O espelho dentro de nós
Segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O espelho dentro de nós

Arte de Gabriel Prado

Esses dias eu me peguei refletindo sobre como nossa sociedade tem se tornado cada vez mais epicurista ao tentar evitar a todo custo a dor e o sofrimento, como se a dor não fosse parte do processo de crescimento pessoal.

As mídias sociais dão a falsa impressão de permanente felicidade. E a nossa sociedade ainda não aprendeu a lidar com o sofrimento. Também não aprendeu a lidar com a própria felicidade, que dirá com a felicidade alheia.

Mais ainda, ela tem se tornado narcisista em níveis que beiram a fatalidade do mito de Narciso, prestes a se afogar em sua própria soberba. As infindáveis selfies diárias que abarrotam os feeds demonstram que vivemos tempos do culto individual da própria imagem.

E não é uma crítica excludente, mas inclusiva. Eu também tenho as minhas selfies espalhadas por aí… Quem nunca?! Mas a questão na minha particularidade mundana tem uma história que não serve como justificativa, mas como reflexão.

A imagem!

Minha imagem, meu reflexo, minha carne sofreu um processo de aceitação lenta. E minha reconciliação com o espelho foi demorada e, por vezes, dolorosa.

Eu cresci em meio a crianças e jovens que não tinham a cor da minha pele negra ou os meus traços como referencial de beleza. Como algo comum em suas rotinas, mas totalmente diferente de suas realidades. Seja pelo “diferentismo” da minha tonalidade, seja pela falta de referências positivas nos meios publicitários, seja pelos “pré-conceitos” deterministas arraigados na nossa sociedade, seja porque eu realmente não fosse bonito mesmo, enfim… Eu acabei sofrendo, ou melhor, acabei experimentando um crescimento pessoal decorrente justamente dessa interação social com pessoas que não conseguiam enxergar a minha beleza negra.

 


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De “tizio” à “negro idiota”, nesses últimos 30 anos venho colecionando alguns casos de racismo pelos quais passei em minha vida e dos quais tenho superado e refletido com cada vez com mais maturidade. Mas o foco desse texto é justamente o resultado implícito e nem sempre visível do que o racismo pode causar em nossa visão sobre a nossa própria imagem. Aquilo que nos faz querer ser quem nós não somos, nos auto mutilar e maltratar nossos cabelos e corpos. E isso, é claro, se nós não estivermos preparados para enfrenta-lo.

E quantas crianças de cinco/seis anos de idade estão?!?

Pois é, eu literalmente cresci de cabeça baixa. Andava na rua sem conseguir encarar as pessoas nos olhos e acabava me vendo como era retratado pelos outros: eu era feio. E, a princípio, isso não teria nada a ver com a minha negritude. E de fato, por muito tempo eu não pensei que tivesse mesmo. Era feio por ser feio, e não por ser negro.

Daí meu intelecto lutava para desmentir essa verdade que eu carregava sobre mim. Eu me olhava no espelho e não via um garoto feio. Mesmo assim eu me achava feio, afinal de contas, se eu não era feio de nascença, deveria ser por maioria de votos.

A descoberta do ponto focal sobre a beleza negra só me veio à mente quando eu enxerguei o ponto oposto dessa afirmação (e isso demorou algum tempo):“se eu sou feio, alguém deve ser bonito, afinal“tudo é relativo””.E para meu espanto, o padrão dos meninos que foram considerados os mais bonitos em todas as salas pelas quais passei sempre esteve atrelado a garotos brancos, de cabelos lisos e loiros e, na falta desses, com os cabelos mais claros.

Invariavelmente!

Por óbvio, se eu era o oposto disso (negro, de cabelos pretos e crespos), como poderia esperar ser considerado “o mais bonito”, ou algo próximo disso?! O que me fazia diferente dos outros garotos não era visto como motivo de atração, mas de rejeição, até mesmo por uma ou outra eventual menina negra que não queria contrariar o senso comum.Lembro de uma vez ter circulado uma lista na oitava série com a “seleção” dos meninos mais bonitos da sala. A minha colocação foi a 18ª de dezenove alunos ao todo… Espetacular para a autoestima de qualquer um não?!

E não que eu ache que fosse culpa deles ou uma conspiração feita por todas as meninas de todas as salas e colégios que frequentei, de forma alguma.

Pelo contrário, a questão central era: qual era a referência que aquelas crianças/jovens tinham de“beleza”? Quem elas assistiam como protagonistas na televisão? Quem estava estampado nos jornais e cartazes que falavam sobre beleza regularmente? Quem eram os príncipes encantados da Disney?… E mais, em quem eu poderia me espelhar para me vestir e ser um pouco mais descolado?

Hoje temos grandes referenciais… De Iza à Rafael Zulu, passando por Taís Araújo e Lázaro Ramos, temos aumentado nossa presença no centro dos holofotes.

Na minha época, a resposta seria fácil: nenhum dos protagonistas se parecia comigo. O único referencial de garoto negro que fez parte do meu mundo foi o personagem “Cirilo” (“original”). Não preciso dizer que ganhei este apelido, como também ganhei diversos outros ao longo da minha vida… A questão do Cirilo era que, apesar de ser protagonista, ele era um personagem frágil e até mesmo patético. Assim, ao invés de ajudar na minha autoestima, serviu apenas para piorá-la. Hoje em dia já até ganhei o apelido de “Pantera Negra”, que salto qualitativo não?!

Depois desse choque de realidade eu comecei a perceber que talvez a opinião alheia não importasse se eu realmente tivesse dentro de mim a certeza de que eles estavam com os parâmetros errados.

“Todo mundo é um gênio. Mas, se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore, ele vai gastar toda a sua vida acreditando que ele é estúpido” – Albert Einstein.

Eu acredito que o conceito de Einstein, mutatis mutandis,se aplica também para a beleza.

Ao sair do ensino médio eu passei por uma verdadeira revolução estética. Eu que vivi quase sempre com o cabelo raspado na máquina 01, deixei o cabelo crescer, tive black-power, tranças, bigode…, e passei a construir e a encontrar a minha própria identidade dentro da aceitação da minha beleza negra. O resultado direto da minha mudança de atitude em relação à minha própria imagem foi justamente conseguir com que outras pessoas enxergassem a beleza que ainda não tinha florescido em mim.


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Qual não foi meu espanto quando comecei a chamar a atenção das meninas consideradas mais lindas pelos meus amigos. Passei de “mais feio” a “bonito” por uma mudança de paradigma interno criado pelo olhar negativo externo associado à tonalidade da minha pele e aos meus traços. Eu sabia que era bonito, de alguma forma, e não estava errado. Eu só precisava aceitar a particularidade da minha beleza. E acredite, toda beleza é particular.

De lá para cá, ainda houveram muitas mudanças, internas e externas, e ainda haverão de acontecer muitas outras. Em tempos de #10yearschallenge, eu daria um belo “meme” com as fotos dos meus 08, 18 e 28 anos.

O principal para mim já foi alcançado: o meu próprio reconhecimento de que minha pele, meu cabelo e meus traços são lindos tanto quanto os de qualquer outro ser humano na face da terra, tudo é uma questão de perspectiva e referencial. O sofrimento às vezes faz florescer em nós algo que jamais surgiria se não o tivéssemos experimentado.

Por fim, tenho que admitir que se as redes sociais têm lá suas falhas,há de se reconhecer também que elas têm democratizado o que pode ser considerado como “padrão beleza”. Hoje todo mundo é um(a) modelo em potencial, uma referência, tem um público, alguém que acompanha aquilo que você faz, as fotos que você tira…

E tenho visto na juventude negra de hoje em dia uma autoestima e um pertencimento que não vi na minha infância. Garotas em transição capilar por terem a quem se espalhar, e que também passaram, em sua maioria, por um processo doloroso de auto reconhecimento e aceitação. Pessoas ensinando outras pessoas como cuidar dos seus cachos…

Enfim, o mundo está mudando e a nossa beleza negra está aí livre, finalmente, para mostrar que nós também podemos ser admirados como somos, e não como querem que nós sejamos.

 

Gabriel Alex Pinto de Oliveira advogado, mestrando em Gestão Tributária pela Trevisan, pós-graduado em Direitos Fundamentais pela Universidade de Coimbra em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM, bacharel em Direito pala Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência na área de Direito Tributário e no estudo das relações étnico-raciais afro-brasileiras.

 

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