O lugar da “teoria” criacionista
Quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O lugar da “teoria” criacionista

O confronto ciência e fé está na pauta do dia das grandes discussões, cada qual recorrendo a seus poderosos arsenais argumentativos para justificar a primazia de uma sobre a outra. Seria relevante, no entanto, definir os pontos fundamentais neste confronto, no sentido de evitar equívocos e proporcionar um melhor entendimento de ambas.

A ciência, ao converter algo em objeto de estudo, utiliza alguns meios muito peculiares, os famigerados métodos científicos, baseados no princípio da evidência. Assim, a partir da observação da realidade, devem-se seguir inúmeros protocolos pré-estabelecidos para se chegar à conclusão de que existem alternâncias entre fenômenos em que um seria, em tese, causa de outro, de modo que se estabelece entre esses fenômenos observáveis uma sequência lógica e regular, da qual é possível abstrair a existência de regras naturais ou sociais (dependendo do que se analisa), que orientam esta relação de causa e efeito.

O que norteia a ciência é a incessante busca da verdade. Da verdade científica. Forçoso reconhecer, portanto, que a “verdade” objetivada pela pesquisa científica jamais deve ter por pretensão se tornar “absoluta”, inquestionável ou imutável, sob pena de perder a qualificação de conhecimento científico e se transformar em mero dogma. Deve, pois, se curvar ao crivo da correção e da crítica.

Tal aferição implica, talvez, a característica fundamental da ciência: a ideia de que ela se revela por ser ato de “conhecimento”, e não de crença. Conhecemos as proposições científicas a nós apresentadas e, se for o caso, as aplicamos para melhorar a vida das pessoas e, consequentemente, gerar avanços sociais – malgrado o fato de que grande parte do acervo científico sirva a interesses obscuros. Daí porque se fala tanto da razão instrumental da ciência.

Não devo crer cegamente na ciência e nas conclusões científicas. A ciência não é artigo de fé. Pelo contrário, devo, antes de tudo, questioná-la. Lançando mão, naturalmente, do método científico. Sob tal perspectiva, a ciência convive com as falhas, insuficiências, fracassos, limitações e finitudes, coerentemente relacionados à natureza humana, “órgão gestor” que administra e disciplina os pressupostos e os postulados científicos. Isto tudo lhe é inerente. Dessa observação, resta, para a ciência, absorver a indeclinável e difícil lição da humildade, como virtude a ser por ela cultivada.

O criacionismo, por outro lado, quer se arvorar como uma construção científica, só que com o status de verdade absoluta. Mais contraditório do que isso impossível. Ambiciona a consideração de uma ciência, aliás de uma “super ciência”, sendo que, de ciência, não se trata. É, no máximo, uma atraente narrativa de cunho religioso, para o qual não podem ser e não foram aplicados os rigores do método científico. A estes, confronta-se com a dúvida; enquanto, na religião, entram em campo a fé e a crença, cujas premissas estruturadoras não admitem o conhecimento do erro, da falibilidade e do questionamento. Devo eu apenas nelas crer e basta aceitá-las de bom grado para ser verdade.

Quando, inusitada e curiosamente, buscando espaço na grade curricular de ciências nas escolas, o criacionismo desafia a dualidade aqui esboçada, desencadeia antes uma robusta confusão do que um imperativo esclarecimento epistemológico, pois tenta colocar no mesmo saco dois aspectos da realidade humana tão dissonantes entre si, não obstante o argumento retórico amplamente propalado de que ciência e religião devem se conciliar e andar de braços dados para a felicidade geral de crentes e céticos. Enfim, aplicar a mensagem de índole religiosa à ciência seria análogo a pintar paredes com martelo: o instrumento é inadequado.

Marcos Antônio da Silva é mestre em Direito pela UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná

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