As princesas de Jesus e as Fionas feministas
Sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

As princesas de Jesus e as Fionas feministas

Imagem: cena do filme Shrek para Sempre.

Por Simony dos Anjos

 

Está circulando na rede um vídeo de 2015 no qual a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, em um discurso inflamado diz: “Sabe por que elas [as feministas] não gostam de homens? Porque são feias e nós somos lindas”. Trata-se de um encontro de mulheres em uma igreja evangélica, após a frase de efeito as mulheres da plateia gritam euforicamente, apoiando a ideia de serem as “Princesas de Jesus”.

Pastoras que levam esse discurso da “mulher virtuosa” não são novidade e me incomodam, desde sempre. São Pastoras, geralmente esposas de pastores, que têm a incubência de estarem a frente dos trabalhos voltados para as mulheres. Ana Paula Valadão promove um evento anual chamado Congresso Mulheres Diante do Trono, no qual reúne milhares de mulheres e objetiva ensinar a essas mulheres a serem boas esposas, boas mães e submissas aos seus maridos. Numa das palestras que tive a oportunidade de assistir, Valadão incentiva as mulheres a usarem um “tapa decote”, um pano colocado sob o decote da roupa para preservar o seio, que deve ser mostrado apenas para o marido. 

Ana Paula não está só. Dentre essas mulheres destaco a Helena Tannure, uma preletora que dedica anos de sua vida a ensinar as mulheres a serem submissas e serem “cuidadosas e não desmazeladas”. Helena Tannure traz em suas mensagens experiências pessoais de abnegação pessoal em prol da família, dentre elas deixar a vida profissional para cuidar dos filhos, a mando de Deus. 

Há, também, Sarah Sheeva que traz declarações polêmicas como estar há dez anos sem sexo e não sentir falta, pois está se guardando. Ela é a grande idealizadora do Culto das Princesas, um evento cuja entrada é permitida apenas para mulheres e filhos pequenos (meninos grandes não são bem vindos). Dentre os seus ensinamentos estão como ser uma princesa e adverte: “A mulher cachorra aceita migalhas, aceita ser maltratada. Uma princesa, não”.

Nessa seara das mulheres pastoras tem se destacado a “mini pastora”, mais conhecida como Vitória de Deus. Uma garota de 10 anos que desde os 3 ficou famosa no meio evangélico por trazer mensagens homofóbicas, patriarcais e muito preconceituosas. Segundo Vitória: “aos três anos de idade comecei a cantar, aos quatro eu já orava e, aos cinco, recebi o dom da cura para pregar e juntar multidões em torno de mim”.

A Pastora Camila Barros faz uma série de sermões falando que se a mulher quer ser cristã não pode ser feminista. Essa pastora tem protagonizado o que chama de “protesto silencioso” contra o feminismo, com camisetas que contém estampas do tipo “virtuosa de A a Z” – fazendo alusão ao Provérbios 14, 1: “A mulher sábia edifica a sua casa, mas com as próprias mãos a insensata destrói o seu lar”. Um texto muito utilizado na Igreja para colocar toda a responsabilidade do sucesso da família nas costas da mulher e eximindo do marido a tarefa de cuidar do lar e filhos – mas isso é pauta para outra crítica, a do padrão violento de casamento que as igrejas propagam.

Desse movimento das Pastoras Evangélicas podemos tirar um tripé no qual o patriarcado se mantém em nossa sociedade, tripé que ironicamente tem sido divulgado por mulheres, para mulheres, cujas as ideias são:

  1. Mulheres vivem para agradar os homens
  2. Concorrência entre mulheres
  3. Desqualificação da mulher enquanto um sujeito político

Desse modo, essa frase da ministra Damares não é uma colocação descontextualizada, mas a expressão de um movimento de mulheres evangélicas que protagonizam um ataque ao feminismo, promovendo a ideia de que o feminismo vai destruir as famílias e as próprias mulheres. Descrever as feministas como feias é um arma que tem tripla função:

Primeiro, preparar mulheres para viver agradando seus maridos – uma vez que as feministas não seriam capazes de fazer isso, elas são as escolhidas para manter o padrão de família “que está no coração de Deus”.

A outra função é incentivar a concorrência entre mulheres, como um grande concurso de beleza em que a mais bela, recatada e do lar é a campeã. A concorrência entre mulheres é uma velha arma do patriarcado para que, ao concorrerem entre si, as mulheres não se aliem umas às outras e, desse modo, não rompam com toda submissão e sofrimento impostos pela supremacia masculina de nossa sociedade. Ao concorrerem, as mulheres enxergam as outras mulheres como inimigas, ficando mais vulneráveis ao machismo diário que acomete milhares e milhares de lares brasileiros.

Por fim, esse movimento de pastoras desqualifica totalmente uma mulher que queira ter uma vida política ativa e libertária. Esses “protestos silenciosos” nada mais são do que uma maneira de dizer para as mulheres: fiquem quietas e cumpram o papel de procriadoras e cuidadoras de seus maridos e filhos.

E esse movimento pela “feminilidade” tem extrapolado os templos religiosos. No pleito de 2018, o que vimos foi uma série de candidatas que discursaram de modo muito afinado com a velha política. Mulheres que foram escolhidas a dedo para cumprir com a cota de  30% de mulheres candidatas, exigida pela Lei Eleitoral. Mulheres que reproduzem a velha política com um novo verniz: o da mulher que é “protagonista” do seu lar.

A nova composição da Câmara Federal dos deputados conta com 26 mulheres a mais do que a anterior, aumentou de 51 para 77 (o maior número de mulheres que já ocuparam cadeiras na Câmara), mas a maioria delas é conservadora. Por exemplo, Dra Silvana, deputada estadual do Ceará, é filiada ao Partido da República e recentemente afirmou que: “Meu marido é dono do meu mandato e meu mestre”. Ou seja, essa é a expressão de que a política continua sendo dirigida pelos homens, ainda que por meio de suas esposas.

Enfim, essa é uma batalha que nós, Feministas Cristãs, temos travado diariamente em nossas comunidades de fé. Acolher mulheres destruídas por esse ideal de família extremamente opressor e violento e nos unirmos, com todas as feministas, pela luta da emancipação das mulheres de um padrão de família que é baseado na exploração de mulheres nos seus lares e, atualmente, também na cena política. Essa nova realidade da política brasileira é dura, mas nós somos mais duras ainda. Avante!

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

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