uma vez no poder, fica difícil manter esse discurso antissistemático de combater “tudo isso que tá aí, tá ok?”. Mas o que ninguém esperava, nem mesmo a oposição mais ferrenha, é que esse discurso cairia de forma tão rápida e baixa.

Ao que parece, a tal da “mamata” está só começando. E tem pra todos os “amigos do rei”…

De todos os grupos de interesse donos do “poste” Jair, porém, nenhum está se agarrando mais nas “tetas” dessa mamata do que o clã militar. Só entre os 22 Ministros, 6 homens de farda já garantiram seus carguinhos. Mas não para por aí. Aliás, é a partir daqui que começa a ficar pior.

O caso mais recente de “mamata” aos colegas de caserna se deu na Petrobras. Bolsonaro resolveu nomear seu amigo, Capitão Carlos Victor Nagem, para uma gerência na Petrobras. Mas o Capitão Nagem já galgava posições “políticas” há muito tempo. Sem sucesso pelo PSC nas eleições de 2002 e 2016 (nessa, com apoio de Bolsonaro), Nagem finalmente atingiu seu sonho político quando o “amigo particular” Jair virou Presidente do país.

Mas esse nem chega a ser o caso mais descarado de “mamata” no Governo. Seu vice conseguiu fazer pior. A ascensão meteórica do filho do General Mourão no Banco do Brasil é realmente um exemplo de sucesso. O “filho prodígio” acaba de ser nomeado assessor do novo Presidente do BB nomeado por Bolsonaro, Rubem Novaes. Num caso de absoluta coincidência com a chegada de seu pai ao poder, Antônio Mourão verá seu salário triplicar por “puro mérito”. E “morreu esse assunto”, já disse o General.

E vem mais cargo pra homem de farda por aí. Se bem que, nesse caso, a coisa tá mais pra censura do que pra “mamata”. Ou seria um pouco dos dois? É que o Coronel da reserva Sebastião Vitalino da Silva é cotado para assumir a coordenação de materiais didáticos da SEB e do MEC. Antes mesmo de nomeado, aliás, ele já foi visto cumprindo expediente por lá. Mesmo sem qualquer experiência em educação básica, o Coronel pode ficar responsável pela seleção dos livros didáticos a serem distribuídos nas escolas. Uma “mamata” com ares sombrios.

Mas todas essas nomeações não são novidades em se tratando de um Governo de Jair. É que a família Bolsonaro possui uma certa tradição em transformar a máquina pública em uma máquina de agrados, favores e transações suspeitas. Entre a Wal do Açaí e toda a trama envolvendo a família Queiroz, a atuação política da família Bolsonaro é recheada de funcionários fantasmas, transferências de dinheiro em quantias inexplicáveis e distribuição de cargos de uma maneira, vamos dizer, nada republicana.

Sobre isso, não custa perguntar. Quando Queiroz sofrerá condução coercitiva para depor? Esse instituto foi abolido no Brasil?

Porém, é preciso dizer que nem só de cargos vive a “mamata”. A lista de possíveis privilégios conquistados através do aparelhamento da máquina pública é extensa demais pra Bolsonaro ficar só nas nomeações suspeitas.

O que dizer, por exemplo, da anulação da multa, em dezembro, que Bolsonaro levou do Ibama quando realizava pesca ilegal em 2012? A estória toda, aliás, é simbólica de como Bolsonaro pensa a coisa pública. Na ocasião da infração, Bolsonaro chegou a ligar para o então Ministro da Pesca, Luiz Sérgio, pra tentar se livrar da multa, mas não teve sucesso.

Aliás, essa estória da pesca fica tão pior que é preciso conta-la até o final. Ou melhor, desde o começo. É que, dois anos antes de ser pego no flagra, então deputado, Bolsonaro usou toda a máquina da Câmara para pedir esclarecimentos sobre a possibilidade de pesca na região de Angra. Não contente em usar um cargo público da mais alta importância para tirar dúvidas individuais e nada importantes, dois anos depois, mesmo com as informações de que a prática era ilegal, Bolsonaro foi pego realizando a pesca proibida em Angra. Seria cômico, não vestisse nossa faixa presidencial verde e amarela.

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Um ato, porém, que não espanta nada diante de uma pessoa que, também enquanto deputado, recebia auxílio-moradia mesmo sendo dono de imóvel próprio. Aliás, mais uma “mamata” histórica para a já extensa lista de “mamatas” de Jair. Com a agravante de que, quando questionado por uma jornalista dos motivos para continuar recebendo o auxílio, ele respondeu que usava o dinheiro para “comer gente”.

Assim, de “mamata” em “mamata”, em poucos dias já ficou difícil para Bolsonaro sustentar o discurso de que essa era de privilégios havia acabado. Simbólico que, no dia 10, o Presidente tenha apagado do Twitter a seguinte frase que ele mesmo tinha acabado de escrever: “A era do indicado sem capacitação técnica acabou, mesmo que muitos não gostem. Estamos no caminho certo!”. De todos os recuos de Bolsonaro, sem dúvidas, esse foi o mais sincero.

Mas toda essa “mamata” de distribuição de cargos e aparelhamento do Estado é só a ponta de um iceberg enorme de privilégios que o Governo Bolsonaro representa.

Chega a ser revoltante observar, por exemplo, que, enquanto a mídia e a equipe de Paulo Guedes fazem um verdadeiro terrorismo com a população para nos empurrar goela abaixo uma Reforma da Previdência absurda, a cúpula militar do Governo dá declarações cínicas para deixar as Forças Armadas de fora das mudanças. Justo o setor mais recheado de privilégios dentro do Sistema Previdenciário.

Também revolta que, em meio a tantos privilégios, o novo Presidente da Caixa Econômica Federal, ao falar da política de crédito imobiliário do banco, declare que “quem é classe média tem que pagar mais. Ou vai buscar no Santander, no Bradesco, no Itaú. Na Caixa Econômica Federal, vai pagar juros maior que Minha Casa Minha Vida, certamente, e vai ser juros que vai ser de mercado. Caixa vai respeitar acima de tudo mercado. Lei da oferta e da demanda”.

Assim como revolta ver que, às vésperas do impeachment de Dilma, o já rico Judiciário brasileiro recebeu um aumento enorme e, como se não bastasse, ganhou outra “boquinha” a mais em meio a uma eleição recheada de ilegalidades claras em 2018. Teria sido o preço pelo silêncio em um momento de ruptura democrática?

Bem, com tudo o que vem acontecendo no país nos últimos anos, principalmente desde o Golpe de 2016, e com um Governo eleito para atender os interesses do 1% mais rico da população, me parece que, ao contrário do que o grupo político de Bolsonaro costuma dizer, a tal da “mamata” está só começando.

Almir Felitte é graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

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