Respeitem os memes
Terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Respeitem os memes

Arte de Gabriel Prado

O ano iniciou com uma enxurrada de memes envolvendo política e direitos humanos. Temas como corrupção e armamento também estão na pauta criativa das redes sociais. “Os memes, em grande parte, são produzidos em baixa qualidade técnica, possuindo, em alguns casos, um aspecto grosseiro e intencionalmente descuidado, além de serem realizados de forma lúdica e com uma aparente pretensão de provocar um efeito risível” (HORTA, 2015, p. 13).

Seja na forma de música, vídeos, áudios, fotolegendas ou apenas imagens, muitos têm chamado a atenção na internet para o riso e escárnio que diferentes grupos vêm se envolvendo, seja compartilhando, produzindo ou comentando esses temas. Mas, em especial, quando o tema é gênero e sexualidade parece haver uma crítica maior ao nosso riso, como se não valesse a pena rir demais porque outros temas, tidos comumente como mais importantes, são deixados de lado. Falam isso como se não existissem memes até da reforma da previdência!

Seja como for, é importante considerar que o riso é uma experiência histórica, e, por isso, está sendo produzido via relações muito específicas, ainda que diversificadas, de poder e subjetivação. Foi assim desde o início. Aristóteles (323 a. C. – 335 a. C. [1979]), por exemplo, ao escrever sobre a evolução do gênero comédia, já informava que ela era, diferentemente da tragédia e da epopeia, a “imitação dos homens inferiores”, não devido aos vícios, mas à “parte torpe que é o ridículo”. Santo Agostinho (397-401 [1980]) refere-se ao furto (pecado) como um riso mal que “faz-nos cócegas no coração”, especialmente quando não estamos sós.

Jacques Le Goff e Nicolas Truong (2006), ao nos contar a história do corpo da Idade Média, a partir de vasta documentação, afirmam que, entre os séculos IV e X aproximadamente, o riso era abafado. Entre as várias explicações para tal desvalorização, uma delas se dá pela noção de que o riso se originaria no ventre, uma das “partes baixas” (juntamente com as mãos e o sexo), que eram relacionadas ao mal (carne), comparadas com as de cima (a cabeça e o coração), isto é, “as partes nobres” (espírito). Essa ideia fundamentou certa experiência monástica que chegou a proibir o riso entre os monges, tido como “desonra da boca”. Segundo esses autores, somente depois do século XII é que a Igreja resolveu reabilitá-lo, mas, sob controle: o que vale é o sorriso alegre (divino), dos sábios e dos eleitos, e não o da zombaria (diabólico), pouco discreto e nada suavizado. 

Atualmente, segundo Georges Minois, “O riso está em perigo, vítima do seu sucesso” (2003, p. 593). Baseado em Gilles Lipovetski, o autor caracteriza a sociedade contemporânea como uma “sociedade humorística”, isto é, uma sociedade onde “o riso é receita eleitoral, argumento publicitário, garantia de audiência para os meios de comunicação e até uma incitação à ação caritativa […]” (MIONS, 2003, p. 594). É uma sociedade que se banha no culto da descontração divertida.  E isso tem tudo a ver com a sociedade de consumo, que é, antes de tudo, eufórica.

Mas, observando a realidade política nacional e as ameaças aos direitos humanos em curso, vejo que é preciso minimizar a caracterização que se faz desta “sociedade humorística” em meio a uma visão “desenvolta do mundo”. Basta prestar atenção nos memes nas últimas semanas para discordar da percepção pessimista de que o riso tenha estado “moribundo” ou “vazio” em nosso tempo por ter se transformado em “fogo de palha generalizado, numa sociedade de consenso fraco” (MIONS, 2003, p. 620).

O equívoco desta percepção está na noção de que vivemos em uma sociedade necessariamente de “consenso fraco”, “rasa”. Quem defende essa ideia acredita que não teríamos mais aquilo que trazia vigor ao cômico, os contrates com o sério: seriedade do Estado, da religião, do sagrado, da moral, do trabalho, da ideologia.

Penso ser necessário não generalizar o que Gilles Lipovetski chama de “era do vazio”, como se ela produzisse um estilo descontraído e inofensivo, sem negação e nem mensagem: “O cômico, longe de ser a festa do povo ou do espírito, tornou-se um imperativo social generalizado, uma atmosfera cool, um meio ambiente permanente que o indivíduo suporta até em sua vida cotidiana”. (LIPOVETSKI apud MIONIS, 2003, p. 620). Discordo, mesmo reconhecendo inegáveis mudanças histórico-culturais em torno do riso.

Eles, os memes, precisam ser compreendidos “como uma maneira encontrada pelos usuários de entender o mundo, ressignificando as informações que se apresentam em seu cotidiano, algo que implica mediação, compreensão e crescimento sígnico” (HORTA, 2015, p. 16). O que, para nós que rimos, também serve, e muito, para olhar criticamente para a realidade.

Aí está a importância dos memes, eles podem nos ajudar a ler a realidade, via suas relações de poder (logo, também de desigualdade) e a produção de subjetividades (o que implica nas próprias identidades). Diante da mínima compreensão desse contexto, via os memes, saberemos que a religião (leia-se cristianismo fundamentalista), o Estado (autoritário e ultra-conservador), a moral (hipócrita e anti-democrática), o trabalho (ameaçado pelo retrocesso no campo das conquistas legais), a ideologia (a ideologia de achar que não se tem ideologia) entre outros aspectos, transbordam nos/em memes a partir dos acontecimentos político-nacionais.

Por isso, não vale a pena hierarquiza-los, nem por temas, nem pela intenção na mensagem, mesmo existindo aqueles que não se prestam a rir da norma, das convencionalidades, dos falsos moralismos, das violências institucionais. Tanto os memes que existem na intenção de reiterar a ordem preconceituosa, evitar as transformações necessárias, resguardar os privilégios, como aqueles mais críticos e provocadores das lógicas opressoras, merecem a nossa atenção (o que não significa afirmar que merece nosso compartilhamento/divulgação/envio).

Todos os memes merecem ser levados a sério, até para que possam também ser transformados, politicamente, em fonte de escárnio e denúncia. Se, de fato, estamos preocupados em enfrentarmos às ameaças aos direitos humanos, precisamos seguir rindo, para debochar do meme, isto é, rir dele, mas, às vezes, também com ele. É fundamental, como nunca, entendermos as piadas, contra ou a favor da democracia, ainda que não tenham graça nenhuma. É preciso levar os memes a sério se realmente quisermos ser entendidos enquanto críticos do que tem nos preocupado tanto. Afinal, eles dizem muito daquilo que ameaça os direitos no Brasil contemporâneo, assim como podem ser usados em sua defesa.

Tiago Duque é Doutor em Ciências Sociais. Professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Líder do Impróprias – Grupo de pesquisa em Gênero, Sexualidade e Diferenças (UFMS/CNPq).

 

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Referências Bibliográficas

 

AGOSTINHO, Santo (397-401). Confissões. T. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

ARISTÓTELES (323 a. C. – 335 a. C.). Poética. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

HORTA, Natália Botelho. O meme como linguagem da internet: uma perspectiva semiótica. Dissertação (Mestrado em Comunicação), Universidade de Brasília, 2015.

MINOIS, Georges. História do Riso e do Escárnio. São Paulo: Editora da UNESP, 2003.

LE GOFF, Jacques; TRUONG, Nicolas. Uma história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

 

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